#Juntos com quem? Pela união de quem verdadeiramente acredita na democracia

"Os principais veículos de comunicação deram publicidade ao manifesto. No site do movimento, há um texto dizendo qual o objetivo da manifestação"

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Olá, companheiros e companheiras! Tudo bem? Cá estamos, em mais uma semana de pandemia, onde nossos queridos governadores resolveram flexibilizar o comércio no meio de recordes diários de casos confirmados e de mortes por covid-19. Pior de tudo é que a contradição do brasileiro não para por aí. A esquerda brasileira quer se aliar com aqueles que defenestraram a democracia com o argumento de defender a democracia. Vamos lá.

Vocês devem ter visto que na semana passada foram lançados alguns movimentos na internet, como o Estamos Juntos e Somos 70%, de oposição ao governo Jair Bolsonaro. A tônica é a mesma: é preciso unir os brasileiros, de diferentes matrizes ideológicas, contra o atual governo, diante das crises atuais: sanitária, econômica e política. 

O que mais fez sucesso foi o Estamos Juntos, que viralizou nas redes sociais com a #juntos. Os principais veículos de comunicação deram publicidade ao manifesto. No site do movimento, há um texto dizendo qual o objetivo da manifestação. Cito o que considero mais importante.

“Somos muitos, estamos juntos, e formamos uma frente ampla e diversa, suprapartidária, que valoriza a política e trabalha para que a sociedade responda de maneira mais madura, consciente e eficaz aos crimes e desmandos de qualquer governo. [...] Esquerda, centro e direita unidos para defender a lei, a ordem, a política, a ética, as famílias, o voto, a ciência, a verdade, o respeito e a valorização da diversidade, a liberdade de imprensa, a importância da arte, a preservação do meio ambiente e a responsabilidade na economia. Defendemos uma administração pública reverente à Constituição, audaz no combate à corrupção e à desigualdade, verdadeiramente comprometida com a educação, a segurança e a saúde da população. Defendemos um país mais desenvolvido, mais feliz e mais justo”. 

Lindo, não é? O movimento já recebeu mais de mil e seiscentas assinaturas. Entre elas, destaco a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, do apresentador de TV e presidenciável Luciano Huck, da deputada federal Tábata Amaral, entre outros.

E pelas redes sociais, vi diversas pessoas do campo progressista aplaudindo a ideia e assinando o manifesto. Sinceramente, acho um erro crasso a esquerda brasileira estar junto de movimentos assim, ou com estas pessoas. A defesa da democracia e das instituições é extremamente importante e devemos sim lutar por isso. Mas não ao lado de pessoas que:

1 – Apoiaram abertamente o impeachment da ex-presidente Dilma em 2016, sem nenhum crime de responsabilidade cometido, causando uma enorme fratura na democracia;

2 – Foram favoráveis a prisão após condenação em segunda instância com o único objetivo de proibir o favorito ao pleito de 2018 de participar da eleição, rasgando, assim, a Constituição Brasileira de 1988;

3 – Que declararam, abertamente, voto no presidente Jair Bolsonaro ou se abstiveram de votar no segundo turno das eleições;

4 – Que foram completamente favoráveis à PEC do Teto dos Gastos, a Reforma Trabalhista e a Reforma da Previdência, causando danos terríveis à Classe Trabalhadora e ao serviço público nacional.

“Ah, Matheus, mas o momento é de união”. Sim! Concordo! Contudo, de união em quem sempre acreditou e defendeu a democracia e a Constituição. Estamos neste cenário, hoje, por causa da ruptura democrática que vivemos em 2016. E mais, muitos de nós, hoje, acusamos a política de conciliação como um dos fatores que levaram a queda do Partido dos Trabalhadores do poder. Se somos críticos a esta política, por que, cargas d’água, vamos voltar a seguí-la? O #juntos, por exemplo, na sua apresentação, cita conceitos rasos, genéricos e sem objetividade. Não há a menção de projeto definido, o que aumenta a insegurança de fazer parte do movimento. Não dá para saber por quais caminhos os signatários irão caminhar politicamente.

Aliar com golpistas só trará força para eles. Em 2022, descaradamente, subirão nos palanques dizendo que “derrubaram a esquerda corrupta e a direita fascista”, se colocando com Paladinos da Moral, da Justiça e da Democracia. Porém, quando irão assumir os males que causaram ao tirarem uma presidente democraticamente eleita?

Nós cobramos tanto a autocrítica do PT, para que haja uma renovação no partido e no movimento progressista nacional, e vamos aceitar ao nosso lado quem não tem coragem de admitir que errou em 2016 e em 2018? Qual a lógica de um movimento destes? 

“Ah, Matheus! Temos que nos unir contra o fascismo!” Sim, cara pálida. Entretanto, precisamos estar com os nossos. Com aqueles que foram para as ruas em 2016 e em 2018. Que encamparam manifestações, que encararam de frente os golpistas, que foram contra as alianças com políticos e partidos que derrubaram a Dilma nas últimas eleições. É destas pessoas que precisamos. 

“Ah, Matheus! Não temos forças para isso!”. E o Centrão tem? A dita “direita democrática” tem? Não, amigos e amigas! Não tem. O que precisamos é colocar um projeto político para debater. É ouvir as demandas dos trabalhadores; entender a mudança na relação patrão-empregado; é ouvir os anseios dos jovens, dos adultos, dos mais velhos; é escutar as vozes da periferia, que sofrem com a pobreza, a falta de oportunidades e a violência policial; é dialogar com os intelectuais que pensam o país, entre tantos outros atores, atrizes e grupos sociais. 

Quando esta união tiver sido feita, quando apresentarmos um projeto político para debater com a população, aí sim teremos um movimento forte. O que temos hoje é uma guerra narrativa, em que perdemos pois o lado de lá tem financiamento empresarial e uma correnteza de fake news. 

Se unir com pessoas que só defendem a democracia quando lhe convém demonstra ingenuidade e desespero. É de novo “dormir com o inimigo”, como fizemos durante 13 anos. É fazer uma “roleta russa” com a nossa própria sorte e o nosso futuro. 

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