Juro zero implode teto de gasto

(Foto: Ueslei Marcelino - Reuters)

Contradição capitalista tupinquim

O ex-presidente do BC, Ilan Goldfan, no Valor, hoje, diz que o juro baixo, caminhando para zero, no mundo inteiro, veio para ficar, impondo realidade de fora para dentro, demonstrando que o capitalismo nacional não caminha com as próprias pernas.

A grande contradição capitalista brasileira do momento é que os empresários estão com medo de continuar jogando suas economias na especulação sobre a dívida pública, desviando-as da produção, devido ao subconsumismo decorrente da desigualdade social em marcha.

A lição presente do capitalismo mundial é a de que os governos, superendividados, decidiram se salvar de previsíveis incêndios hiperinflacionários, jogando o juro para zero ou negativo, depois do crash de 2008.

Os endividamentos governamentais não suportam mais juros positivos.

Os bancos centrais americano, europeu, japonês, chinês, russo, indiano, coreano etc atuam no mesmo sentido: congelam o custo da dívida, para continuarem se endividando, mas não mais pagando juro para girá-la.

A norma, agora, é o aplicador jogar 100 reais no dia primeiro de janeiro nos bancos e recolher 70 reais em 31 de dezembro.

A desvalorização imposta pelo juro zero ou negativo preserva a dívida, instrumento essencial do capitalismo, para puxar a demanda global, mas congela-a, por tempo indeterminado, para evitar implosão hiperinflacionária do sistema.

Preserva-se a galinha dos ovos de ouro, em vez de matá-la com juros positivos.

Até agora, diante do juro negativo europeu, americano, japonês, chinês etc, os aplicadores internacionais corriam ao Brasil, paraíso fiscal, para continuarem se reproduzindo na especulação financeira tupiniquim.

Mas, como estão vendo que, nos seus próprios países, essa alternativa bichou, por que insistirem nela em terra brazilis, se suas poupanças passam a correr perigo de evaporarem?

Ganharam muito até agora, mas a mamata, de usufruírem juros fixados acima do crescimento do PIB, como ocorre desde o Plano Real, acabou.

Virou risco total continuar a jogatina, potencializando agiotagem que o Estado nacional não consegue mais bancar, enquanto desindustrializa-se o país, via sobrevalorização cambial.

Assim, os empresários brasileiros, que, até agora, faziam esse jogo, colocando suas reservas na especulação, para garantir taxa de lucro elevada, impossível de ser realizada na produção e no consumo, afetados pela austeridade fiscal neoliberal, põem, também, suas barbas de molho.

Entram em pânico, diante do perigo de implosão da dívida pública brasileira, que já se aproxima dos 100% do PIB, girando no curtíssimo prazo, a juros capitalizados, juros sobre juros, anatocismo, condenado, como crime, pelo STF, conforme Súmula 121.

Xeque-mate financeiro!

Nesse cenário, que, se continuar, vai levar para o fogo da especulação, a poupança deles, ganha sem precisar trabalhar, os empresários passam a enxergar o óbvio: somente, sobreviverão, se o governo gastar para puxar demanda global, já que o setor privado, sozinho, não consegue se salvar do afogamento, puxando os próprios cabelos.

A partir dessa lógica, o jogo vira.

O negócio passa a ser romper o teto de gasto, imposto para vigorar por 20 anos, pelos golpistas neoliberais de 2016, pois, se mantido, ao lado de juro positivo, coloca em risco o que os empresários tupiniquins colocaram para render, especulativamente, na dívida pública.

Vai ficando claro que o juro positivo sobre a dívida vira empecilho ao crescimento, por ser causa central do déficit público e da inflação.

Juro zero ou negativo joga o custo da dívida para baixo, ou seja, combate-se, eficazmente, o déficit, enquanto a saída passa ser aumento dos gastos não financeiros, como alternativa para garantir remuneração dos capitalistas, que deixa de se realizar diante de juro zero ou negativo.

Romper o congelamento neoliberal, para que o governo possa aumentar seus gastos, torna-se imperativo categórico kantiano.

Afinal, a única variável econômica, realmente, independente sob capitalismo, é a quantidade de oferta monetária que o governo joga na circulação, como diz Keynes.

Quando ele faz isso, 1 – aumenta preços, 2 – reduz salários, 3 – diminui juros e 4 – perdoa dívida contraída à prazo, pelo governo, famílias e empresas.

Assim, diz o autor de “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, aumenta a Eficiência Marginal do Capital(lucro), e desperta-se o espírito animal dos empresários.

Só juro baixo não dá.

O capitalismo, depois do crash 1929, ainda não descobriu outra saída sustentável que não a keynesiana.

Ao vivo na TV 247 Youtube 247