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Paulo Gala

Paulo Gala é economista e professor da FGV

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Juros longos nos EUA batem máxima desde 2007 e mudam cenário para Brasil em 2026

" O Banco Central se vê novamente encurralado"

Notas de real e de dólar, 18 de dezembro de 2024. REUTERS/Amanda Perobelli (Foto: Amanda Perobelli/Reuters)
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Os juros longos nos Estados Unidos voltaram a assustar os mercados. O título do Tesouro americano de 30 anos atingiu 5,18% na máxima, o nível mais alto desde 2007, numa escalada de estresse que ganhou força na semana passada após a divulgação de indicadores de inflação preocupantes. A inflação ao consumidor segue acima de 3% ao ano, enquanto o atacado já registra alta superior a 5% ou 6%, em patamares próximos aos do período pandêmico.

O mercado precificou hoje uma alta de juros pelo Federal Reserve até o final do ano, enterrando de vez o cenário de cortes que predominava nas expectativas. O petróleo, apesar de uma leve melhora no dia, permanece pressionado. A combinação desses fatores aponta para um 2026 muito mais difícil do que se antecipava.

Para o Brasil, a mudança de postura é imediata e já se sente no câmbio, com o dólar voltando a operar mais próximo de R$ 5,00. No campo monetário, a Selic deve encerrar seu ciclo de cortes em 14%, com espaço para, no máximo, mais um ou dois movimentos de queda. As expectativas de inflação já correm perto de 5% para este ano, e os modelos do Banco Central sinalizam aceleração tanto para 2025 quanto para 2026.

O cenário se agrava quando se considera a sequência de choques de oferta enfrentada pela economia nos últimos anos: a Covid-19, a invasão da Ucrânia pela Rússia, os efeitos do tarifaço americano sobre o câmbio e, agora, a alta do petróleo. A esses fatores soma-se a perspectiva de um El Niño intenso no final do ano, com potencial de pressionar os preços de alimentos e adicionar mais combustível à inflação.

Diante desse quadro, o Banco Central se vê novamente encurralado. Sua única margem de ação está em combater os chamados efeitos secundários — a contaminação dos preços da economia pelo choque primário —, sem qualquer capacidade de agir sobre as causas externas da inflação.

Há, contudo, uma boa notícia. O Monitor do PIB da FGV indica crescimento de 2% no primeiro trimestre, resultado acima do esperado. As políticas de estímulo do governo — Bolsa Família, Pé-de-Meia, auxílios e a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 — seguem sustentando a demanda mesmo com a Selic elevada. Um crescimento de 2% em 2026 seria uma excelente notícia. O problema é que uma atividade econômica mais aquecida também significa mais pressão inflacionária nos serviços, o que torna ainda mais difícil a vida do Banco Central.

O resumo do cenário é esse: Selic parando em 14%, inflação batendo 5%, crescimento possivelmente em 2% — e uma curva de juros americana que, tanto nos títulos de 10 quanto nos de 30 anos, segue pressionando os mercados emergentes, incluindo o Brasil.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.