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Juan Manuel Dominguez

Juan Manuel Dominguez é jornalista

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Justo quando os arquivos do caso Epstein começaram a ver a luz…

Uma cortina de fumaça internacional tenta deslocar o foco de denúncias graves, reconfigurando Trump como herói enquanto crimes permanecem sem resposta

Donald Trump e Jeffrey Epstein (Foto: Reuters)

Justo quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos avisa que irá soltar material sobre o caso da rede de pedofilia liderada por Jeffrey Epstein, amigo de longa data de Donald Trump (documentos provam uma amizade com encontros frequentes desde o início da década dos 80), o presidente dos Estados Unidos, que seria um dos envolvidos nessa rede de pedofilia, decide invadir a Venezuela e chocar o mundo com o sequestro do presidente do país caribenho para ser julgado em Nova York por suposto tráfico de drogas.

Justo quando o rumor sobre como Donald Trump poderia ser mais um das tantas celebridades que pagou para abusar de crianças e cometer um dos crimes mais hediondos que um ser humano poderia praticar, todos nós nos encontramos falando de como os EUA pretendem invadir o país e expropriar seu petróleo sob o argumento de estar recuperando um patrimônio que foi anteriormente roubado. De repente, já não falamos da decadência da direita no mundo, da incapacidade de Trump de dar uma saída justa ao conflito de Gaza, da brutalidade genocida do Netanyahu, das imagens de milhares de crianças mutiladas pelo exército de Israel. De repente, já não temos mais matérias do teatro patético da família Bolsonaro clamando por uma piedade e uns direitos humanos que jamais quiseram dar a ninguém fora (e às vezes ainda dentro) do seu cerco político. Sumiram as matérias dos estarrecedores números econômicos da gestão do Javier Milei, afundando a Argentina numa recessão e no avanço da pobreza que lembra os terríficos anos 90 e a explosão do ano 2001.

Assistimos impávidos como as redes sociais da direita ao redor do mundo explodem de postagens glorificando Donald Trump, colocando-o num lugar de guerreiro libertador, lutador pela democracia e batalhador antinarcotráfico. Sim, o mesmo que, no ano de 2002, descreveu o pedófilo Epstein como um “cara sensacional” que gostava de mulheres bonitas, “muitas delas bem jovens”. O mesmo Donald Trump que aparece inúmeras vezes em fotos e vídeos, ao lado, abraçando, sorrindo, conversando com o pedófilo mais conhecido do mundo. O mesmo Donald Trump condenado por falsificar documentos para ocultar, durante as eleições de 2016, um encontro sexual clandestino e extramatrimonial (já que era casado na época) que teve com Stormy Daniels. Trump, condenado na esfera civil por abuso sexual e difamação contra a jornalista Jean Carroll, por cometer fraude contra a Receita dos Estados Unidos, por tentar alterar o resultado eleitoral na Geórgia.

Donald Trump, acusado por violência doméstica e abuso sexual pela sua ex-esposa, Ivana Trump, em 1990. Ivana afirmou que, em um acesso de fúria após uma cirurgia plástica mal-sucedida no couro cabeludo, Trump a teria jogado no chão, arrancado tufos de seu cabelo e a forçado a ter relações sexuais.

E nós falamos sobre a Venezuela, sobre a possível iminente invasão, sobre a ameaça de fazer o mesmo na Colômbia. E temos medo, eu tenho medo. Quem sente, assim como sentiu Chávez e pontuou Simón Bolívar, que existe uma Pátria Grande, chamada América do Sul, estamos feridos, furiosos e com medo de ver a impunidade do império, mais uma vez, se adentrando no nosso solo, espalhando o medo, tentando dominar uma terra que por direito é livre e soberana. O mundo está com medo, e o medo paralisa, silencia. Mas a gente já passou por isto e já os superamos. O medo precisa ser convertido em um impulso de rebeldia. Não, a direita não é liderada por soldados corajosos do bem. No Brasil, a direita é liderada por uma família de milicianos corruptos e sem vergonha; na Argentina, por um psicopata delirante; e, nos Estados Unidos, por um possível pedófilo, possível abusador sexual, possível agressor de mulheres, empresário corrupto e disseminador de fake news, entre outras coisas.

Donald Trump, um sujeito repulsivo, acusado dos piores crimes que um ser humano pode ser acusado, não pode nos fazer esquecer quem ele é com um ataque covarde e desigual contra um país soberano. “Por trás de toda fortuna gigante, há grandes crimes ocultos”, disse um dos maiores escritores do século XIX. Por sorte, os de Donald Trump os vemos à plena luz do dia. Durante 4 anos, Bolsonaro se sentiu impune para executar um governo desumano; hoje chora preso e afastado do poder. O destino de Trump não será diferente do de todos os déspotas que a história humana teve o desprazer de presenciar.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.