Paulo Henrique Arantes avatar

Paulo Henrique Arantes

Jornalista há quase quatro décadas, é autor do livro "Retratos da Destruição: Flashes dos Anos em que Jair Bolsonaro Tentou Acabar com o Brasil". Editor da newsletter "Noticiário Comentado" (paulohenriquearantes.substack.com)

397 artigos

HOME > blog

Kamala e a civilização contra o “big orange”

"Diante de um Trump, Kamala Harris adquire enorme dimensão democrática"

Kamala Harris e Donald Trump (Foto: Reuters)

Todos os jornalistas do planeta tornaram-se, num passe de mágica, especialistas em Kamala Harris. Gente que nunca pisou nos Estados Unidos tece minuciosas elucubrações sobre seu potencial eleitoral com base nas supostas idiossincrasias do povo americano. Alguns a descrevem como a encarnação do sonho identitário de ver uma mulher negra na Presidência, o que seria o apogeu do progressismo; outros, como uma farsa imperialista que terminará por dizimar de uma vez por todas os palestinos.

Claro está que Kamala não é uma coisa nem outra. Sabe-se que ela ocupa a Vice-Presidência com discrição, o que a princípio é correto, e que seu passado de procuradora lhe dá um ótimo discurso no embate contra um criminoso contumaz. 

Analistas mais realistas que o rei a apontam como anti-imigração, o que não é uma verdade absoluta. Só quem vive nos Estados Unidos sabe onde o calo americano aperta. Certamente, ela não é xenófoba como Donald Trump - e este é o ponto fulcral.

Na verdade, o que interessa à humanidade é que o “big orange” não volte à Casa Branca. A memória parece curta lá como cá. No poder, Trump foi protagonista de alguns dos maiores gestos na direção de uma inflexão anticivilizatória, fosse quando negava o aquecimento global, quando afrontava minorias, ofendia estrangeiros, erguia muros em fronteiras e prestava gentilezas tributárias a milionários. 

Diante de um Trump, Kamala Harris adquire enorme dimensão democrática. Dela não se esperam mentiras escabrosas forjadas contra adversários políticos, tampouco estímulos golpistas como aqueles que culminaram na invasão do Capitólio. Isso já seria suficiente para torcermos por ela.

De outra parte, salvo a manutenção de apoios internacionais de motivação imperialista, o governo Biden, do qual ela faz parte, tem feitos positivos a mostrar. Tratou a economia como instrumento promotor de justiça social. O neoliberalismo foi quase enterrado nos Estados Unidos nos últimos quatro anos, como escreveu o insuspeito Paul Krugman: “Se incluirmos os ganhos salariais devidos à crescente parcela de americanos empregados e ao maior número de horas trabalhadas, o boom de Biden foi, inequivocamente, bom para a renda dos trabalhadores. (...) Os maiores ganhos foram para os trabalhadores mais mal pagos. Assim, o boom de Biden não apenas aumentou a renda geral; reduziu a desigualdade”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.