Lava Jato e seus medos da Vaza Jato

"Embora Dallagnol falasse que o hacker tinha atingido a todos, a cada dia é mais forte na Polícia Federal a suposição de que o alvo foi apenas o seu próprio aparelho", escreve Marcelo Auler, do Jornalistas pela Democracia; "Apesar de oficialmente insistir que não reconhece os diálogos como seus, Dallagnol teme a cada dia o que ainda estar por surgir"

(Foto: Marcelo Camargo - ABR)

Por Marcelo Auler, em seu blog e para o Jornalistas pela Democracia

As conversas dos operadores da Força Tarefa da Lava Jato de Curitiba, divulgadas pelo The Intercept, na série Vaza Jato, deveriam despertar o interesse do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes. Ele, desde 14 de março, por decisão do presidente do STF, ministro Dias Toffoli, investiga ataques à Corte e seus integrantes nas redes sociais.

Nos diálogos travados no Telegram por procuradores, juízes e policiais federais da Operação Lava Jato em Curitiba, certamente haverá trechos que, como apostam algumas pessoas próximas aos lavajatistas paranaenses, interessarão – e muito – ao trabalho do ministro Moraes. Possibilidade que tem deixado em pânico, segundo apurou o Blog em Curitiba, alguns dos membros da Força Tarefa.

Tais diálogos, segundo se comenta em Curitiba, já se tornaram uma das principais preocupações do chefe da Lava Jato curitibana, o procurador Deltan Dallagnol, cujo celular hackeado abasteceu o The Intercept com as conversas nada republicanas dos membros da Força Tarefa. Conversas e áudios que foram encaminhadas por fonte anônima ao jornalista Glenn Greenwald. Mas esta não é a única preocupação dele.

Também teme – como dizem aqueles que viram, na primeira semana de maio, o desespero estampado no rosto de Dallagnol ao perceber que seu celular tinha sido hackeado -, o surgimento nas conversas de nomes ainda não muito conhecidos publicamente. Como de determinado advogado que teve papel importante, nos bastidores, nas negociações em torno das “delações premiadas”. Tão importante que ganhou clientes poderosos.

Embora admitam que o ataque ao celular possa ter ocorrido em abril, foi na semana de 05 a 10 de maio que Dallagnol foi visto na Superintendência da Polícia Federal de Curitiba sem conseguir disfarçar a preocupação estampada na sua fisionomia. Reclamava do hackeamento que, então, pensavam que tivesse atingido os celulares de todos os membros da Força Tarefa. Não apenas de Curitiba, mas do Rio de Janeiro também.

O curioso é que Dallagnol, mesmo sabendo desde o início de maio – ou abril, como já admitiu em algumas reportagens como a publicada no site UOL (Hackers atuam desde abril e se passaram até por jornalistas, diz Lava Jato…) – da ação ilegal do hacker, manteve-se calado por um longo tempo. Tampouco concordou em deixar o seu aparelho – teoricamente funcional, pertencente à Procuradoria da República – para a devida perícia. Preferiu manter escondido o que ali estava armazenado e até já pode ter sido apagado.

O desespero dele à época, conforme muitos ouviram, era provocado por ter consciência que o seu Telegram guardava conversas diversas não apenas entre procuradores da Força Tarefa, mas também com juízes – incluindo Sérgio Moro e a sua substituta na 13ª Vara Federal, Gabriela Hardt – e ainda com jornalistas. Ou seja, conversas que podem revelar vazamentos. Sua sorte, neste momento, pode estar no sagrado compromisso de jornalistas com o respeito ao sigilo das fontes, o que os impede de revelar todos os diálogos captados.

Curiosamente não houve a preocupação, por parte dos investigadores, de realizarem uma busca e apreensão do aparelho para a devida perícia, como cansaram de fazer nas operações da Lava Jato.

A falta de perícia destoa, por exemplo, do que fez no Rio de Janeiro o desembargador federal Abel Gomes, relator dos processos da Lava Jato no Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Ao suspeitar de um hackeamento, ele deu queixa à polícia e deixou o celular para ser periciado.

Embora Dallagnol falasse que o hacker tinha atingido a todos, a cada dia é mais forte na Polícia Federal a suposição de que o alvo foi apenas o seu próprio aparelho. O inquérito instaurado na superintendência do DPF do Paraná é presidido pelo delegado Flávio Setti. Seus esforços podem ser em vão. Os entendidos em internet apostam que dificilmente será possível chegar autor do “furto”.  Dizem que foi trabalho profissionalíssimo, com a utilização de provedores variados, localizados em países diversos.

Além do profissionalismo, o hacker demonstrou ser um provocador. O desespero de Dallagnol aumentou, em meados de maio, ao receber mensagens, vinda de um celular que usava seu próprio número, com fotos das postagens captadas/furtadas do aparelho dele. Junto a promessa de divulgação. A partir daí que surgiram, inicialmente no site Antagonista – considerado por muitos como porta-voz da Lava Jato -, as notícias dando conta de que “criminosos tinham atacado a Força Tarefa da Lava Jato”.

Ficou, no entanto, uma grande dúvida: se Dallagnol sabia, desde o início, que seu aparelho tinha sido vítima de ação criminosa, por que demorou a tornar público tal fato? Por que não denunciou logo que soube? Que motivos lhe impediram de divulgar o seu pedido de investigação à Polícia Federal?

Talvez aguardasse (torcesse?) que o hacker não cumprisse a promessa de divulgar as conversas. Atualmente, diante do pouco que já foi revelado pela série Vaza Jato do The Intercept, apesar de oficialmente insistir que não reconhece os diálogos como seus, Dallagnol teme a cada dia o que ainda estar por surgir.

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