Lava Jato e seus percursos
Uma operação que, sob o pretexto de combater a corrupção, redesenhou o poder, afetou a economia e fragilizou a democracia
Por Francisco Celso Calmon e Leticia Vieira de Mendonça
A chamada Operação Lava Jato foi vendida no Brasil como o maior marco no combate à corrupção da história brasileira. Durante anos, ocupou o centro do debate público, mobilizou a opinião popular e foi tratada como uma cruzada moral contra a política.
Ela inaugurou no Brasil a prática de lawfare: um uso estratégico do aparato jurídico como instrumento de perseguição política. Na Lava Jato, esse mecanismo se manifestou por meio da manipulação de processos, da condução seletiva de investigações e da construção de narrativas judiciais orientadas a produzir efeitos políticos concretos.
Não se tratava apenas de punir crimes, mas de neutralizar adversários, interferir no jogo democrático e moldar a opinião pública, convertendo o direito em arma e o julgamento em espetáculo.
Hoje, com o distanciamento que o tempo permite, o que se revela é outra realidade.
A Lava Jato não foi apenas uma operação judicial. Foi um projeto de poder.
Seus efeitos ultrapassaram, e muito, o campo jurídico. No plano econômico, setores estratégicos da economia nacional foram profundamente atingidos. Empresas da construção civil e petrolífera foram desmontadas, com impactos diretos nos empregos, investimentos e arrecadação. Estudos como o do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Econômicos (Dieese) e das universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) apontaram perdas expressivas, revelando que o custo da operação foi pago, sobretudo, pela nação brasileira.
Mas não só a economia.
No plano institucional, a Lava Jato corroeu princípios fundamentais do Estado de Direito. Vazamentos seletivos, espetacularização midiática e a atuação política de agentes do Judiciário criaram um ambiente em que justiça e disputa eleitoral se tornaram a maior arma política, visto o projeto de necropolítica do país, que visa alimentar as estruturas da base da violência e mantê-las para promoção e jogo político.
O caso mais emblemático desse processo foi a prisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu irregularidades e parcialidades nos julgamentos. A consequência foi direta: Lula foi retirado da disputa eleitoral de 2018, abrindo caminho para a eleição de Jair Bolsonaro.
O impacto sobre a democracia brasileira foi profundo… e deliberado.
Diante desse cenário, a pergunta que permanece é inevitável: quem respondeu por isso?
A pergunta é incômoda, mas a resposta é simples: ninguém.
Os protagonistas da operação não apenas escaparam de qualquer responsabilização, como muitos seguiram suas trajetórias políticas e públicas. Sérgio Moro, um dos símbolos da Lava Jato, permaneceu como figura ativa na política nacional, com ambições ainda maiores.
Grandes veículos de mídia, que atuaram como plataforma de sustentação da operação, seguem exercendo influência sem qualquer revisão crítica proporcional ao papel que desempenharam, inclusive os magistrados do STF que a apoiaram.
A Lava Jato não foi um desvio isolado. Foi um modelo friamente elaborado.
Um modelo que destruiu empresas, causou elevado desemprego, prejudicou centenas de trabalhadores brasileiros, interferiu no processo democrático e tensionou as instituições, sem que seus autores fossem devidamente responsabilizados.
E talvez o ponto mais preocupante seja este: os mecanismos que tornaram tudo isso possível continuam de pé.
A história da Lava Jato não terminou. Ela segue aberta, e seus desdobramentos ainda estão em curso.
E a Justiça confirma sua lentidão!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
