Lava Jato nos currículos dos ministros de Bolsonaro

Segunda-feira de carnaval e o presidente Bolsonaro anuncia a criação da Lava Jato da Educação. Proponho que tal “investigação” comece pelos ministérios, afinal alguns ministros mentiram em seus currículos e isso configura crime de falsidade ideológica

Lava Jato nos currículos dos ministros de Bolsonaro
Lava Jato nos currículos dos ministros de Bolsonaro (Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino)

Segunda-feira de carnaval e o presidente Bolsonaro anuncia a criação da Lava Jato da Educação. Proponho que tal “investigação” comece pelos ministérios, afinal alguns ministros mentiram em seus currículos e isso configura crime de falsidade ideológica.  
 
De acordo com o artigo 299 do Código Penal, Decreto Lei nº 2.848 de 07 de Dezembro de 1940: “Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante:
 
Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa, se o documento é público, e reclusão de um a três anos, e multa, de quinhentos mil réis a cinco contos de réis, se o documento é particular.
 
Parágrafo único - Se o agente é funcionário público, e comete o crime prevalecendo-se do cargo, ou se a falsificação ou alteração é de assentamento de registro civil, aumenta-se a pena de sexta parte.”
 
Listo aqui alguns dos ministros que deveriam ser imediatamente demitidos e presos: 
 
Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, desde 2012 alegava ter mestrado em direito público pela Universidade de Yale, foi desmascarado só agora em 2019 por reportagem do The Intercept
 
Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, dizia, desde 2013, ter mestrado em direito constitucional; direito da família e em educação. Damares não possui nenhuma pós-graduação e ao ser questionada justificou sua mentira com uma passagem bíblica: “E Ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres”. (Efésios 4:11).
 
Ricardo Vélez Rodríguez, ministro da Educação, reivindicava em seu currículo a coautoria no livro: A Problemática da Democracia em Alexis de Tocqueville e Raymond Aron de 2001. O problema é que o outro autor, o próprio Alexis de Tocqueville, morreu em 1859.
 
Sérgio Moro, ministro da Justiça e Segurança Pública, teve seu currículo analisado pelo professor titular de Física na Universidade Estadual de Maringá (UEM), Marcos César Danhoni,  por ocasião da concessão do título de Doutor honoris causa ao então juiz Moro.
 
A avaliação de Neves demonstrou um currículo pobre, de apenas uma página, e com graves inconsistências: “mestrado e doutorado obtidos em três anos.” Ainda segundo Neves, “isso precisaria ser investigado, pois a formação mínima regulada pela CAPES-MEC (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Ministério da Educação) é de 24 meses para Mestrado e 48 meses para o Doutorado.”. (NEVES, 2017).
 
A UEM negou o título de Doutor honoris causa a Sérgio Moro. Prova de que a decisão da UEM foi correta é a entrevista de Moro ao programa Roda Viva de 26 de março de 2018. Durante sua fala Moro cometeu erros de português incompatíveis com um professor universitário e juiz federal. Moro disse: “Haviam pontos positivos", "colheita de provas" e "câmera dos deputados".
 
Escola Bel Pesce de charlatanismo
 
A prática de mentir sobre títulos acadêmicos não se restringe aos ministros; bolsonaristas e integrantes do segundo e terceiro escalões do governo também incorrem nesse crime.
 
Olavo de Carvalho afirma ser filósofo, mas não terminou o ensino fundamental. Talvez por isso, hoje, diga coisas perigosas e lesivas como: vacinas causam infertilidade, matam ou endoidam; fumar faz bem à saúde; a Pepsi é adoçada com fetos humanos abortados; os negros escravizaram os brancos durante séculos etc. 
 
Se você está achando Olavo doido, então saiba que ele já esteve internado em um manicômio e saiu sem receber alta. Será que o ministério da Saúde recomendaria uma dose de eletrochoques para Olavo?
 
Sara Winter, ex-integrante do grupo Femen; antifeminista e anti-LGBT, está cotada a assumir um cargo na Secretaria Nacional da Mulher, órgão do Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos. 
 
Winter, ao responder sobre sua qualificação acadêmica twittou: “Desqualificada eu? Graduação em Relações Internacionais, especialização em crimes na adm. pública, experiência de 4 anos no campo da maternidade, conferencista internacional, agenda cheia até 2021 por toda América Latina, EUA e Europa. 3 idiomas. 26 anos.” (WINTER, 2019). 
 
A verdade é que Sara Fernanda Giromini tem o superior incompleto e provavelmente só o português mesmo. Seu codinome é uma homenagem à Sarah Winter, nazista inglesa membro da British Union of Fascists. Sara ainda ostenta uma tatuagem da cruz de ferro, popularmente reconhecida como um símbolo nazista.  
 
Joice Hasselmann, deputada federal (PSL-SP), líder do governo no Congresso, foi demitida da revista Veja depois que o Sindicato dos Jornalistas do Paraná comprovou que a jornalista “plagiou 65 reportagens, escritas por 42 pessoas diferentes, somente entre os dias 24 de junho e 17 de julho de 2014; o sindicato da categoria rechaçou a atitude da jornalista, que se passou por autora dos trabalhos de vários profissionais da área.”. (REDAÇÃO, 2015). 
 
Menção honrosa para Alexandre de Moraes
 
Alexandre de Moraes, ministro do STF, “pulou o mestrado e fez doutorado em 02 anos (1998-2000). O inacreditável é que o doutorado foi feito concomitantemente ao seu pós-doc, que inclusive se inicia antes do doutorado (1997-2000). Ou seja, ele fez o pós-doutorado antes do doutorado. Uma loucura. No ano seguinte já era livre-docente (2001).” (ALMEIDA, 2017). 
 
Livre-docência é um título acadêmico concedido por instituições de ensino superior através de concurso público aos portadores do título de doutor que se sobressaem no magistério e na pesquisa.  
 
Mas não para por aí, de acordo com matéria da Folha de São Paulo, Moraes seria um plagiador. “Publicado originalmente em 1997 e já em sua 11ª edição, "’Direitos Humanos Fundamentais’" reproduz, sem o devido crédito e sem informar de que se trata de uma citação, passagens de ‘Derechos Fundamentales y Principios Constitucionales’, de Rubio Llorente, publicado em 1995 pela editora espanhola Ariel.”. (VICTOR, BILENKY, & BERCITO, 2017).
 
 Referências:
 
ALMEIDA, Almeida. Alexandre de Moraes tem currículo que indica fraude ou desqualifica a pesquisa. Disponível em: < https://jornalggn.com.br/crise/alexandre-de-moraes-tem-curriculo-que-indica-fraude-ou-desqualifica-a-pesquisa/>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
BRASIL247. BOLSONARO VOLTA ÀS REDES PARA ANUNCIAR PERSEGUIÇÃO E LAVA JATO DA EDUCAÇÃO. Disponível em: <https://www.brasil247.com/pt/247/poder/385711/Bolsonaro-volta-%C3%A0s-redes-para-anunciar-persegui%C3%A7%C3%A3o-e-Lava-Jato-da-Educa%C3%A7%C3%A3o.htm>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
BRASIL247. DAMARES MENTIU SOBRE CURRÍCULO: ‘MESTRE EM EDUCAÇÃO’ E EM ‘DIREITO’. Disponível em: < https://www.brasil247.com/pt/247/brasil/382329/Damares-mentiu-sobre-curr%C3%ADculo-%E2%80%98mestre-em-Educa%C3%A7%C3%A3o%E2%80%99-e-em-%E2%80%98Direito%E2%80%99.htm>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
BRASIL247. VÉLEZ PÔS NO CURRÍCULO LIVRO EM COAUTORIA COM TOCQUEVILLE, MORTO EM 1859. Disponível em: <https://www.brasil247.com/pt/247/brasilia/383756/V%C3%A9lez-p%C3%B4s-no-curr%C3%ADculo-livro-em-coautoria-com-Tocqueville-morto-em-1859.htm>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
BRASIL247. COMO MORO CONSEGUIU SE TORNAR JUIZ COM TANTOS ERROS BÁSICOS DE PORTUGUÊS?, QUESTIONA SITE. Disponível em: < https://www.brasil247.com/pt/247/parana247/349228/Como-Moro-conseguiu-se-tornar-juiz-com-tantos-erros-b%C3%A1sicos-de-portugu%C3%AAs-questiona-site.htm>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
DEMORI, Leandro. Quem inventou a mentira de que o ministro Ricardo Salles estudou em Yale? Disponível em: <https://theintercept.com/2019/02/23/ricardo-salles-yale-mentira/>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
DIAS, Adriana. E se a Sara Winter for nazista? Disponível em: < https://www.revistaforum.com.br/e-se-a-sara-winter-for-nazista/>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
NEVES, Marcos César Danhoni. As mentiras e omissões de Sérgio Moro: uma análise de seu currículo lattes e das novas intenções do juiz. Disponível em: < https://www.revistaforum.com.br/as-mentiras-e-omissoes-de-sergio-moro-uma-analise-de-seu-curriculo-lattes-e-das-novas-intencoes-do-juiz/>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
NEVES, Marcos César Danhoni. Professor diz que formação de Moro deve ser investigada. Disponível em: <https://jornalggn.com.br/artigos/professor-diz-que-formacao-de-moro-deve-ser-investigada/>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
REDAÇÃO. Jornalista da ‘Veja’ é punida por plágio em mais de 60 reportagens. Disponível em: <https://www.revistaforum.com.br/jornalista-da-veja-e-punida-por-plagio-em-mais-de-60-reportagens/>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
VALENTE, Gabriela e OLIVEIRA, Eliane. Presidente da Apex pede demissão e é primeira baixa do governo Bolsonaro. Disponível em: <https://m.oglobo.globo.com/economia/presidente-da-apex-pede-demissao-e-primeira-baixa-do-governo-bolsonaro-23359471>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
VICTOR, Fábio e BILENKY, Thais e BERCITO, Diogo. Obra de Alexandre de Moraes tem trechos copiados de livro espanhol. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/02/1857103-obra-de-alexandre-de-moraes-tem-trechos-copiados-de-livro-espanhol.shtml>. Acesso em: 04 mar. 2019.
 
WINTER, Sara (@_SaraWinter). "Desqualificada eu? Graduação em Relações Internacionais, especialização em crimes na adm. pública, experiência de 4 anos no campo da maternidade, conferencista internacional, agenda cheia até 2021 por toda América Latina, EUA e Europa. 3 idiomas. 26 anos.". 08 de fevereiro de 2019, 11:57 PM. Disponível em: < https://mobile.twitter.com/_SaraWinter/status/1094052763347177472>. Acesso em: 04 mar. 2019.

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