Lava Jato procura desviar a atenção dos crimes que cometeu contra a pátria

"É sob este cenário nada edificante que se dá a tardia operação midiática contra um cardeal do PSDB, uma legenda desacreditada que caiu no colo de Dória"

Deltan Dallagnol e FBI
Deltan Dallagnol e FBI (Foto: Pedro de Oliveira/ALESP | Reuters)
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Os fenômenos sociais não costumam ocorrer por acaso, embora este tenha também o seu papel na determinação da história humana. No que diz respeito à Lava Jato, os registros mostram que suas operações são antecedidas por um frio cálculo político, como se viu na liberação das delações de Palocci pelo ex-juiz Sergio Moro na véspera do pleito presidencial de 2018. Não foi diferente na sexta-feira (3).

A escolha da data para as buscas e apreensões na residência do senador José Serra (PSDB) teve o propósito de desviar a atenção da opinião pública para revelações que desnudam o verdadeiro caráter e objetivo da operação levada a efeito pela chamada República de Curitiba.

Os lavajatistas querem reforçar a aparência de que se trata de uma nobre iniciativa através da qual fica comprovado que a Lava Jato é apolítica, apartidária e focada única e exclusivamente no épico combate à corrupção, apresentado como o mal maior que inferniza este pobre país. Mas a aparência, como alertam os filósofos, nem sempre corresponde à essência e pode ser, como neste caso, uma cínica inversão da verdade. Fatos, versões e interesses diversos se entrecruzam nesse drama.

A corrupção tucana

Dono de contas opulentas no exterior, o senador tucano José Serra recebeu propinas no valor de pelo menos R$ 27,5 milhões da Odebrecht, em troca de favores em obras como a do Rodoanel Sul de São Paulo, e montou um sofisticado sistema de ocultação e administração da fortuna que usurpou na atividade política, segundo os procuradores. Ele e sua filha, Verônica Allende Serra, foram denunciadas pela prática de lavagem de dinheiro transnacional. O MPF obteve autorização na Justiça Federal para o bloqueio de cerca de R$ 40 milhões em uma conta da dupla na Suíça.

“José Serra e Verônica Allende Serra, entre 2006 e, ao menos, 2014, ocultaram e dissimularam, por meio de numerosas operações bancárias, a natureza, a origem, a localização e a propriedade de valores sabidamente provenientes de crimes, notadamente de corrupção passiva e ativa, de fraudes à licitação e de cartel, praticando, assim, atos de lavagem de capitais tipificados no art. 1º da Lei nº 9.613/1998”, sustenta a denúncia do ministério público.  

Política externa

As falcatruas de Serra e Aécio Neves já eram de amplo conhecimento público bem antes de sexta-feira  e são um testemunho poderoso da hipocrisia do tucanato. O PSDB foi grande protagonista político no golpe de Estado de 2016, que derrubou uma presidenta honesta com a falsa bandeira do combate à corrupção. À época, o hoje senador tucano foi premiado por Temer com o Itamaraty. Lá, ele quem inaugurou a nova política externa marcada pela hostilidade com governos progressistas da América Latina e a submissão aos Estados Unidos, orientação radicalizada pelo governo Bolsonaro.

Quando os holofotes midiáticos se voltaram para os malfeitos de Serra o senador paulista pediu demissão (em fevereiro de 2017). Não é de se lamentar a sorte do corrupto tucano. A delação da Lava Jato sobre as propinas de R$ 27 milhões data de dezembro de 2016, quase quatro anos atrás. Lula foi indiciado, condenado e preso em abril de 2018 num processo relâmpago por reformas em um triplex em Guarujá que não era dele e foi vendido após o kafkiano julgamento. A operação conduzida pela República de Curitiba foi orientada por objetivos políticos.  

Balcão de negócios em Curitiba

A credibilidade da Lava Jato, inflada artificialmente pela mídia burguesa sob a liderança da Globo, foi colocada em xeque nesses dias por iniciativas do Intercept Brasil, do Publica e da Procuradoria Geral da República. O procurador Augusto Aras parece decidido a investigar ações ilegais da operação, entre elas a camuflagem dos nomes dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre, com o objetivo de espioná-los à margem da lei. Não é um caso único.

Aras também retomou a negociação de um acordo de delação premiada com o advogado Rodrigo Tecla Duran, que acusou outro advogado, Carlos Zucolotto, amigo pessoal do ex-juiz Sergio Moro, de ter recebido US$ 5 milhões para ajudá-lo a obter vantagens no balcão de negócios da delação premiada construído em Curitiba.

É sob este cenário nada edificante que se dá a tardia operação midiática contra um cardeal do PSDB, uma legenda desacreditada que caiu no colo de Dória.  

A serviço dos EUA

Mais graves que as ilegalidades sob investigação da PGR são as revelações que vieram à tona em reportagens dos sites Intercept e Publica sobre as relações ilegais entre a Lava Jato e o FBI. Os fatos indicam que a operação foi instruída pela inteligência dos EUA e teve um papel central no golpe de Estado de 2016, que afastou Dilma e levou Temer à Presidência da República, assim como na eleição de Jair Bolsonaro em 2018, viabilizada pela prisão de Lula e auxiliada pela divulgação das delações de Palocci. Moro foi, então, recompensado com o Ministério da Justiça.   

Com a cumplicidade da mídia burguesa e da Globo em especial este crime escandaloso tem sido obscurecido e invisibilizado. Não é do interesse dos meios de comunicação hegemônicos, que participaram ativamente do golpe de 2016, investigar as relações perigosas da Lava Jato com o imperialismo americano.

Deltan queria embolsar R$ 2,5 bilhões

Os procuradores liderados por Deltan Dallagnol, que parece um bom mocinho no combate à corrupção mas sempre almejou um enriquecimento fácil e ilícito, queriam embolsar R$ 2,5 bilhões dos acordos ilegalmente firmados com autoridades estadunidenses, relativos a multas aplicadas à Petrobras. Foram impedidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, em março do ano passado.       

Os acordos ilícitos da Lava Jato com os Estados Unidos foram profundamente nocivos aos interesses nacionais do Brasil. A operação enfraqueceu e destruiu multinacionais brasileiras, principalmente nos ramos de petróleo e gás (Petrobras) e construção, com destaque para a Odebrecht. Os impactos sobre o PIB não foram pequenas.

Contribuição de 2,5% para queda do PIB

“Consultorias como GO Associados e Tendências, por exemplo, calculam algo em torno de 2 a 2,5% de contribuição (da Lava Jato) nas retrações do PIB de 2015 e 2016 respectivamente, em função dos impactos nos setores metalomecânico, naval, construção civil e engenharia pesada cujas perdas podem totalizar até R$ 142 bilhões”, observaram os economistas Luiz Fernando de Paula e Rafael Moura. Mais de 1 milhão de postos de trabalho foram sacrificados.

“Os principais efeitos da crise”, asseveram em artigo no jornal Valor, “se concentraram na indústria de construção civil, sofrendo com a paralisia resultante da retração aguda dos investimentos estatais pelos efeitos da Lava-Jato. Os indicadores são impressionantes: entre 2014 e 2017, o setor registrou saldo negativo entre contratações e demissões de 991.734 vagas formais (com preponderância na região Sudeste); entre 2014 e 2016, representou 1.115.223 dos 5.110.284 (ou 21,8%) da perda total de postos da população ocupada no período.”

Lucro maior

A realidade é muito diferente da imagem graciosa que a Lava Jato criou e cultiva com a cumplicidade da mídia hegemônica.

No final das contas, os EUA, que forneceram a inteligência da operação golpista, foram os seus principais beneficiários. O lucro maior veio com a mudança radical da política externa. Com a sucessão de golpes na América Latina (Honduras, em 2009, Paraguai em 2012, Brasil em 2016, Bolívia em 2019), o imperialismo logrou reverter a mudança geopolítica que estava em curso na região e recuperou sua hegemonia política, apesar do irresistível declínio econômico.

Desde Michel Temer, com José Serra e depois com o também tucano Aloysio Nunes, verifica-se a reviravolta das orientações do Itamaraty em consonância com a estratégia geopolítica de Washington. A eleição de Jair Bolsonaro foi o coroamento do golpe para os Estados Unidos. O presidente eleito em 2018 sentou definitivamente no colo de Donald Trump e soma com ele no contrassenso do coro reacionário e racista contra a China, que é a maior parceira comercial do Brasil.

O verdadeiro legado da Lava Jato é um crime de lesa-pátria que, embora encoberto e invisibilizado pelos monopólios midiáticos, já está registrado como um capítulo indigno da nossa história e merece castigo.

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