Leão XIV não é Francisco, mas cumpre seu papel num mundo em guerra
Postura discreta de Leão XIV reforça diplomacia, ação humanitária e condenação firme à guerra em contraste com estilo midiático de Francisco
Quando o Papa Francisco falava, o mundo repercutia. Seu carisma e sua habilidade comunicativa tornaram o Vaticano protagonista dos debates globais. Coloquial, ousado e muitas vezes surpreendente, Francisco não hesitava em nominar quem perpetuava desumanidades, assim abriu conflito direto com Donald Trump. Questionou com propriedade as alas conservadoras da Igreja Católica. Foi, alvissareiramente, um despojado provocador.
Leão XIV é de natureza contida. Nada histriônico, comporta-se institucionalmente. Mas, ao contrário do que possa parecer, já que o pontífice americano não é exatamente um portento midiático, mostra-se atuante contra a promoção de guerras mundo afora. E relevante, ainda que os resultados práticos de sua influência sejam pouco visíveis.
Não se espere que uma homilia papal leve um Trump, um Netanyahu ou outro tirano qualquer a mudar de ideia quanto às suas estratégias belicistas. Os efeitos das posturas da Santa Sé são de outra natureza.
Sabe-se que emissários do Vaticano atuam junto a Estados Unidos, Rússia, Ucrânia, Irã e Israel. Tais diálogos raramente aparecem na imprensa, mas servem para abrir canais quando relações oficiais estão rompidas e transmitir propostas sem custo político imediato, facilitando negociações preliminares sobre, por exemplo, cessar-fogo.
“A Igreja Católica tem um papel central e relevante na diplomacia internacional. Esse papel, muitas vezes, não é percebido. E raramente ela usa declarações explícitas do Papa”, observa o professor de Direito Internacional da USP Wagner Menezes. “Importante lembrar que o Vaticano é considerado um país pelo Direito Internacional e possui núncios apostólicos espalhados pela grande maioria dos países como representantes diplomáticos. Por tudo isso, as decisões do Papa são levadas em conta”, explica.
As manifestações públicas de Leão XIV mobilizam redes católicas globais como a Caritas Internationalis, além de ordens religiosas e dioceses locais. Isso resulta em ajuda alimentar, apoio médico e corredores humanitários informais em países atacados. O efeito concreto das posições papais é o alívio imediato do sofrimento civil, muitas vezes onde Estados não chegam.
Essa ação “invisível” vem sendo devidamente acompanhada de posicionamentos enfáticos do pontífice pela paz, ainda que, como escrevemos no início deste artigo, não alcancem repercussão semelhante à que as palavras de Francisco alcançavam. Na semana passada, durante a celebração do Domingo de Ramos, Leão XIV disse que Deus não escuta as orações daqueles que fazem guerra e invocou o Livro de Isaías: “Quando estendeis as mãos, escondo de vós os meus olhos; sim, quando multiplicais as vossas orações, não as ouço, porque as vossas mãos estão cheias de sangue” — como é sabido, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, já recorreu a argumentações religiosas ou linguagem de “guerra santa” para explicar o ataque ao Irã. Igualmente, na visão católica, as contrapartes fanáticas não serão atendidas em seus apelos aos céus.
Os católicos progressistas podem se orgulhar de Leão XIV. Sobre o conflito na Palestina, o Papa tanto cobrou a libertação dos reféns israelenses quanto condenou o sofrimento imposto à população de Gaza. Paralelamente, alertou para o crescimento do armamento dos países e pediu mudança de paradigma: uma segurança global baseada em confiança, justiça e fraternidade.
Em síntese, Leão XIV tem apregoado a rejeição absoluta da guerra como solução de conflitos, defendido a centralidade da diplomacia e da negociação, dado ênfase às ações humanitárias (civis, fome, reféns) e criticado o rearmamento global. Não se espere do líder católico que se pronuncie a favor de uma ou outra parte em uma guerra. Sua postura será sempre pela paz, nunca pela vitória deste ou daquele lado, ainda que advirta os que têm, de fato, as mãos sujas de sangue. Sabemos quem são.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
