Lembranças boas e amargas de um tempo em que nós nos unimos contra a ditadura

Ao relembrar os tempos sombrios da Ditadura Militar, o jornalista Ricardo Kotscho conclama os profissionais da imprensa a enfrentar a ditadura bolsonarista. "É hora de nos unirmos de novo, em torno das entidades da sociedade civil, como fizemos 44 anos atrás, quando eu era um jovem repórter que tinha medo de sentir medo", diz Kotscho

Por Ricardo Kotscho, no Balaio do Kotscho e para o Jornalistas pela Democracia

Convidado para fazer uma palestra no Auditório Vladimir Herzog na noite de terça-feira, viajei pelo tempo, misturando sentimentos e lembranças, boas e amargas.

E saí de lá mais animado para enfrentar o que vem pela frente.

Assim que cheguei, Paulo Zocchi, o grandão que é o atual presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, logo me entregou uma pasta, sem dizer o que era.

“Parabéns! Dá uma olhada aí!”

Era meu histórico de vida sindical, desde que pedi filiação, em 1969. Por uma feliz coincidência, como o Paulo me lembrou, estou completando 50 anos de sindicato, o que hoje em dia não é uma coisa muito comum.

Tínhamos acabado de entrar no Ato Institucional nº 5, o golpe dentro do golpe, que marcou os tempos mais tenebrosos da ditadura militar para os jornalistas.

Colegas eram presos ou simplesmente desapareciam. A censura prévia foi implantada nas redações.

Era proibido criticar o governo, falar mal de amigos do governo, contar o que estava acontecendo no país.

Trabalhar como repórter era correr risco de vida, ou de morte, como se diz agora.

Quando olhei para a platéia, vi rostos cansados, desesperançados, de jovens e de velhos como eu.

Nem sabia o que lhes dizer. Fui contando minha experiência como secretário de Imprensa do governo Lula no período 2003-2004, o tema que me deram para a palestra.

Nem estava falando coisas tão importantes que justificasse o silêncio do auditório, vigiado por uma grande foto de Vladimir Herzog, o Vlado, que foi preso, torturado e assassinado nos porões do DOI-CODI.

Até tentei contar algumas coisas engraçadas para quebrar o silêncio que me incomodava, mas os colegas continuavam olhando para mim com cara séria, até respeitosa demais.

O gelo só foi quebrado quando começou o debate e passamos a tratar da tragédia que vivemos hoje, comparando-a com aquela de 1975, o ano da morte de Vlado e da transformação do sindicato num reduto da resistência da sociedade civil, graças à liderança firme e valente de Audálio Dantas, o nosso líder.

A partir do grande ato ecumênico na Catedral da Sé, cercada por tropas da PM e agentes militares à paisana, fomos à luta.

D. Paulo Evaristo Arns, o arcebispo paulistano da época, pegando nos braços de Audálio, nos encorajou a não recuar e a denunciar a farsa do “suicídio de Valdo”, que os militares queriam vender à opinião pública.

Mas como denunciar o crime, se os jornais estavam sob censura?

Como repórter do Estadão, não saí mais do sindicato, e fazia matérias todo dia, que os algozes da censura cortavam, mas sempre passava alguma coisa.

É terrível pensar que agora corremos o grande risco de viver tudo isso de novo, desgovernados por um capitão alucinado, que tem ódio dos jornalistas, dos artistas e dos intelectuais, e de tudo que diga respeito à cultura e à ciência.

Para não terminar o debate em clima de baixo astral, procurei animar os estudantes e jornalistas que ali estavam, mostrando que é hora de nos unirmos de novo, em torno das entidades da sociedade civil, como fizemos 44 anos atrás, quando eu era um jovem repórter que tinha medo de sentir medo.

Foi só assim que conseguirmos reconquistar a democracia e espantar a ditadura militar, da qual o capitão sente tanta saudade e quer reimplantar no país, agora com outros métodos, sem tropas na rua, mas disseminando o pavor na sociedade, sob o silêncio do Judiciário e do Congresso.

Não temos ainda jornalistas presos nem deputados cassados, mas a autocensura volta a rondar as redações dos jornalistas ainda empregados que temem ser demitidos.

Mas os primeiros sinais da volta do arbítrio são preocupantes.

A polícia do governador João Doria, em São Paulo, até outro dia fiel aliado do bolsonarismo, já invadiu uma reunião de mulheres do PSOL e domingo passado algemou e prendeu um torcedor corintiano que xingava o capitão na arquibancada, sem ninguém reagir.

É assim que começa e, se nada for feito, eles vão avançar sobre os direitos civis, a liberdade de reunião e de expressão, e tudo o que só a democracia nos garante.

As lembranças amargas do passado reacenderam em mim a vontade de começar tudo de novo e foi isso que procurei transmitir aos colegas: esperança.

Não podemos mais ficar parados, de boca aberta, esperando a morte chegar, como na canção de Raul Seixas.

Duas grandes manifestações de resistência já estão marcadas para os próximos dias.

No dia 13, terça-feira, juntando as 12 centrais sindicais com os estudantes da UNE, que volta às ruas com atos marcados em todo o país contra a reforma da Previdência, que já foi aprovada na Câmara, e a destruição da educação brasileira e dos direitos trabalhistas.

Dois dias depois em Brasília, na sede da OAB em Brasília, com a participação da CNBB e da ABI e dezenas de outras entidades da sociedade civil, será lançada a campanha da Comissão Arns contra a Violência.

O Brasil resiste, se mobiliza, está se unindo de novo, ficando de pé, agora para defender a democracia ameaçada _ para que não tenhamos outros Vlados mortos na tortura.

S.O.S Democracia!

Vida que segue.

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