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Tereza Cruvinel

Colunista/comentarista do Brasil247, fundadora e ex-presidente da EBC/TV Brasil, ex-colunista de O Globo, JB, Correio Braziliense, RedeTV e outros veículos.

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Lembranças da campanha das diretas e da transição

"A democracia é uma vela que carregamos num pires dentro da noite. É preciso não tropeçar, não cair"

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(Foto: Na EBC)

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  Eu havia começado a cobrir o Congresso em 1982, pelo Jornal de Brasília. No início da nova legislatura, em 1982, os novos deputados eleitos no ano anterior circulavam pela casa, especialmente pelo Salão Verde, buscando tornar-se conhecidos da imprensa. Numa tarde, um deputado de terno branco aproximou-se de uma roda em que eu estava e se apresentou: Era Dante de Oliveiro, do PMDB de Mato Grosso.

                Dias depois ele começou a dizer a um e outro jornalista que havia apresentado uma proposta de emenda constitucional restabelecendo as eleições diretas para presidente da República. Só não ríamos por respeito. Aquilo era um disparate. A ditadura havia sofrido derrotas eleitorais em 1974 e em 1978 mas ainda tinha maioria. Estava empenhada no projeto de abertura lenta, gradual e segura iniciado por Geisel,  que devia ser levado a cabo por seu sucessor, o chucro presidente João Figueiredo.

                Havia um detalhe: nas eleições do ano anterior, as de 1982, o povo pudera votar para governador pela primeira vez depois do golpe de 1964. E a oposição elegera governadores de estados importantes. Franco Montoro em São Paulo, Tancredo Neves, em Minas, José Richa, no Paraná, Pedro Simon, no Rio Grande do Sul, Iris Resende, em Goiás, e outros mais do PMDB. Brizola elegera-se governador do Rio pelo PDT.

                A emenda de Dante ganhou registros modestos no noticiário político mas houve um momento em que Ulysses Guimarães, presidente do PMDB, foi convencido pela ala progressista do partido de que aquilo poderia dar samba. Ulysses então levou ao Diretório Nacional do partido a ideia de uma campanha em favor da aprovação da emenda. Nem todos acreditaram que isso seria possível mas a proposta foi aprovada.  A campanha foi anunciada e as articulações começaram.

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                O PT chegou a tentar convocar um ato sozinho mas não teve grande êxito.  A campanha para valer só começou para valer quando as oposições conseguiram se entender e formar uma frente.  

                Em 26 de novembro de1983, os dez governadores da oposição (os 9 do PMDB e Brizola) assinaram um manifesto apoiando a emenda Dante. No dia seguinte houve em São Paulo o primeiro comício unificado, em frente ao Estádio do Pacaembu, que reuniu 15 mil pessoas.  Naquela noite, por coincidência, morreu Teotônio Vilela, o menestrel das Alagoas, uma das maiores vozes da oposição ao regime, com o qual havia rompido anos antes. Tal como Moisés, ele fez a travessia com a oposição mas não viveu para ver a terra da democracia.

                Para a coordenação da campanha os  partidos indicaram o publicitário Mauro Montoryn (PMDB), José Dirceu (PT)  e outros de que já não me lembro. Este grupo começou a planejar os comícios, valendo-se da estrutura dos governos estaduais da oposição. Estas maquinas estaduais foram fundamentais.

                Depois veio uma sequência de comícios, cada qual maior que o outro. Não cobri todos mas participei da cobertura de muitos deles, já pelo Globo. Iris Resende fez o segundo, em Goiânia, depois  o de Curitiba e depois outros numa ordem de que já não me lembro. Cobri o penúltimo, no Rio, em frente à Candelária, mas não o do encerramento, no Vale do Anhagabaú, em São Paulo, que reuniu mais de um milhão de pessoas. Aquelas coberturas não eram trabalho, eram uma festa.

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                Afora aquela constelação de estrelas políticas reunidas num mesmo palanque, havia os artistas e personalidades culturais engajadas. Lembro-me muito da Fafá de Belém cantando em todos os comícios, da atriz Cristiane Torloni, de Beth Carvalho, Martinho da Vila.  Do jogador Sócrates, daquele velhinho que me explicaram ser um advogado famoso, Sobral Pinto. Do jornalista Mario Lago  e do locutor oficial, Osmar Santos. Certamente omito muita gente, de muitas áreas, que também subiu aos palanques.

                O ano virou, houve uma pausa e a campanha foi retomada com o grande comício de Minas, em que Tancredo disse aquela frase: “Minas, Minas, Minas, o outro nome de Minas é a liberdade”. Havia umas 300 mil pessoas na avenida Afonso Pena.  Logo depois Brizola fez o comício do Rio, que coincidiu com o aniversário de 20 anos de sua cassação pela ditadura recém instalada em 1964. Outra coincidência.

                De comício em comício chegamos à votação marcada para 25 de abril. O regime, que já não tinha o AI-5, decretou “Medidas de Emergências”. Para executá-las, Figueiredo designou o comandante militar do Planalto, general Newton Cruz.

Uma multidão havia descido para a Esplanada no final da tarde gritando a palavra de ordem do momento: “1,2,3, quatro, cinco, mil! Queremos eleger o presidente do Brasil”. E lá estava o aparato militar do general, que tinha tanques, paraquedistas, cães, dezenas de viaturas e bombas explodindo. Montado em seu cavalo branco, o general comandou o terror naquela noite.   Minha UnB foi novamente cercada pela polícia mas os estudantes não estavam lá, estavam na Esplanada. Houve correrias, perseguições, explosões de bombas e algumas prisões. Cobri uma parte da refrega, defronte ao Ministério da Justiça, e tive que voltar para escrever.

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Ulysses, naquela altura, havia se transformado no Senhor Diretas. As galerias estavam lotadas e ele foi até lá, no intervalo entre as muitas reuniões que precederam a votação. A oposição não tinha o número de votos suficientes, mas contava com dissidentes da Arena que prometiam votar a favor. O mais ovacionado destes foi Sarney Filho, cujo pai ainda era presidente do PDS, e para quem a Historia ainda guardava muitas reviravoltas. Meses depois ele seria escolhido vice de Tancredo para a disputa indireta no Colégio Eleitoral. Com a morte de Tancredo virou presidente e conduziu com firmeza e habilidade a transição que foi possível.

Muitos dos tais dissidentes, entretanto, roeram a corda. Quando o painel da Câmara abriu,  o sonho acabou. Faltaram 22 votos para o quórum necessário. Olhando para cima, conferindo os números, eu chorava, mas vi logo que eu não era a única.

Eu estava cobrindo Ulysses e segui a comitiva que o acompanhou, cabisbaixo e alquebrado, até seu gabinete no andar inferior da Câmara. Lembro-me de Cristina Tavares e Maria da Conceição Tavares chorando copiosamente, e de Ulysses abraçando as duas. Ali estavam também, amargando a derrota, Fernando Henrique Cardoso, Severo Gomes, Pimenta da Veiga, Covas, Montoro, Quercia e outros próceres do PMDB.

Agora havia aquela matéria triste para escrever com meus colegas de equipe no comitê de imprensa.

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Mas logo depois veio o resto da história: a renúncia de Sarney à presidência do PDS, a formação da frente liberal, a assinatura da Carta Compromisso da Aliança Democrática, lançando a chapa Tancredo-Sarney e prometendo a convocação da Constituinte e a remoção do entulho autoritário. Aquela não foi a transição desejada mas foi a possível, e cobrir todos os seus passos foi uma grande experiência profissional. Mas nada, nada mesmo, em tantos anos de jornalismo, superou aquela chama, aquela energia com que muitos de minha geração cobriram o maior movimento de massas que o Brasil já havia conhecido.

Neste 25 de abril em que recordamos aquela noite de 40 anos atrás, olho para trás e não tenho dúvida de que, mesmo derrotado, aquele movimento mudou o Brasil e antecipou a manhã da democracia, que viria em 15 de janeiro do ano seguinte, com a vitória de Tancredo-Sarney no Colégio Eleitoral.

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Tancredo morreu sem governar e Ulysses morreu no mar. Bem ali na mesa tenho a foto dele segurando meu filho Rodrigo com cinco dias de nascido, já em 1992. O primeiro presidente eleito era Collor, que em breve sofreria impeachment. Neste ano ele morreu no mar de Angra.

Escrevo este artigo após chegar da festa de aniversário de Sarney, que fez 94  anos. Umas 500 pessoas passaram pela casa dele ontem. Ontem, pois já passa da meia noite. Pessoas de todas as tendências e partidos políticos foram abraçá-lo. Nestes tempos de polarização aguda, quem mais conseguiria reunir no mesmo espaço aquela diversidade política, que ia de José Dirceu à governadora bolsonarista Celina Leão? Apenas Sarney. Mesmo os que não viveram aqueles tempos sabem que o destino deixou nas mãos dele o resto da travessia, depois das Diretas, depois do Colégio Eleitoral. “Deus não teria me trazido de tão longe para ser síndico da catástrofe”, disse ao tomar posse.

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A catástrofe política maior viria anos depois, com o desgoverno de Bolsonaro e sua tentativa de golpe. Também isso vencemos, mas não podemos vacilar. A democracia é uma vela que carregamos num pires dentro da noite. É preciso não tropeçar, não cair e não deixar que o vento a apague.

 

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