Lembrar e esquecer, nós estamos no jogo da memória

Parece que continuamos no ambiente da campanha. O "chora mais" da campanha continua irritante depois da vitória. Choramos todos quando lembramos que já fomos um país próspero

Lembrar e esquecer, nós estamos no jogo da memória
Lembrar e esquecer, nós estamos no jogo da memória

Desde as eleições 2018 tenho pensado nos jogos da memória, de lembrar e esquecer. Sou empurrada de alguma maneira para o passado, como um tempo já vivido, mas com sensações e apelos do presente.

Durante a inusitada campanha fomos bombardeados com memes em tom notadamente adolescente. Para qualquer notícia positiva sobre o então candidato e atual presidente, vinham comentários como "chora mais" e "o choro é livre". Tão inusitado, tão fora de esquadro, tão novo no jogo político. Tive que entender que estávamos diante de um grupo com um novo discurso, de tom adolescente, mas com sadismo de um adulto experiente. De repente eu, que já vivi mais de meio século, me vi obrigada a conviver com memes como respostas na falta de argumentos.

Curioso notar que mesmo após a vitória, continuamos nessa mesma fase dos mesmos memes sendo usados. Os que queriam ganhar, hoje querem ser aceitos. Na marra, sem argumentos, com memes, com tudo. O contraditório e difícil de entender é usarem memes quando dados e atitudes negativas do próprio governo são expostos. Para críticas ao desemprego, aumento do combustível, cortes na educação, ainda vemos como respostas "Chora mais", o "Choro é livre". Sim! Choro eu, chora você que lê, choramos todos. Será que nesse atropelo não atualizaram os robôs, ao menos nas respostas que não fazem mais o menor sentido?

Parece que continuamos no ambiente da campanha. O "chora mais" da campanha continua irritante depois da vitória. Choramos todos quando lembramos que já fomos um país próspero. Choramos todos lembrando de um passado recente que muitos têm na memória viva e alguns querem apagar, negligenciar, suplantar.

Ai que preguiça...

"Ai que preguiça", diz Macunaíma. Ai que preguiça uns têm de estudar, questionar, reavaliar posições.

Quando penso que estamos avançando vem alguém e me empurra para o passado, questionando, deturpando sem um mínimo de embasamento ou sustentação teórica.

Estamos sempre dialogando com o passado, seja como referência positiva ou negativa, seja como fator constituinte de nosso presente, seja como visão para uns de um passado em processo continuo se desdobrando no tempo presente.

A memória coletiva não é construída linearmente. É configurada, estruturada, complementada com a memória do outro. Dialoga, portanto, com o passado vivido, sentido, entendido de várias pessoas que de alguma forma estão ligadas por um fato, acontecimento ou período histórico.

Entram em campo, os jogos da memória, lembrar e esquecer. Nosso passado é utilizado simbolicamente para reafirmar identidades pessoais e coletivas no presente. Fatos históricos e memórias coletivas funcionam como um elo e fornece o sentido de continuidade entre passado e presente, estabelecendo uma ponte entre as diferentes dimensões de tempo.

Mexer no passado sem um mínimo de cuidado pode ser perigoso e muitas vezes doloroso, se ainda vivo e com questões mal resolvidas. Esquecemos com facilidade o que vivemos há cinco, dez, vinte anos, pois a memória também é seletiva. Essas reconstruções ou ressignificações muitas vezes nos chegam de maneira abrupta e passamos a adotar a nova teoria como verdadeira, negando até experiências vividas e comprovadas por pessoas conhecidas.

O passado não pode ser modificado, mas podemos acessar, consultar, rever e ressignificar, lançando novo olhar sob episódios à luz de novas questões surgidas no tempo presente. Entramos, então, num outro ponto de discussão: Até que ponto podemos ressignificar, reajustar o passado? Novas interpretações podem surgir sem embasamento teórico que a sustente?

Até que ponto podemos negar, ou modificar fatos, períodos vividos por tantos?

As opiniões estão se configurando na base da confiabilidade e não nos estudos e na busca pelo próprio conhecimento. Se uma pessoa que confio diz e me convence que a partir de hoje a chuva é prejudicial, passo automaticamente a acreditar nisso e odiar a chuva e desejar que nunca mais chova. Se a falta de chuva matar plantações, animais, secar rios, matar pessoas, ainda assim acharei um jeito de defender essa posição. Até que falte água também para mim... Para questionar, teria que, primeiro, duvidar de quem confio, depois teria que considerar opiniões contrárias e ler/estudar sobre o assunto. Nesse jogo das verdades e mentiras, muitas vezes têm se optado por seguir concordando com quem se confia, negligenciando o bom senso, dados científicos e históricos e a própria capacidade cognitiva.

Estamos sempre dialogando com o passado, seja como referência positiva ou negativa, seja como fator constituinte de nosso presente.

Nesse processo vejo-me também, sussurrando a frase clássica de Macunaíma, com preguiça de lidar com os que têm preguiça de acordar.
Ai, que preguiça...

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