Lenin hoje

Sociólogo Emir Sader afirma que Lenin "desenvolveu a mais impressionante análise da realidade concreta de um país". "Não bastava afirmar que a Rússia estava integrada ao sistema capitalista mundial. Era necessário compreender as formas de reprodução do capitalismo num país atrasado, asiático, nas suas condições de subordinação às potencias econômicas europeias", diz

Vladimir Lenin
Vladimir Lenin (Foto: Reprodução)
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Nos 150 aos do nascimento de Lenin, um artigo sobre a sua atualidade.

1. A atualidade do pensamento do Marx é inquestionável. Suas análises sobre o capitalismo são mais atuais do que nunca. Mesmo se, conforme a precisa definição de George Lukacs, “O que há de ortodoxo no marxismo é a dialética”. Isto é, a atualidade do pensamento do Marx é a atualidade da dialética, do método de pensamento que permite apreender a realidade concreta com todas suas contradições.

Podemos dizer o mesmo do pensamento de Lenin? Suas anlises permitem extrair delas métodos de enfocar a realidade que perduram ao longo do tempo? Em suma, qual a atualidade do pensamento de Lenin?

O pensamento do Lenin esteve sempre estreitamente vinculado à Revolução Russa, à construção da estratégia dos bolcheviques, de forma que não é fácil dissociá-lo daquelas circunstâncias concretas. Ele mesmo sempre indicou a “análise concreta da realidade concreta” como o objetivo de seus enfoques.

Ele desenvolveu a mais impressionante análise da realidade concreta de um país com “O desenvolvimento do capitalismo na Rússia”. Não bastava afirmar que a Rússia estava integrada ao sistema capitalista mundial. Era necessário compreender as formas de reprodução do capitalismo num país atrasado, asiático, nas suas condições de subordinação às potencias econômicas europeias. Essa a primeira lição a aprender do Lenin: análise concreta das situações concretas é o que permite superar o dogmatismo e apreender as condições em que se vai atuar politicamente.

2. Porém, o aspecto mais importante da obra de Lenin foi sua compreensão de que o capitalismo passava a uma nova fase da sua história: a fase imperialista. Marx foi o maior teórico da fase de passagem do capitalismo à sua fase industrial. Lenin foi o maior teórico da passagem do capitalismo aos imperialismo.

“O imperialismo, etapa superior do capitalismo” é a obra fundamental em que Lenin constata a passagem do capitalismo a uma nova fase e as consequências politicas que decorrem desse movimento. Lenin constatou inicialmente que o capital em geral havia sido substituído pelo capital financeiro. Este não é somente o capital bancário, mas também o resultado da fusão dos monopólios, que por sua vez se infiltram em todas em todos os domínios da sociedade. Do ponto de vista econômico se vive a substituição da livre concorrência pelos monopólios.

A definição leninista do imperialismo tem cinco características fundamentais:

a. Concentração da produção e do capital. Elemento decisivo: o monopólio.

b. Fusão do capital bancário e do capital industrial: constituição de uma oligarquia financeira.

c. Exportação de capitais (e não já apenas a exportação de mercadorias).

d.  Formação de uniões internacionais monopolizadoras, que dividem o mundo em zonas de influencia.

e. Realização final da partilha territorial do mundo pelas grandes potências capitalistas.

Lenin agrega também o caráter parasitário do capital financeiro, assim como que a exportação de capitais se faz em detrimento do país que os exporta. Desse conjunto de transformações Lenin tira consequências políticas importantes, que permitem compreender o mundo, mais além da previsões de Marx.

3. Marx prognosticava que o socialismo surgiria provavelmente do centro do capitalismo, onde o desenvolvimento maior das forcas produtivas tinham como uma das suas consequências o amadurecimento maior da luta e das contradições de classe. O proletariado, por sua vez, seria expressão, nesses países, de graus de consciência de classe, de organização e de forca política incomparavelmente maiores do que nos países da periferia do sistema. À constituição mais acabada das classes sociais corresponderia um caráter mais intenso das contradições de classe e da luta de classes. Assim, o socialismo teria as condições objetivas e subjetivas mais favoráveis nos países do centro do capitalismo, da Europa ocidental, mais concretamente, naquele momento histórico.

A história se deu por caminhos distintos aos prognosticados por Marx. O sistema capitalista foi rompido primeiro na periferia, na Rússia, com as rupturas tendo continuidade não de volta ao centro, mas na direção mais periférica ainda – na China, no Vietnam, na Coreia, em Cuba. Por que se deu esse deslocamento do centro para a periferia como elos mais frágeis da cadeia capitalista?

É Lenin quem consegue dar a explicação dessa virada política de dimensões estratégicas e suas consequências, com os novos desafios que ela coloca. Por um lado, diz Lenin, conforme os países imperialistas exploram os países da periferia, distribuem uma parte do obtido nessa exploração com sua classe operaria. Como consequência, diminuem os efeitos da exploração da classe trabalhadora dos países imperialistas que, de alguma forma, partilham dessa exploração, formando-se uma espécie de aristrocracia operaria nos países do centro do sistemas imperialista.

Na outra ponta, em compensação, aumenta a exploração dos países colonizados e dominados pelas potencias imperialistas. A intensidade da luta de classes diminui, por exemplo, na Inglaterra, conforme ela redistribui uma parte do que explora de colônias como a Índia e a China, enquanto as contradições nacionais e de classe se intensificam nesses países periféricos.

E’ através desse mecanismo que o elo mais frágil da cadeia imperialista se deslocou para a periferia do sistema, promovendo a ruptura representada pela Revolução Russa. Rússia se tornou o elo mais frágil da cadeia imperialista porque era vitima da dominação das potencias europeias, ao mesmo tempo que vivia uma situação de atraso interna e, além disso, havia sido derrotada na guerra contra o Japão, no começo do século passado.

4. Mas o que o deslocamento do surgimento de poderes anticapitalistas do centro para a periferia muda? De que forma o ponto de vista de Marx foi superado ou apenas teve os seus termos modificados?

E’ de novo Lenin quem consegue responder às novas condições estratégicas para as forcas anticapitalistas. Ele diferencia as condições de tomadas do poder das condições de construção do socialismo. É mais fácil tomar o poder nos países da periferia do sistema, onde os sistemas de dominação são mais frágeis, mas é mais difícil construir aí o socialismo, pelo atraso no desenvolvimento das forcas produtivas e na constituição das classes sociais. 

Ele, o grande estrategista da Revolução Russa, se dá conta, ao mesmo tempo da vitória, como ela coloca desafios que marcarão toda a trajetória da construção do socialismo num país periférico. Mas Lenin é o responsável pela compreensão de como as condições históricas postas pelo imperialismo, pela exploração dos países do Sul pelos do Norte, divide antagonicamente o mundo em duas partes, fenômeno que marcará definitivamente a história dali para frente.

A revolução não se deu na Europa ocidental, nem sequer na Alemanha, tornada o elo mais frágil da cadeia imperialista, pelas brutais condições impostas ao país derrotado na primeira guerra mundial. A tentativa revolucionaria do Espartaquismo da Rosa Luxemburgo e do Libknecht esgotou essa possibilidade, condenando a Revolução Russa ao isolamento histórico por um período longo, definindo os dilemas que terminariam levando a seu final.

E depois da Rússia, a revolução se estendeu para regiões mais distantes ainda do capitalismo central – para a China, para o Vietnam, para a Coreia, para Cuba, para a Nicarágua. Os mesmos condicionantes da Rússia se estenderão para os outros países.

Lenin, na sua obra determinante “O imperialismo, etapa superior do capitalismo”, constara como as grandes potencias haviam terminado de dividir o mundo entre si, no final do século XIX, repartindo-se as colônias entre os blocos imperialistas. A Conferencia de Berlim de 1884 consumou essa divisão, apropriando-se de todo o mundo conhecido. (A ponto que algumas fronteiras na África são feitas com regra, em linha reta, sem adequação aos povos que as habitam.)

Com essa apropriação realizada, Lenin diz que, pela dinâmica essencial do capitalismo de expansão dos seus sistemas, ela só poderia se dar, a partir daquele momento, pelo conflito entre os dois grandes blocos em que se agrupavam as potências imperialistas. Entrava-se numa era de guerras Inter imperialistas por tentativas de reapropriação de territórios por um bloco às expensas do outro. Foi exatamente o que se deu nas duas guerras mundiais, guerras Inter imperialistas, que marcaram toda a primeira metade do século XX.

5. O Congresso da Internacional Socialista de 1914 refletiu como essa divisão afetará o próprio movimento socialista. Decretada a guerra, se colocava para os partidos socialistas a decisão a tomar diante dos seus governos. Se manteria o caráter internacionalista dos partidos socialistas e da própria Internacional ou acompanharia suas burguesias nacionais, que levavam os países a se digladiarem selvagemente numa guerra mundial de caráter Inter imperialista? Em outras palavras, a prioridade deveria estar na luta internacionalista e pacifista contra a guerra, denunciando seu caráter Inter imperialista, disfarçada de patriotismo ou na defesa dos interesses nacionais de cada pais, contra o outro, fazendo com as classes trabalhadoras de cada pais seguissem a suas burguesias e se enfrentassem, no campo de batalha aos trabalhadores dos outros países?

A partir daquele momento o movimento operário e a esquerda passavam a estar divididas entre a social democracia e as forcas anticapitalistas. Entre mencheviques e bolcheviques - como essas correntes se apresentavam na Rússia - entre a Segunda e a Terceira Internacionais. Surgia a social democracia como corrente da esquerda moderada, que abandonava o anticapitalismo pelo Estado de bem estar social. Enquanto a Terceira Internacional herdava a tradição de luta anticapitalista.

6. Na teoria da organização Lenin também inovou. Nas condições concretas da luta contra a autocracia czarista na Rússia, o partido bolchevique surgiu como a forma concreta de organização partidária e se demonstrou ser a forma adequada. O centralismo do partido, seu caráter clandestino, foram características que responderam pela vitória revolucionaria de 1917.

Mas não basta a contraposição entre o tipo de partido legal e de massas da Europa ocidental e o tipo de partido proposto pelos bolcheviques. Lenin definiu uma teoria da organização partidária que tem vigência mais além dessa diferença de inserção histórica.

Essa teoria define três níveis de consciência social por parte dos trabalhadores e da massa da população. Um nível de consciência da vanguarda, que não se altera conforme os momentos dos processos políticos, que está sempre na militância revolucionaria, que se organiza sempre em partidos políticos. Na militância profissional, no sentido de que sua atividade fundamental é a da militância política.

Um nível intermediário, de setores organizados em geral em movimentos populares, especialmente no movimento sindical, que oscila em seus níveis de consciência politica. Se radicaliza e se aproxima da vanguarda no momento da radicalização politica dos processos, retrocede para a luta sindical quando ha retrocessos, sendo afetada pela desmobilização e pelos reveses políticos.

E um setor mais amplo, que em geral não está mobilizado, com nível de consciência baixo, que se mobiliza em momentos de radicalização política, de processos revolucionários. Este é um sintoma do caráter revolucionário dos momentos históricos.

Essa divisão não vale apenas para as condições históricas de tirania política, como as da Rússia e de outros países periféricos. Porque corresponde às condições de produção da consciência de classe nos marcos do capitalismo, sendo válidas para todos os países.

O centralismo democrático, tão criticado, é tão somente a subordinação das posições minoritárias às da maioria do partido, para garantir uma ação unitária. Nem se deve considerar que o partido seria apropriado por uma vanguarda, ele é resultado das condições concretas de mobilização popular. 

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