Lições da história política e econômica da China

A economia chinesa guarda uma história de superação e de enfrentamento a três crises políticas e econômicas desde a fundação da República Popular, em 1949

A economia chinesa guarda uma história de superação e de enfrentamento a três crises políticas e econômicas desde a fundação da República Popular, em 1949. Entre erros e acertos, porém, há a lição de que muitos equívocos vêm da necessidade de se tentar soluções jamais experimentadas, e que a solução para os mesmos não está na dissolução do que já foi construído, mas na adaptação e reordenação da economia aproveitando os ganhos e identificando os pontos em que as diretrizes erraram. Por isso, entender esses processos é fundamental para que o Brasil, que guarda semelhanças econômicas diversas com o gigante asiático, também enfrente a sua crise político-econômica que se arrasta desde 2013.

Quem vê hoje a China como agente econômico protagonista das relações de produção, troca de mercadorias e transferência de tecnologia, sobretudo com a recém-criada iniciativa Cinturão e Rota, que o Brasil 247 cobriu com exclusividade para os brasileiros no fim de abril, não imagina que a renda per capta chinesa, em 1978, quando Deng Xiaoping conseguiu confluir interesses para uma nova política econômica durante o XI Congresso do Partido Comunista, era oito vezes inferior à da Argentina, hoje outro país combalido da América Latina.

A virada da economia planificada derivada das diretrizes soviéticas, que inspirou o malogrado plano econômico do Grande Salto Adiante de Mao Tsé Tung, que previa a criação de comunas agrícolas para maximizar a produção a ser trocada internacionalmente por tecnologias industriais e militares, para a economia socialista de mercado (ou socialista com características chinesas, como o Governo gosta de enfatizar), ocorreu ainda após outra crise política com impactos econômicos. Durante o processo de luta por sedimentação dos valores socialistas na sociedade, visando à formação de consciência pela classe trabalhadora, chamado de Revolução Cultural, nova onda de conflitos sociais – sobretudo entre setores mais radicais quanto às diretrizes de resistência às mais variadas manifestações culturais "antiproletárias" e aqueles que viam com simpatia o ocidente, a religião e outros aspectos culturais combatidos pelo projeto de formação de consciência operária e campesina do presidente Mao – mais uma vez estagnou a produção nacional.

Tudo isso está fartamente documentado em obras editadas pela própria China, como "China's Economy", dos autores Wu Li, Sui Fumin e Zheng Lei, publicada pela China International Press. A mudança ocorreu quando o líder onipresente, porém sem cargos oficiais, Deng Xiaoping, conseguiu que o congresso abraçasse a bandeira de um socialismo de justiça social dentro de seu território, mas aberto à liberdade de propriedade, transações, negócios e migração, obedecendo a regras específicas de garantia da equidade entre os cidadãos e segurança nacional. Aí iniciou-se a retomada da economia chinesa, que, antes de iniciar seu período áureo na virada dos anos 1990 para os anos 2000, ainda viveria novos problemas, no final dos anos 1980, com a crise mundial do socialismo.

Esta, que pôs fim a diversos governos populares como a União Soviética e a Iugoslávia (que foi pulverizada pelas potências europeias em diversos países sem força econômica), resvalou na China durante as manifestações da Praça da Paz Celestial em 1989, superadas pelo Governo não graças à violência, como se apregoa na mídia hegemônica ocidental, mas ao diálogo do poder central para acalmar os ânimos dos dissidentes e reintegrá-los ao projeto de desenvolvimento iniciado por Deng, e ainda graças à luta campesina no interior que, ardorosa defensora das bandeiras de Mao, visto ser ela a origem revolucionária do maoísmo através da Grande Marcha, igualmente ocupou as ruas em defesa do Partido Comunista.

Como se percebe, erros e acertos fazem parte da governança dos países. O Grande Salto Adiante logrou êxitos na modernização e atendeu à necessidade urgente de proteger a soberania nacional, sobretudo com o Governo ilegal do Kuomintang em Taiwan ameaçando o continente com o apoio norte-americano. A Revolução Cultural formou a consciência e estabeleceu elos entre os mais necessitados e o Governo que seriam fundamentais na superação da crise política de 1989. O que se destaca aqui, porém, é a reverência que os líderes não perdem, mesmo os chineses admitindo que eles erraram.

O cerne desse conceito está na admissão da falibilidade desde as doutrinas confucianas, que preveem a mudança constante como solução mais estável para a eventual debilidade de estruturas políticas e econômicas já sedimentadas. O princípio da metamorfose permitiu que, desde o início da China Popular, fosse estabelecido um congresso de milhares de representantes de todas as regiões e etnias do país, a Assembleia Nacional do Povo, que é quem toma as decisões mais importantes sobre o futuro político e econômico da China. Coração da democracia chinesa, eleita indiretamente pelas assembleias locais, estas de eleição direta, ela é caixa de ressonância dos anseios populares, baseada no preparo e estudo de seus membros, que devem passar por qualificações intermináveis para chegar e se manter no cargo, o que evita a presença de desqualificados moral ou intelectualmente, como é comum no ocidente.

Enquanto as potências socialistas ocidentais passaram anos sob ditaduras com mão de ferro, como os charás Josip Tito na Iugoslávia e Josef Stalin na URSS, na China o modelo oriental confuciano de democracia, assentado na cultura do longo preparo e estudo dos líderes para a identificação de quem tem mais vocação para o serviço altruísta ao povo, desde o início foi aberto ao diálogo popular com sua alta câmara. Não à toa, mesmo com suas muitas contradições, a Revolução Cultural atendeu a um anseio popular de quebra das burocracias de Estado e dos privilégios das elites intelectuais, num país onde mesmo a alfabetização era um bem cultural de difícil acesso, dada a complexidade dos caracteres chineses.

Daí a organicidade do chamado "socialismo com características chinesas", aberto ao mercado e à propriedade, porém seguindo regras próprias, e sua compreensão por todos os cidadãos. A título de comparação com o Brasil, essa relação com o povo teria sido importante na superação dos erros de direcionamento da política econômica da ex-presidente Dilma Rousseff (PT, 2011-2016), sobretudo o excesso de desonerações que não tornou mais competitiva a economia. A consciência operária e campesina para o chamado aos mais pobres em defesa do governo popular, proposta pela Revolução Cultural, teria sido fundamental no contexto brasileiro, mesmo pesados aí os excessos cometidos nos anos 1960.

Vencendo crises econômicas graças aos laços jamais rompidos entre o povo revolucionário de 1949 e 1966, as gerações futuras e seu Governo, crises econômicas foram superadas por uma nação disciplinada e forte, que jamais abandonou o seu país. São pontos específicos sobre a histórica da política e da economia chinesas que devem ser estudados pelos brasileiros, a fim de aproveitarmos as condições naturais similares às chinesas (grande extensão de terra fértil, riquezas minerais, grande população – guardadas as proporções – produtora e consumidora) para também percorrer o caminho de desenvolvimento do nosso parceiro do oriente.

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