Lições dos anos de dominação na China

Sempre que se fala em Shanghai, fala-se de uma cidade rica lembra mesmo Nova York e pretende se tornar um polo de tecnologia que seja referência internacional nas próximas décadas. Entretanto, poucos vislumbram o quanto Shanghai foi um polo de dominação dos chineses, sobretudo pelos ingleses

Lições dos anos de dominação na China
Lições dos anos de dominação na China

Sempre que se fala em Shanghai, fala-se de uma cidade rica que, como foi discutido em texto anterior, lembra mesmo Nova York e pretende se tornar um polo de tecnologia que seja referência internacional nas próximas décadas. Entretanto, poucos vislumbram o quanto Shanghai foi um polo de dominação dos chineses, sobretudo pelos ingleses, durante todo o século XIX e metade do século XX. O século da humilhação, como alguns costumam nomear o período de invasões e submissões a várias potências ocidentais e ao vizinho Japão, que só se encerrou com a Revolução Popular de 1949, é hoje para os chineses motivo de lembrança para manter a cultura da resistência. Para o Brasil, deixa lições de como se constrói uma potência mesmo sob ataques internacionais como se vive hoje no país.

Até a década de 1830 a China era uma potência continental, que convivia com certas restrições com os países do ocidente. Grande ponto de comércio no país, a região de Shanghai era rica pelos mercadores que vinham de todas as partes do mundo, principalmente na área de influência da China no Oceano Índico, e também pela pesca. Até o período das caravelas, a distância e a maior disponibilidade de produtos de interesse dos europeus na região das Índias manteve a China segura do interesse ocidental. No século XIX, porém, o navio a vapor tornou viável a exploração das riquezas do extremo oriente. Os ingleses chegaram no começo do século e iniciaram seu processo de colonização.

A princípio, foram recebidos pelo imperador, que buscou implementar com os forasteiros a doutrina filosófica da harmonia, defendida por variados pensadores, dentre eles Confúcio, para estabelecer uma relação cordial com os estrangeiros. Abriu-lhes as portas, cobriu-lhes de presentes e agrados, chamando-os a conhecer sua avançada cultura. Os britânicos, no entanto, rapidamente implementaram sua agenda de dominação, que passava pela circulação de drogas para degradação do povo chinês e desestabilização política do país.

O ópio passou a circular por todo o então chamado País do Meio (ainda o nome da china em mandarim, Zhongguó) e em dez anos havia milhares de pessoas dependentes da droga em todo o país, o que enriquecia os cofres londrinos e ainda ajudava na exploração das riquezas chinesas, minérios, tecidos, rotas comerciais etc. Em 1839, porém, o imperador Daoguang (1782-1850) intimou a Inglaterra a interromper a circulação do ópio no país, ameaçando a rainha Vitória (1819-1901) com a possibilidade de uma guerra. O mais provável é que a senhora da casa de Hannover jamais tenha recebido a carta do líder da dinastia Qing. Os ministros britânicos viram aí, na verdade, uma oportunidade de submeter de uma vez por todas a grande potência do ocidente. Com o projeto de submissão da dinastia Meiji também no Japão, a conquista da China era fundamental para o domínio das rotas marítimas no oriente.

No mesmo ano, teve início a guerra que encerrou-se em 1942. Depois, entre 1850 e 1866, outro ciclo de conflitos devastou a China, que chegou ao período da Imperatriz Cixi (1835-1908) convulsionada por revoltas internas, como a Revolta dos Boxers. A decadência do Império Chinês nas mãos das potências ocidentais seria a responsável pelo fim do tempo dos imperadores. Em 1912, o líder Sun Yat Sen proclamaria a Primeira República, governada pelo Partido Nacional, o Kuomintang. A crise, porém, continuaria por mais quarenta anos, agora sob as invasões japonesas do século XX, que aqui serão tratadas mais tarde.

O importante a se perceber sobre o triste século de 1839 a 1949, da Guerra do Ópio à Revolução Popular, é que nesse período de invasão a China resistiu por meio da transformação, que está presente na filosofia chinesa por meio da doutrina do yin e do yang, da complementaridade que leva à mutação com conservação, avanço social com preservação das tradições. Revoltas sociais como a dos Boxers, em 1899 e 1900, depois a Revolução Xinhai, que depôs o Imperador Puyi (1908-1912), foram decisivas e mostram o perfil revolucionário da China. Não está indo bem, transformemos!

Da Revolução Popular trataremos mais tarde. Importante agora, é perceber o quanto a China encontrou caminhos para resistir ao não ter medo de se transformar. Do ponto de vista da modificação da ordem social, o país e seu povo não têm medo da mudança, sempre realizada em harmonia com seus princípios filosóficos. Isso vale para a implantação de um governo de base marxista, do lançamento da Revolução Cultural para formação de consciência, da abertura ao mercado nos anos 1980, tudo que diferenciou a China dos demais países do bloco socialista no século XX e permitiram que ela não caísse. Ainda hoje, os presidentes chineses costumam escrever suas doutrinas para Governo da China e publicá-las como livros, que são lidos por acadêmicos de todo o mundo. Os últimos são "A teoria dos Três Representantes", de Jiang Zemin (1989-2002) "A construção de uma sociedade harmoniosa", de Hu Jintao (2003-2012), e o "A Governança da China", de Xi Jinping (2013-atualmente).

A noção de não ter medo da transformação social, posta a serviço do bem-estar social e do avanço econômico, lapidado pela China durante os anos da dominação e implementado após a libertação em 1949, é fundamental para se compreender caminhos para o Brasil, ameaçado pelo conservadorismo que impede as mudanças sociais que tentamos implantar no contexto de nossa história e cultura.

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