Língua de sogra

(Foto: Alex Solnik)

Eu não sabia que sogras têm direito às mordomias do presidente da República.

Eu também não sabia quem era o autor e o que dizia a letra do que parece ser o hit atual, apenas sabia seu nome "Deu onda" e achava que se tratasse de alguma musiquinha que falava de surf.

Colhi as duas informações na reportagem da "Folha de S.Paulo" de hoje chamada "Sogra na Balada", assinada por Eliane Trindade.

A matéria revela que Norma Tedeschi, mãe da primeira-dama Marcela Temer e sogra do presidente Michel Temer, participou, "animada e desinibida" da balada cuja atração principal era o autor e intérprete do "Deu onda", o funkeiro MCG15.

Ao subir ao palco, às 2 da manhã de domingo, a primeira frase que ele produziu foi:

"Vocês querem putaria"?

A plateia respondeu que sim e ele cantou o primeiro verso do sucesso, na versão "sem censura", que soma mais de 160 milhões de visualizações no youtube:

"Eu preciso te f..."

A versão "com censura" diz "Eu preciso ter você".

O funkeiro, mais adiante, ignorou a versão "família" do refrão – "O pai te ama" – e mandou ver a que está na internet que a repórter descreveu com o máximo de decoro possível: "o artigo definido 'O' é trocado pelo pronome possessivo 'meu', enquanto o 'i' vira 'u' na palavra 'pai'".

Para um país conhecido musicalmente nos cinco continentes por "Garota de Ipanema" é um espanto que quase toda a população adote esse insulto à inteligência e ao bom gosto como o hino desse verão.

Convidada vip, a sogra do presidente, que mora a 3,4 quilômetros do local da balada, no Palácio do Jaburu, com a filha e o genro não se constrange com o espetáculo degradante. Segundo a reportagem, "Norma registra tudo pelo celular, faz diversas selfies, mostrando-se à vontade no show e integrada ao grupo". E diz à repórter:

"Eu vim autorizada por todo o mundo. Pelo genro, pela filha e pelo netinho".

Parece um dos diálogos da célebre sitcom de Miguel Falabella, "Toma lá dá cá", na qual a sogra de seu personagem usa calças apertadas e é também "animada e desinibida". Mas a "Folha" não é um jornal de humor.

Depois da apresentação que durou 15 minutos e pela qual o funkeiro recebeu cachê de 50 mil reais, "o produtor Junior Gold levou a mãe de Marcela Temer ao camarim do MC G15".

Não sou moralista nem desconheço que grande parte de nossos presidentes da República caiu na gandaia com suas amantes, mas é a primeira vez que a sogra de um presidente participa de uma demonstração explícita do que há de mais indecoroso e ultrajante em nossa música popular – e aprova e gosta.

Ao fazer parte da família de Temer ela representa todos os brasileiros, para o bem e para o mal, deveria desfrutar discretamente de sua mordomia passageira, era o mínimo que se esperava dela. Não precisava nos submeter ao constrangimento e à vergonha.

"Veja" definiu a primeira-dama como "bela, recatada e do lar". Agora, a "Folha" carimbou a sua mãe como "animada e desinibida", contradizendo a máxima "tal mãe, tal filha".

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