Livro de Bolton torna imoral qualquer ataque à Venezuela

Revelação de que Donald Trump considera o país parte do território estadunidense coloca em xeque posições até de setores da esquerda que mantinham posição hostil ao governo de Nicolás Maduro, diz o editor José Reinaldo Carvalho

John Bolton e Nicolás Maduro
John Bolton e Nicolás Maduro (Foto: Reuters)
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Por José Renaldo Carvalho, do Jornalistas pela Democracia - John Bolton, ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos entre abril de 2018 e setembro de 2019, acaba de jogar na Casa Branca uma bomba cujos estilhaços podem acarretar efeitos devastadores neste final de mandato do presidente Donald Trump, comprometendo não só diferentes aspectos da política doméstica, como principalmente as relações exteriores daquela que, embora decadente, ainda é a maior superpotência do mundo. 

No livro "The Room Where It Happened: A White House Memoir" ("A Sala Onde Aconteceu: Uma Memória da Casa Branca", em tradução livre), o ex- assessor presidencial revela entre outras coisas que Donald Trump, cogitou invadir a Venezuela. O titular da Casa Branca considerava "legal" ocupar o país sul-americano, torná-lo uma colônia, por considerá-lo "realmente parte dos Estados Unidos", segundo a narrativa de John Bolton. 

O Departamento de Justiça entrou com uma ação contra o autor, alegando que o livro contém "informações classificadas" e sua publicação "comprometeria a segurança nacional", razão pela qual o lançamento da obra foi adiado para julho, o que ainda é incerto. Os trechos que vieram à luz são vazamentos publicados por veículos da imprensa corporativa estadunidense.  

As razões de Bolton para fazer as revelações comprometedoras decerto não se devem a posições políticas e ideológicas distantes da do ex-chefe, porquanto o ex-conselheiro de Segurança Nacional de Trump é ultraconsevador e defensor extremado da supremacia estadunidense no mundo. Serviu aos governos também reacionários de George H. W. Bush (2001-2009), o verdugo do povo iraquiano, e de Ronald Reagan (1981-1989), expoente histórico da direita norte-americana. Bolton foi demitido em setembro de 2019 por razões táticas conjunturais, depois de se chocar com Trump por causa da recusa do presidente em bombardear o Irã em represália à derrubada de um drone espião dos EUA no Golfo Pérsico.

No governo, Bolton esposava a política de intervenção na Venezuela, de intensificação do bloqueio a Cuba e multiplicação das sanções sobre o Irã. Um ortodoxo da tese de que as sanções econômicas, ao estrangular um país, têm o condão de levantar o povo contra os governos que os Estados Unidos pretendem derrubar via golpe ou intervenção militar.  

As revelações de Bolton comprometem e desmascaram imensamente Donald Trump e o círculo de poder da Casa Branca, até pela proverbial ignorância do presidente que não sabia sobre a capacidade nuclear do Reino Unido nem que a Finlândia não fazia parte da Rússia. Não se descarte a hipótese de amanhã algum outro assessor revelar que Trump também desconheça que a União Soviética foi extinta e a Guerra Fria acabou há 30 anos. 

Quanto à Venezuela, sempre foram indisfarçáveis as pretensões de Trump, que o livro de Bolton corrobora. 

Seu mandato tem sido marcado pelo mantra de que "todas as opções estão na mesa" para a Venezuela. Aplicou meticulosa e constantemente a política de sanções, sempre duras, mas, durante algum tempo, parciais. Em agosto de 2019, proclamou as sanções totais, o bloqueio do país bolivariano. Ao longo dos anos de 2018 e 2019, os agentes e espiões dos Estados Unidos fomentaram as "guarimbas", ações violentas que visavam a desencadear a guerra civil no país.

A opção do golpe de Estado foi tomada em janeiro de 2019, quando o deputado Juan Guaidó se autoproclamou "presidente interino", logo reconhecido pelos Estados Unidos e alguns outros países. 

A intervenção militar foi cogitada um mês depois, com a ajuda dos governos de extrema direita do Brasil e da Colômbia, sob o pretexto de fazer entrar à força na Venezuela uma suposta ajuda econômica. 

Em maio último, mercenários americanos foram capturados na Venezuela em uma tentativa frustrada de se infiltrar no país para sequestrar o presidente Nicolás Maduro. 

A reação do chefe de Estado bolivariano não se fez esperar. Tempestivamente, Maduro se pronunciou por rede nacional de Televisão nesta quarta-feira (17), denunciando as pretensões intervencionistas e colonialistas de Trump e anunciando de novo a sua derrota  

Maduro ironizou: "Segundo Trump, não somos a Venezuela, somos gringos", mas "as verdades estão sendo reveladas, as verdades do que enfrentamos e derrotamos durante esses anos de 2019 e 2020 estão vindo à tona e continuaremos os derrotando", disse o presidente venezuelano.

As revelações do livro de Bolton sobre a Venezuela representam mais uma derrota da estratégia de Trump para liquidar a revolução bolivariana. 

Ainda que não tenha sido sua intenção, o livro de Bolton torna imoral qualquer ataque à Venezuela, mas não só. As suas revelações atingem também as concepções toscas da direita mundial, especificamente a brasileira, e a visão oportunista de setores de "esquerda". Da direita, em razão de a política externa do Itamaraty sob Bolsonaro-Ernesto Araújo mover-se pela obsessão de atacar o país vizinho para aniquilar seu governo democrático-popular. E dos setores oportunistas da esquerda por rotularem o falecido líder Hugo Chávez e o atual presidente como "ditadores". 

Em ambos os casos, não levam em conta a essência do anti-imperialismo e do caráter democrático-popular da República Bolivariana da Venezuela, cuja Constituição proclama o país como "irrevogavelmente livre e independente", tendo por fundamento moral e valores "a liberdade, a igualdade, a justiça e a paz internacional". Conceitos tão simples que tanto a direita quanto os setores vacilantes da esquerda não conseguem entender e aceitar: anti-imperialismo, democracia, justiça e paz.

Estes valores se inspiram na doutrina de Simon Bolívar, o Libertador, atualizada e aperfeiçoada por Hugo Chávez, em pleno contraste e antagonismo com o "destino manifesto" do imperialismo estadunidense, que a Revolução Bolivariana jurou combater. “Os Estados Unidos parecem destinados pela providência para encher de fome e miséria a América em nome da Liberdade”. (Simon Bolívar). O fator contrário era, segundo Hugo Chávez, a compreensão de que o espírito de nossa época é o anti-imperialismo, que se exerce confiando na "pulsão revolucionária das massas populares".

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