Lockdown à brasileira

É nas grandes crises que emergem os verdadeiros líderes e submergem os boçais. Pelo menos nos EUA parece que os dias do Trumpismo estão contados

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Era uma vez um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. E nesse país habitava um povo alegre, esperto, cordial, conciliador, hospitaleiro, pacífico, sem preconceito. Um povo cheio de ginga, que dava um jeitinho em tudo, que carnavalizava a vida. Pelo menos essa era a imagem estereotipada que vigorou durante muitas décadas. 

Um dia desembarcou nesse país um sujeito muito estranho: pálido, quase amarelo, e com cabelos vermelhos espetados. Quem será esse punk branquelo?, pensaram os brasileiros que foram recebê-lo.

– É aqui o Brasil? – perguntou o visitante.

– Não, o Brasil não é aqui, é lá na Argentina – respondeu o brasileiro dando uma risada, e cochichou para seu colega: – Mais um gringo otário. Vamos se dar bem. E aí, Mané, qual é o seu nome?

– Covid. Covid-19.

– O quê? Isso é nome de marciano, mermão. E tu tem cara de marciano mesmo. 

– Vim ensinar o seu povo a ser um pouco mais sério e responsável, disciplinado e solidário. Pra começar, todos vão ter que ficar confinados em casa. Os poucos que tiverem de sair, terão que manter distanciamento entre si e lavar as mãos.  

E então aquele povo metido a malandro, que acreditava em suas fantasias, ficou mais vacilante do que charuto em boca de bêbado, mais perdido do que cachorrinho que caiu da mudança. 

Como manter as mãos limpas quem está acostumado a sujar as ruas, a despejar esgoto em rios, lagoas e mares, a deixar as praias imundas no réveillon? 

Como manter confinado um povo que acha normal atravessar sinal vermelho no trânsito, furar fila, estacionar na calçada, chegar atrasado ou faltar aos compromissos, dar calote em multas, dar troco errado (a menos, sempre), subornar agentes públicos, pedir livro emprestado e não devolver? Em suma, um povo acostumado a burlar as leis e as normas de convívio social civilizado. E isso se aplica também aos governantes, claro. São cheios de retórica vazia. Em março o então ministro da Saúde, o elogiado Henrique Mandetta, afirmou tranquilamente, sobre o tratamento da pandemia: “O Brasil tem uma grande vantagem em relação à Europa, temos o SUS em todas as cidades. Isso nos permite uma agilidade ímpar e nos coloca à frente de nações desenvolvidas no combate ao vírus”.

Todos sabemos que o SUS nunca deu conta nem dos atendimentos normais na rede pública. Dois meses depois da fala do agora ex-ministro, havia no país mais de 10 mil mortos e 156 mil casos, números que nos vinte dias seguintes subiram para mais de 30 mil mortos e mais de 555 mil infectados – números oficiais, não confiáveis. 

Então os governadores decretaram lockdown, ou confinamento. Mas um confinamento bem brasileiro: parcial, sem planejamento adequado, improvisado, sem falar da picaretagem com o dinheiro público. No Rio de Janeiro, as autoridades prometeram sete hospitais de campanha. Dois meses depois de terem gasto uma fortuna, apenas um hospital estava pronto, e funcionando parcialmente, por falta de equipamentos.  

A China construiu em apenas vinte dias dois hospitais de campanha com mil leitos cada um. E tanto os chineses quanto todos os demais países asiáticos e europeus afetados pela pandemia (com exceção da Suécia) começaram a normalizar as atividades públicas só depois que os números de infectados e de mortos passaram a diminuir ininterruptamente. Mesmo com as cautelas, em alguns países, como Coréia do Sul, houve uma segunda onda de infecções e as medidas de abertura foram interrompidas. 

Aqui no Patropi as autoridades estão fazendo exatamente o contrário. Com crescentes números de infectados e de mortos, quase todos os estados brasileiros começaram uma “flexibilização gradual”, eufemismo para liberar geral. 

E assim o país caminha firme para ser, nos próximos meses, o campeão mundial de infectados, devendo ultrapassar os mais de 100 mil mortos registrados nos Estados Unidos. Em suma, a esculhambação, a incompetência e a falta de espírito prático (maior defeito da alma brasileira, segundo Mário de Andrade) colocam o Brasil no seu maior atoleiro de todos os tempos: crise sanitária, crise política, crise econômica e crise ética. 

Claro que essa situação é agravada pela falta de liderança nos altos escalões do poder. O país está desgovernado. No Palácio do Planalto temos um cidadão histriônico, sem controle emocional, inseguro, com necessidade de se autoafirmar o tempo todo e sem ideias próprias. É o Papagaio do Trump, seu ídolo – tudo que o Trump diz ou faz, o Papagaio tenta repetir aqui alguns dias depois.

Enfim, a pandemia está revelando ao mundo as vísceras do Brasil, uma nação mergulhada na dor, na raiva, no medo, no atraso social, político e mental. Uma nação dividida, que perdeu as ilusões, o que é bom, mas perdeu também o rumo. Uma nação sem líderes à altura dos problemas que enfrenta.    

Contudo, é nas grandes crises que emergem os verdadeiros líderes e submergem os boçais. Pelo menos nos EUA parece que os dias do Trumpismo estão contados, a julgar pela onda inédita de protestos antirracistas, e que deverão sem dúvida se refletir nas eleições presidenciais de novembro. 

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