Lucas Penteado e a origem dos outros

Lucas é jovem, negro, morador de favela. Por isso foi tão fácil descartá-lo

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Lucas Penteado, jovem, negro, morador de comunidade, ou simplesmente o BBB que abandonou o programa depois de ter, dentre outras polêmicas, reclamado da conduta (segundo ele) racista de uma jovem branca que fingiu com ele flertar, é assunto país afora. 

Alguns assistiram perplexos à facilidade com que um grupo, representado no programa como uma espécie de microcosmo da sociedade brasileira, o relegou aos cantos, aos insultos, à pressão psicológica, num grito quase uníssono, não havendo defesas úteis à sua figura tampouco comoções relevantes. Lucas, por méritos ou não, tornou-se um “outro.”

Essa estranheza, essa náusea causada pelo comportamento coletivo aumenta quando presenciada num microcosmo, tal qual o elenco do BBB. Mas por que essa decisão pelo isolamento de alguns, embora cruel, não raro é tomada na tranquilidade do ímpeto das verdades sabidas e aceita pela quase totalidade do grupo e pacificamente? 

Ora... A própria formação da civilização como a conhecemos, há séculos, milênios, desenvolveu algo complexo mas que trabalhado amiúde culminou nessa verdade, nesse verdadeiro ser social indispensável – o “outro”, relegado à condição de ser de segunda classe, está na estrutura fundamental da odisseia humana: o grupo, o clã, caçava de uma forma, tinha seus mitos, crenças, etc. 

Ao disputar recursos ou poder político com um outro grupo ou clã era essencial diminuí-los de todas as formas, até para fazer os seus acreditarem que sairiam vencedores na possível batalha, bem como, em caso de vitória, a posição de inferioridade do rival justificasse a utilização sem limites do espólio, entenda-se por ele as riquezas bem como as mulheres, crianças, prisioneiros, e assim foram os primórdios dos trabalhos forçados e da escravidão. Desse embrião surgiu o modelo escravocrata disposto (oficialmente) nos últimos 9.952 anos, se contarmos que a Arábia Saudita fora a derradeira a não permitir trabalhos forçados análogos a escravidão. (contando o começo da era agrícola como há dez mil anos) 

O modelo de dominação do “estrangeiro”, do infiel, do pagão, enfim, do “outro” (ser inferiorizado) foi elemento fundamental para a estabilização do poder desse grupo dominante de recursos, de cultura mais organizada e capaz de desenvolver tecnologia e não raro, também por isso, militarmente mais forte. Esse processo milenar de inferiorização, justificante dos desmandos e por vezes atrocidades do grupo mais poderoso desaguou no nacionalismo dos Estados modernos e por fim, após a revolução científica (1500) na pseudociência que teria a missão de tornar eterna a condição desse ser inferior como um “outro”, a ser explorado ao bem do mais forte, perpetuando assim o poder das elites. Foi desse modo que surgiram as etnias, as raças, as nacionalidades, muitas vezes se sobrepondo à condição humana, justificando as diferenças abissais dos acessos aos meios e também à qualidade da vida. 

A diferença entre o senhor e o escravo, o nobre e o plebeu, o homem livre e o servo, milênio após milênio, acabou por “naturalizar” a existência do “outro”, com reflexos em todas as formas de vida do planeta, se levarmos em conta a condição de miséria que vive o restante da fauna, inferiorizados e servos dos seus senhores, os humanos do gênero homo. Escondendo a raiz unicamente cultural, lapidou-se no cientificismo tosco das eugenias, nas mitologias errantes, nos descompassos dos abusos de classes, poluindo o senso coletivo de justiça por milênios até chegar, é claro, ao microcosmo de um BBB. 

Como disse no início do texto, e disse por que era importante: Lucas é jovem, negro, morador de favela. Por isso foi tão fácil descartá-lo. Espero também que a náusea de quem viu ao vivo e em cores mais um jovem negro jogado nos cantos não passe, e que não faltem, nas gerações vindouras, quem se arrisque a ir até os cantos lhe dar as mãos. 

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