Luiz Carlos Prestes e o movimento comunista brasileiro

"Poucas personalidades no Brasil têm a grandeza política e moral de Luiz Carlos Prestes", escreve o professor Lincoln Secco

www.brasil247.com -
(Foto: Wikimedia Commons)


Por Lincoln Secco 

(Publicado no site A Terra é Redonda)

Poucas personalidades no Brasil têm a grandeza política e moral de Luiz Carlos Prestes. Nele confluem diferentes camadas históricas numa síntese única. Como o cubano Julio Mella ele foi um jovem inconformista dos anos 1920. Como o italiano Palmiro Togliatti e o búlgaro Georg Dimitrov foi um dos símbolos da Revolução Mundial e da Internacional Comunista nos anos 1930. Como a espanhola Dolores Ibárruri, que depois de se tornar La Pasionaria sobreviveu longos anos ao seu próprio tempo, Prestes foi muito além do Cavaleiro da Esperança.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A partir da Revolução Paulista de 1924, o “primeiro” Prestes levantou a guarnição gaúcha em Santo Ângelo e liderou a maior marcha militar da história brasileira. O radicalismo moral dos tenentes eclodiu em todo o Brasil com revoluções no Amazonas, em Sergipe, Mato Grosso, São Paulo e Rio Grande do Sul; mas foi somente Prestes quem aceitou todas as consequências dos seus atos e levou a rebeldia até o fim e até o fundo. Percorreu o país e foi essa leitura prática do território e da população miserável do Brasil que lhe infundiu a necessidade de buscar novas explicações teóricas; de vincular a exitosa tática da guerra de movimento a uma estratégia política para a Revolução Brasileira.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“General” invicto, o capitão da Coluna Prestes – Miguel Costa suscitava a admiração e a inveja dos pares de farda e recebia as negaças das oligarquias dissidentes da velha República. Ao recusar conter a Revolução nos limites do compromisso oligárquico – burguês, o líder da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e, depois, do levante comunista de 1935 tornou-se imperdoável para as classes dominantes e suas forças armadas.

A partir dos anos 1930 Prestes incorporou novo tempo histórico e nova dimensão espacial. Ele se tornou “homem de partido”, chefe inconteste dos comunistas brasileiros e com enorme influência em todos os Partidos Comunistas latino americanos.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O “primeiro” e o “segundo” Prestes sofrem nova derrota em 1964. A estratégia da revolução nacional e democrática do povo em aliança à burguesia nacional naufragou no apoio inconteste das classes dominantes à ditadura de 1964. Depois disso, ele já era um sobrevivente de outro tempo. Prestes continuou nominalmente à frente do PCB, mas estava em gestação o terceiro e “último Prestes” em luta surda dentro da direção do partido e, de certa forma, em acerto de contas com sua própria consciência.

Ele estudou novamente a história do Brasil, aproximou-se das ideias de Florestan Fernandes e criticou a transformação do PCB em cauda política de partidos burgueses. Por volta dos meus dezessete anos de idade pude ver Prestes na Universidade de São Paulo duas vezes. E era impossível não se tornar “prestista” qualquer que fosse o seu partido.

Prestes revia àquela altura a natureza da revolução brasileira e emergia de novo com a juventude, buscava compreender suas novas demandas, apoiava as frações mais radicais das camadas médias e reafirmava a hegemonia do proletariado no processo de democratização que o país exigia.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ele rejeitou o mito que o reduzia a uma figura sem partido e sem ideologia e se reinventou juntamente com o radicalismo da nova classe operária. Operou, assim, uma rotação política inusual num homem de sua idade e soldou seu destino uma vez mais a lutas incertas, porém justas. Porque o que importou sempre em sua trajetória é que, entre erros e acertos, ela se subordinou ao dever moral da revolução.

Essa é a herança; essa é a esperança que ele nos deixou. É o que o belo livro organizado por Gustavo Rolim nos revela. O livro colige documentos preciosos da luta interna e pública de Prestes para que seu partido retomasse a senda revolucionária, como o opúsculo Carta aos comunistas (1980), diversos artigos de jornal e os últimos discursos. Uma declaração de seus apoiadores e artigos de Anita Leocádia Prestes e Florestan Fernandes complementam esse conjunto documental indispensável.

Referência

Gustavo Koszeniewski Rolim. Herança, esperança e comunismo – Luiz Carlos Prestes e o movimento comunista brasileiro – documentos (1980-1995). Marília, Lutas Anticapital, 2020.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email