Lula, a luta de classes e o classismo

Em Porto Alegre, a luta de classes encontrou a sua mais perfeita tradução, numa sentença vazia que transpira o desprezo e o ódio, foi ouvida a voz cortante do classismo desumanizador. Aos desumanizados pelo discurso da violência e da exclusão, resta a humanização pela ação igualitária e inclusiva

lula
lula (Foto: Luiz Cláudio Machado dos Santos)

Na imagem da televisão era impossível não notar o mais absoluto e completo abismo estabelecido entre aqueles três homens e a imensa maioria da população brasileira. Forma e conteúdo, discurso e silêncio, a miséria necessária à riqueza escarnecedora, o ornitorrinco brasileiro estava ali, estranho como sempre, funcional como nunca.

À memória do historiador, talvez por vício profissional, vinham flashes de vídeos, de pinturas, de documentos antigos que remetiam a algum lugar entre a exploração colonial na Idade Moderna e o apartheid sofrido pelas populações negras nos quatro cantos de um mundo, ainda hoje, dominado pelos desejos e interesses do sistema hegemônico internacional, que apesar de onipresente, tem seu painel de controle domiciliado na parte branca do planeta.

Aqueles desembargadores do TRF 4, com seus rostos e mãos, poses e mesuras bacharelescas, filhos e representantes perfeitos das camadas médias brasileiras, nababescamente instalados em seus palácios que ofendem pobres escolas e desequipados hospitais pelo Brasil adentro, produziram um claríssimo retrato de como a pequena burguesia nacional, no seu infinito provincianismo, vê as massas populares e, no caso específico, sua maior liderança, Luiz Inácio Lula da Silva.

É preciso recuperar o caminho que nos trouxe até aqui. Com a desagregação da União Soviética em 1991 surgiram os arautos da vitória definitiva do capitalismo e do sistema político representativo liberal, a tecer elogios à naturalização do status quo, produzindo uma exótica e equivocada interpretação do pensamento de Hegel, como de certa forma resumiu o conhecido livro de Francis Fukuyama: O fim da história e o último homem.

Com a chegada da humanidade ao ponto culminante de sua obra civilizatória, nada mais restaria a fazer senão uma permanente evolução daquilo que, substancialmente, não poderia mais ser ultrapassado. Conceitos revolucionários, como a luta de classes, deixavam de fazer sentido nesse paraíso, enfim alcançado, necessitado apenas de pequenas reformas e ajustes pontuais.

Logo, a realidade se impôs crua e sem disfarces, como é de sua natureza. O sistema de exploração organizado pelo capitalismo continuou a funcionar e a espoliar, com intensidade renovada, massas populares cada vez mais empobrecidas em todas as latitudes e longitudes. Em poucos anos, nem as populações dos países centrais puderam se valer, como antes, das migalhas dos imensos lucros do voraz capital financeiro pois, o welfare state, filho dileto da Guerra Fria, passou a ser questionado e destruído em toda parte, trazendo para as belas avenidas e boulevares do mundo branco a miséria humana em seus cobertores, seus cheiros, drogas alienantes e dilacerante solidão. Cada vez mais o frio cortante do inverno sistêmico invade os corpos e silencia as mentes, dividindo a humanidade, sob os insondáveis critérios da "meritocracia", em perdedores e vencedores. Abaixo da Linha do Equador sabemos o lugar a nós reservado desde sempre na divisão internacional da fortuna e da felicidade.

O que está em marcha, desde então, senão a nossa velha conhecida, a luta de classes?

No Brasil, sem termos sequer conhecido o welfare state pleno, somos empurrados para o abismo da obsolescência produtiva, de forma a (re)organizar vida e economia em torno da vieja hacienda, plantation, ou como preferem os novos senhores, o agrobusiness.

Todavia, nesses velozes tempos midiáticos como fazer crescer o discurso de ódio como justificativa ideológica a tamanha perversão social? Como operar politicamente esse processo que nos faz avançar celeremente em direção ao passado/futuro? Como traduzir em linguagem corrente o novo/velho lugar que nos cabe? Como colocar cada indivíduo em seu "devido lugar"? Esse papel é desempenhado, entre outras falas violentadoras e deslegitimadoras, pelo classismo como vulgarizador da racionalização excludente imanente no mundo real da luta de classes. O classismo, como ideologia dos grupos dominantes e das camadas médias a seu serviço, togadas ou em outros uniformes de serviço, expressa o horror ancestral e visceral aos despossuídos, aos deserdados, aos desvalidos, aos diferentes. Horror a tudo que não se seja espelho, horror a tudo que não seja cartilha. Horror de classe!

De volta àqueles três homens, de aparência tão bem cuidada, de palavrório tão peculiar e próprio ao pseudointelectual, de mãos pálidas e cutículas feitas, de trejeitos gélidos e de tão pouco conteúdo, gritava naquela sala, ensurdecedoramente, o ódio de classe das grandes e pequenas elites nacionais. O ódio ao povo, seus sentidos e seus destinos imaginados. Ódio a quem lhe insufle dignidade ou lhe pegue pelo braço e o faça levantar, alguém que lhe olhe nos olhos e lhe chame para lutar.

Em Porto Alegre, a luta de classes encontrou a sua mais perfeita tradução, numa sentença vazia que transpira o desprezo e o ódio, foi ouvida a voz cortante do classismo desumanizador.

Aos desumanizados pelo discurso da violência e da exclusão, resta a humanização pela ação igualitária e inclusiva. O destino está onde sempre esteve, nas mãos dos que o tomam como sentido e caminham, solidariamente, ao seu encontro.

 

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