Lula e a onda social-democrata no mundo

"Os dois movimentos de Lula (acenos ao Centro e programa antiliberal) são complementares", escreve o jornalista

www.brasil247.com - Alckmin e Lula
Alckmin e Lula (Foto: Stuckert)


Na atual fase de pré-campanha presidencial, o ex-presidente Lula consolida sua liderança com movimentos que alguns analistas reputam contraditórios, mas que considero mais apropriado classificar como perfeitamente complementares.

Lula fez uma inflexão ao centro, e mesmo à direita. Deixou claro que abre a chapa (e parte minoritária do governo) para a participação do ex-adversário Geraldo Alckmin. Foi um aceno não aos tucanos que já não têm força, mas ao mundo financeiro e ao agronegócio.

A tática provocou ebulição na esquerda petista. O movimento de Lula segue a tendência observada em outros países: na Argentina, o peronismo só voltou à presidência ao lançar Alberto Fernández (um conciliador) na cabeça de chapa, deixando a combativa Cristina na vice. Na Bolívia, o MAS de Evo Morales retornou ao poder com a face mais moderada do economista Luis Arce. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Importante notar que nem Arce nem Fernández renegam o que foi feito pelos antecessores. Os dois contaram com movimentos sociais que foram para rua derrotar a direita fascista boliviana e a direita liberal argentina. Mas, sem abrir mão da tradição de luta, procuram o diálogo para compor novas maiorias.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Ah, diriam alguns, de que serve um peronismo tão moderado? Ora, Fernández acaba de conseguir repactuar acordo com FMI, aliviando a economia argentina; e, mais importante, foi à Rússia para acertar o ingresso do país nos BRICs. Ou seja: a moderação política é completada por movimentos internos e geopolíticos que deixam clara a linha progressista do governo peronista. 

Na Europa, o retorno da social-democracia também emite sinais sobre o novo ciclo que se constrói. Parece evidente que o avanço da extrema-direita e do liberalismo radical (que, por sua vez, são consequência da longa crise capitalista iniciada em 2008 e aprofundada com as ondas migratórias e a pandemia) leva à construção de frentes democráticas, com programa de centro-esquerda, capazes de oferecer paz social e soluções imediatas para se contrapor ao "programa" neofascista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Em Portugal, a esquerda que apostou na radicalização (Bloco de Esquerda e PCP) perdeu feio nas urnas. Ganharam os moderados socialistas, que agora têm musculatura para enfrentar o avanço do fascista Chega. Na Espanha, a "nova esquerda" agora abrigada no Unidas Podemos fez movimentos erráticos durante anos, até concluir que a única saída era uma frente parlamentar que garantisse ao social-democrata PSOE as condições de governar. E esse arranjo - precário, mas necessário - acaba de garantir aos espanhóis mudanças na lei trabalhista aprovada há mais de uma década pelos conservadores, oferecendo agora melhores condições de vida e de luta para os trabalhadores.

De volta ao Brasil, notemos que, ao mesmo tempo em que acena para a direita, Lula tenta consolidar uma Federação de centro-esquerda e lança as bases de um programa de reconstrução do país: a Reforma Trabalhista será revista, nos mesmos moldes da Epanha; a política de preços da Petrobrás será completamente modificada.

Os acionistas estrangeiros, avisa o petista, não podem ter o controle de uma empresa construída pelo esforço da sociedade e do Estado brasileiro. Se um terceiro governo Lula conseguir rever esses pontos, já terá um saldo amplamente positivo. 

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Os dois movimentos de Lula (acenos ao Centro e programa antiliberal) são complementares. A burguesia preferia um candidato puro sangue da tal Terceira Via. Mas entre Lula e Bolsonaro, parece se inclinar para o petista porque ele é quem traz previsibilidade. Ao dizer com clareza que pretende rever parte dos cânones liberais, Lula põe as cartas na mesa e faciilta o diálogo. Cria racionalidade e aposta em soluções negociadas.

Ah, mas isso é ceder tudo para a burguesia, abrindo mão do combate - dizem alguns mais à esquerda. 

Não. Isso é travar o combate por outros caminhos. 

Quanto Lula terá que ceder nas negociações? Isso dependerá do tamanho de cada um nas ruas e também no Congresso. Por isso, a tática de construir a Federação ganha papel central.

Um grupo parlamentar de centro-esquerda (PT, PCdoB, PSB, PV... somados a PSOL e Rede, e mais o PDT que segue a ter setores progressistas) pode sair dos atuais 130 parlamentares para cerca de 180 ou 200 cadeiras. Isso dará a Lula melhores condições de negociar. E esse bloco será maior, quanto mais a sociedade perceber que Lula oferece soluções diferentes ao país.

Sim, será um governo de negociação, com avanços e recuos, dentro das regras democráticas. 

Se Lula ganhar e governar com essa configuração, o PT provavelmente completará a longa transição iniciada nos anos 1990, deixando de ser uma legenda da "revolução democrática" e transformando-se num partido social-democrata.

Isso é o que temos pela frente. Isso é o que nos permitirá superar o interregno de destruição nacional iniciado em 2016, construindo assim as bases de uma nova fase de desenvolvimento e redução das desigualdades. 

(fim)  

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O conhecimento liberta. Saiba mais. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Cortes 247

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
WhatsApp Facebook Twitter Email