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Ricardo Nêggo Tom

Músico, graduando em jornalismo, locutor, roteirista, produtor e apresentador dos programas "Um Tom de resistência", "30 Minutos" e "22 Horas", na TV 247, e colunista do Brasil 247

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Lula e o “home-office” de Neymar

Se Lula tivesse feito piada com pessoas morrendo por falta de ar, muita gente se sentiria menos ofendida e mais representada, escreve Ricardo Nêggo Tom

Neymar e Lula (Foto: Reuters/Caean Couto | Ricardo Stuckert/PR)
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Pronto! Se era esse o incentivo que o craque Neymar e seus companheiros de seleção brasileira precisavam para se motivarem pessoalmente,jogarem um futebol melhor do que vêm apresentando e ganharem a Copa do Mundo,que façam bom uso da piada que o presidente Lula sobre o sistema “home-office”que o jogador do Santos tem cumprido há algum tempo. Mesmo não tendo mentido,Lula poderia ter perdido essa piada e evitado oferecer munição a seus odiadores.Já que estamos falando de futebol, eu diria que Lula deu um passe errado e acabou armando um contra ataque perigoso para o time adversário. E a extrema-direita – que costuma cair na área e pedir pênaltis inexistentes - já está se aproveitando do “vacilo” para jogar mais lenha na fogueira da polarização política no país.

Lula errou na piada, mas não cometeu nenhum crime ao fazê-la. Como presidente da República, ele sabe que tudo o que ele disser terá um peso maior para a opinião pública. Portanto, deveria se policiar um pouco mais nas falas de improviso. Obviamente que, tendo ele ironizado um jogador que, além de ser o principal talento do futebol brasileiro nos últimos 15 anos – gostemos ou não de sua figura – ainda é apoiador declarado da família Bolsonaro, as reações do outro lado seriam imediatas e, para variar, desproporcionais à piada feita por ele. Insisto que Lula não deveria ter feito a piada, e defendo que Neymar não precisava ouvi-la porque nem deveria ter sido convocado para a Copa. Estamos falando de um quase ex-jogador em atividade, que não consegue fazer três jogos seguidos sem precisar ficar uns vinte se recuperando fisicamente.

Vale lembrar que Neymar já tinha virado piada mundial na Copa da Rússia, em 2018, devido ao seu corte de cabelo estilo “arara amarela” e aos seus intermináveis rolamentos no gramado após sofrer uma falta. Naquele ano, o jogador estava em sua primeira temporada pelo Paris Saint-Germain, da França, de onde sairia - também como piada - em 2023, com torcedores do clube francês festejando a sua partida estendendo uma faixa no estádio Parque dos Príncipes com os dizeres: "Neymar: Finalmente nos livramos do malcriado". Porém, o nosso craque incompreendido, que sempre tem uma desculpa para justificar os seus atos, rumou para a Arábia Saudita a fim de provar que a torcida do PSG havia sido ingrata com ele. Lá chegando, se deparou com o técnico português Jorge Jesus, conhecido pelo seu temperamento “linha dura” e sua língua sem papas. Para tristeza de Neymar, o Jesus encontrado não era o mesmo que ele gosta de exibir 100% na faixa que costuma usar na cabeça, e o menino “trintão”, que imaginava ter chegado ao céu para ficar em repouso engordando ainda mais a sua conta bancária, foi lançado ao inferno da rejeição e dispensado pelo Jesus que não perdoa, sob a avaliação de que ele não tinha condições físicas para jogar num alto nível de intensidade.

Jesus pagou o preço por ter revelado as reais condições físicas do craque brasileiro e foi pregado na cruz pelo pai de Neymar, que teria interferido na contratação do treinador português pela CBF, temendo que seu filho nunca mais fosse convocado para a seleção brasileira. Sob os gritos de “Ancelotti!”, o ex-técnico do Flamengo viu o seu sonho de treinar a nossa seleção ser sepultado, sem esperanças de ressurreição no terceiro dia. Neymar, uma vez mais, sai como vítima de uma história que ele sempre consegue manter mal contada. Lula não é nem o Jesus português, nem o Jesus Salvador, mas pode ter atraído para si uma pesada cruz composta por alguns milhões de brasileiros apaixonados por futebol e defensores de Neymar, que, inevitavelmente, irão politizar a piada feita por ele, esquecendo-se de um certo presidente que fez piadas muito piores e com coisas muito mais sérias do que ironizar um jogador de futebol que não joga, de fato.

 Se Lula tivesse feito piada com pessoas morrendo por falta de ar em meio a uma pandemia que vitimou letalmente setecentas mil pessoas, muita gente se sentiria menos ofendida e mais representada. Afinal, nem se compara chamar de “maricas” milhões de cidadãos e cidadãs assolados pelo medo de uma contaminação por um vírus letal, com ferir o ego de um jogador em plena decadência física e técnica, mas que muitos acreditam que pode trazer o tão sonhado hexacampeonato mundial para o país. O fato é que Lula, mesmo tendo sido imprudente na piada, mais uma vez pode ajudar o país a ter uma conquista importante. Caso Neymar e os demais jogadores se unam para responder a ele dentro de campo, mostrando que não foram para a Copa do Mundo para servirem de chacota e trazendo a taça para o Brasil, sua piada terá sido uma bela assistência para a conquista do título. Caso Neymar não consiga jogar e seus companheiros também não consigam compensar a sua ausência dentro de campo, Lula terá desmascarado mais uma grande farsa neste país de tantos ídolos e mitos que não passam de uma piada. 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.