Lula e o Sidônio mexicano
Modelo mexicano é alternativa para o Brasil enfrentar a desinformação e fortalecer o debate público
Estamos entrando na reta final do governo Lula 3 e iniciando o processo eleitoral que coloca o nosso país numa encruzilhada histórica mais uma vez.
É inegável o gigantesco volume de entregas que o governo está realizando em comparação com o desastre que se abateu sobre o Brasil na “administração” passada, com o poder nas mãos de criminosos vulgares e entreguistas de todos os níveis, impulsionados por vigaristas da fé e pela ação sofisticada da mídia brasileira. Essa associação, além de sangrar a economia do Brasil, também entregou mais de 750 mil pessoas à morte, sem falar no gigantesco número de sequelados que nunca são contabilizados.
Nesse cenário, é vergonhoso que a candidatura de Lula esteja “disputando”, segundo os institutos de pesquisa, votos em igualdade de preferência eleitoral com um aventureiro cujas únicas referências carregam juntas o crime e o sobrenome do pai, Bolsonaro.
Existem várias causas que explicam essa realidade, que passam desde as situações práticas da vida do brasileiro comum até a falta de informação sobre iniciativas que o governo Lula tem feito para melhorar a sua vida. Num mundo em que a informação e a desinformação circulam instantaneamente, estar em desvantagem na produção de informações e comunicação diante da máquina de propaganda e ativismo político da extrema direita e da grande mídia é a receita infalível para derrotas.
Essa não é uma realidade exclusiva do Brasil. Os governos progressistas no mundo têm enfrentado realidades com pontos importantes em comum. O ressentimento com fracassos pessoais, a frustração com governos de esquerda, a influência de igrejas, mídia e redes sociais “algoritmizadas”, que comungam das mesmas estratégias pró-capital, explicam em parte a guinada à direita que muitas sociedades têm feito.
Mas uma experiência progressista tem obtido sucesso nesse enfrentamento. É aí que o México entra em questão.
Claudia Sheinbaum foi eleita com 62% dos votos dos mexicanos e, passado pouco menos de um ano e meio de governo, ela oscila em aprovações que vão de 71 a 85%.
É milagre? Não existe isso em política. Esses números fazem parte de uma estratégia bem-sucedida que teve início com seu antecessor, Manuel López Obrador, que privilegiou a informação e a comunicação direta com seus concidadãos, feita diariamente por meio de suas entrevistas coletivas denominadas “Mañaneras”.
Muitos dirão que o México é diferente do Brasil. Obviedade inútil. Vou me apegar às semelhanças de existirem, tanto lá como cá, redes de comunicação nas mãos de empresários, igrejas conservadoras, classe política repleta de corruptos, extremistas de direita nas redes e em todos os setores da sociedade, abismos sociais, analfabetismo, racismo, violência, machismo e um problema adicional nada desprezível: a vizinhança com os EUA e toda a sua influência na realidade do país há séculos.
As Mañaneras (entrevistas coletivas) ajudaram a romper com as dificuldades que os progressistas mexicanos enfrentam. Realizadas diariamente durante todo o governo de López Obrador, esses encontros serviram com Obrador e servem com Claudia para levar informações em tempo real de todas as iniciativas que o governo realiza, antecipar pautas, esclarecer dúvidas, apresentar quadros políticos e administradores públicos do governo para a sociedade, rebater fake news, contestar reportagens dos jornalões, mostrar indicadores econômicos e preços ao consumidor, motivar a participação da sociedade e influenciar os parlamentos e demais entidades federativas. Um efeito adicional é a difusão, por meio de centenas de canais na internet, do conteúdo produzido pelas duas horas desses encontros diários. Centenas de mexicanos se animaram a criar canais sobre política e que hoje contam com milhões de inscritos engajados em suas redes, reproduzindo pautas positivas.
Desse modo, o governo comanda as pautas nos veículos de comunicação, fornece material para os youtubers e redes sociais, antecipa decisões e iniciativas do governo, esclarece dúvidas e neutraliza, em grande parte, a máquina da direita.
Claro que são governos que também fazem entregas em saúde, educação, trabalho e economia. O México deu um salto na qualidade de vida de seus cidadãos e nos direitos sociais nesses governos de Obrador e Claudia. Só para se ter ideia, desde López até hoje, em sete anos, o salário mínimo subiu impressionantes 260%, com um ganho real de 140%, descontada a inflação no período.
Lula poderia ter resultados melhores no Brasil? Claro que sim. Mas nada virá por acaso. A estratégia (ou a falta dela) de comunicação está na raiz do problema. Há, de fato, melhorias importantes que poderiam ter avançado muito mais; no entanto, em comparação com o atraso, Lula esmaga qualquer adversário. Falta, portanto, um envolvimento mais técnico em comunicação diante da realidade moderna. Lula está mal assessorado. O orçamento da SECOM sobe e a EBC segue no traço, mesmo com orçamento na casa de 900 milhões. Lula gasta muita energia em ações que não são vistas ou reconhecidas. Desgasta-se fisicamente e não tem suas agendas mostradas pela grande mídia, que prefere “pinçar” frases descontextualizadas em suas matérias enviesadas.
Não há outra alternativa. A comunicação de Lula deve “apenas” copiar e adaptar o modelo mexicano. Ainda com um atraso gigantesco, é possível reverter algumas tendências. Essa é a tarefa fundamental de quem se preocupa com o futuro de nosso país: tirar Lula do isolamento e do apego a estratégias ultrapassadas de sua SECOM, agravadas pela absoluta distância das redes sociais.
Lula precisa ser convencido de que a comunicação não é uma faculdade do governante. É, antes de tudo, uma obrigação política de informar e exercer uma pedagogia perante a sociedade.
O marketing político não funciona mais como antigamente. Propagandas nas grades das TVs, com vídeos “limpinhos” e sorridentes, já não mudam mais a popularidade. Uma coisa é marketing; outra é a comunicação política. Formar mentes e tocar corações. Uma passa. A outra fica.
Ficar inerte e ceder ao fatalismo de que “Lula sabe o que faz” é um caminho extremamente perigoso, não só para o futuro do governo, mas também e, principalmente, para o futuro do Brasil.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



