“Lula foi a grande estrela das Diretas Já!”
Entrevista de Mauro Motoryn ao programa “Cessar-fogo”
Um movimento popular de massas como a campanha das Diretas Já!, considerado o maior da história do Brasil, tem a cara de grandes líderes políticos, mas não teria êxito se por trás das cortinas, nos bastidores, não houvesse pessoas desconhecidas do grande público que o viabilizaram. Uma dessas pessoas é Mauro Motoryn. Braço direito dos governadores Franco Montoro e Tancredo Neves e do deputado Ulysses Guimarães, ele coordenou e testemunhou o dia a dia das Diretas Já!, que enterrou, pacificamente, a ditadura militar de 1964. Nessa entrevista ao programa “Cessar-Fogo”, que vai ao ar às sextas-feiras, às 21h00, na TV 247, ele revela que o maior inimigo da campanha não foram os militares que estavam no poder, e sim o Congresso Nacional; que os governadores tinham medo das bandeiras vermelhas; que Lula deixou de falar com ele quando decidiu apoiar a eleição indireta; que Tancredo destituiu o apresentador dos seus comícios, Osmar Santos e reconhece que, ao contrário do que foi propalado, a grande estrela das Diretas Já! não foi o doutor Ulysses, consagrado como o “Sr. Diretas”, e sim Luiz Inácio Lula da Silva.
EU: O meu convidado de hoje, como, aliás, todos os convidados, é um grande amigo meu, publicitário, jornalista, estivemos juntos em várias jornadas, no passado recente, no passado recente eu digo de quarenta anos para cá, nos tempos do “Diário Popular”, e em outros tempos e outras situações. Ele está aqui com a gente, tem muitas histórias para contar, sobretudo a história das Diretas Já, onde ele teve um papel muito relevante. É o Mauro Motoryn. Olá, Mauro.
MAURO: Opa, boa tarde. Prazer em... Boa noite, desculpe. Prazer em falar contigo, fazer esse programa para... TV 247, bom te rever, ver essa alegre figura, essa importante figura do jornalismo brasileiro.
EU: Então, Mauro, a gente se conhece desde, acho, 1986, por aí, não é? No “Diário Popular” e tal. Não sei por que você me convidou para escrever umas coisas lá, junto com o Miguel de Almeida, naquele prédio ali, no prédio do “Estadão” e tudo isso. Agora, você foi um cara muito importante nas Diretas Já, né? As pessoas conhecem as Diretas Já, Tancredo, Ulysses, outros personagens, todos estiveram lá, Brizola esteve, Lula esteve, mas pouca gente sabe dos bastidores das Diretas Já, onde você teve um papel muito importante. Como é que você participou das Diretas Já?
MAURO: Bom, eu, na verdade, eu comecei em 1978, na luta pela Anistia, fiz a campanha do Fernando Henrique em 78, segui em 82, coordenando a campanha do Franco Montoro para governador do Estado. Era eu, Jorge Cunha Lima, nós coordenamos a campanha e aí teve um fato absolutamente interessante, pois naquela época o marqueteiro ou publicitário não precisava fazer nada, era só colocar um currículo e uma foto do candidato. Porque vigorava a Lei Falcão. Candidatos não podiam falar. E, naquele ano, junto com o Raul Cruz Lima e o Paulo Tarso Santos, nós resolvemos, ao invés de colocar o currículo do candidato, como era o hábito, colocar o currículo do MDB. E então colocamos o currículo, que começava por “nascido nos porões da ditadura”, e logo no primeiro dia, basicamente, nós ganhamos a eleição, porque nós derrubamos a Lei Falcão naquele momento. E esse comercial, que era um currículo de um partido político, foi para o “Jornal Nacional” da TV Globo. Nós disparamos 14 pontos só naquele dia, que foi o fim da Lei Falcão, basicamente. Então, aí eu segui, fui para a Secretaria de Comunicação do Montoro, e o doutor Ulysses… era mais ou menos... abril, maio, dois, três meses de gestão do Montoro… e o doutor Ulysses me chamou para comandar toda a comunicação do MDB, PMDB. E eu me mudei para Brasília para coordenar tudo isso. E foi assim que eu comecei, ou seja, comecei cuidando do doutor Ulysses, e talvez seja um dos momentos mais ricos da minha história, fui conviver com o doutor Ulysses Guimarães. Aprendi muito, fiz graduação, pós-graduação, MBA, e virei a pessoa que se tornou relevante, junto com milhares de outras, ou melhor, com toda a sociedade brasileira, na campanha das Diretas. Na verdade, comecei fazendo um programa de televisão, como eu adorava currículos, eu transformei o doutor Ulysses num âncora do partido, gravamos no auditório Ulysses Guimarães, que foi o grande programa do MDB, que deu origem à importância e à relevância da luta pela redemocratização. O doutor Ulysses era âncora, recebia todos os governadores, ele era o grande entrevistador. Ele era o Alex Solnik daquela época.
EU: Esse foi o embrião das Diretas Já? Em plena ditadura?
MAURO: Claro, ainda era ditadura. Era, basicamente... Não, eu vivi isso bastante. E tem comícios fantásticos que nós fizemos. Na verdade... O primeiro grande comício não foi o do Vale do Anhangabaú, se bem que foi aquele que se tornou mais conhecido. O primeiro grande comício das Diretas foi realizado em São Paulo, na Praça Charles Miller, e foi coordenado pelo PT na época. Do MDB foram o doutor Ulysses e o Fernando Henrique. Foram os únicos que foram ao comício lá na Praça Charles Miller fora os petistas. Isso foi em outubro de 1983. Depois disso, foi eleito o Raul Alfonsin na Argentina, e fomos nós para a posse do Alfonsin, antes desse comício. E um jornalista chamado Clóvis Rossi, da “Folha de São Paulo”, que também foi para lá, perguntou para o André Franco Montoro, “governador, por que o senhor não faz um grande comício depois de ver toda essa festa aqui na Argentina, as ruas tomadas, os argentinos cantando o fim da ditadura?”, e lançou um repto ao doutor André. “Doutor André, por que o senhor não faz esse comício?” Então, o doutor André falou, “mas quando?” O Clóvis Rossi: “no aniversário de São Paulo”. No dia seguinte, a manchete da “Folha” foi: “Montoro promete comício das Diretas na Praça da Sé, no dia 25 de janeiro”. Se bem que esse não foi o primeiro comício. Enquanto se preparava esse comício, o Zé Richa fez um comício na Boca Maldita, em Curitiba, no dia 12 de janeiro e eu também coordenei esse comício. E todos esses governadores que tinham sido eleitos se organizaram, formaram uma frente de governadores - Brizola no Rio de Janeiro, Tancredo em Minas e em todos os estados - nós viajamos o Brasil todo fazendo comícios. Eu participei de mais de seiscentos comícios, eu fazia parte junto com o Rui Falcão do comitê estadual, com o Zé Dirceu, inclusive, pelo PT, do Comitê Nacional pelas Diretas. E eu corri o Brasil todo, vivi tudo isso, vivi todos os medos e receios dos governadores que tinham medo das bandeiras vermelhas nas ruas. O doutor Tancredo falava, “Mauro, Mauro, essas bandeiras vermelhas de todos esses partidos de esquerda podem criar problemas”. E aí foi, e não criaram o problema que se imaginava, mas existia esse temor. Esse temor seguiu, inclusive, depois, na campanha da eleição do doutor Tancredo, mas foi um momento histórico, e aí eu posso contar comício por comício, viagem por viagem, presenças por presenças. A fila dos inscritos para falar era fantástica, ia da União Nacional dos Estudantes aos movimentos populares, todo mundo tinha vez e voz para falar. Ou seja, a ansiedade da sociedade era tão grande por liberdade, pela redemocratização, que todos tiveram direito à palavra. Foi o grande movimento popular do Brasil. Acho que nenhum outro chegou ainda a ser o que foram as Diretas. Os comícios da Praça da Sé, da Candelária, do Recife, da Praça da Independência em Belo Horizonte… Era esquerda, extrema esquerda, centro-direita, todo mundo queria uma coisa, a redemocratização do país. O cansaço chegou à sociedade e, na verdade, isso foi muito importante. Eu lembro que o comício, que foi um dos últimos da campanha das Diretas, foi um movimento que eu nunca vi, eu tenho até fotos, é uma pena, eu poderia ter trazido e apresentado a vocês, houve uma passeata de governadores que começou na Praça da Sé, na verdade, eu minto; no Largo São Francisco, na Secretaria da Cultura de São Paulo, que era ocupada na época pelo Jorge Cunha Lima, todos os governadores presentes, e nós nos reunimos lá em cima, na sala do Cunha Lima, e saímos em passeata, atravessamos o viaduto do Chá, descemos a Líbero Badaró, até chegarmos ao Vale do Anhangabaú. E é uma cena fantástica, Brizola, Montoro, Tancredo, Ulysses, Lula, todos de braços dados, fazendo a passeata por São Paulo a pé, sem risco algum, e desembocando no Anhangabaú, no grande comício das Diretas, apresentado pelo Osmar Santos.
EU: Ô Mauro, me diz uma coisa: por que os militares não reagiram a isso? Vocês nunca tiveram medo, nunca houve ameaças de alguma reação dos militares?
MAURO: Não, eu vou te dizer... Houve muitas ameaças, mas eu diria que a sociedade soube suportar isso e dar sustentação que impediu que os militares pudessem agir. Existiam perguntas, respostas, escutas, intimidações mais sutis do que aquelas que nós vivemos, que você viveu, que eu vivi e todos viveram, mas a rua segurou a liberdade. Eu diria que a liberdade estava nas ruas em busca pela redemocratização. Na verdade, eu acho que a maior resistência não estava só nos militares, mas naqueles que os representavam, que foi o Congresso Nacional. Nós tivemos as duas emendas recusadas ou reprovadas pelo plenário da Câmara dos Deputados, a emenda Dante de Oliveira, e depois, numa segunda instância, já sem grande movimento popular, a emenda Theodoro Mendes. As duas foram recusadas. Ou seja, não é de hoje que o Congresso está “desantenado” ou desligado daquilo que acontecia na sociedade. A rua queria, mas quem nos representava não queria. Então, eu diria que a maior resistência estava aí. E a pressão não estava nas ruas, a pressão estava no Congresso, por isso as emendas foram recusadas.
EU: Então, não houve reação dos militares porque tinha muita gente na rua, foi isso?
MAURO: A reação dos militares foi no Congresso. Basicamente é isso. Ou seja, mesmo que o Congresso quisesse, não havia condições políticas para refutar o Exército naquele momento. Então, não era a rua. A rua respondeu com soberania. O Congresso, com covardia. A diferença entre soberania e covardia foi a ação das ruas e a ação do Congresso.
EU: Essa participação massiva nas ruas aconteceu porque as pessoas não tinham medo. Se tivessem medo, não iriam. Isso dá a entender que a mídia teve um papel importante, apesar daquele episódio da TV Globo, que mais ou menos escondeu aquele comício de janeiro. Mas você acha que a mídia teve um papel nisso aí? Quer dizer, a mídia mostrou à população que ela podia ir à rua e podia não ter medo de reação?
MAURO: Na verdade, vamos lá. Eu vou pelo lado mais negativo e sombrio da mídia, que era representado pela TV Globo, que era basicamente a TV oficial do Brasil. E ela conseguiu, no dia 25 de janeiro, dizer “hoje, na Praça da Sé, estamos transmitindo a festa do aniversário de São Paulo”. Foi exatamente assim que foi noticiada pela TV Globo a presença massiva da sociedade nas ruas. O comício do Paraná foi absolutamente ignorado no dia 12 de janeiro. O do Anhangabaú… eu nunca tinha visto um milhão e meio de pessoas, que é o que tinha nas ruas naquele dia, em bloco, cantando “o povo não é bobo, fora a Rede Globo”. Ou seja, a reação da sociedade em relação à mídia, televisão, essas coisas, era basicamente a percepção clara de que eles jogavam pelo sistema e sempre jogaram. Aliás, continuam até hoje, quando não são golpistas. Agora, a “Folha de S. Paulo”, através do seu jornalismo, conseguiu transformar um jornal que tinha excelentes jornalistas num instrumento de apoio às Diretas. Eles colocaram na capa a faixa amarela das Diretas, que era a cor da campanha, e encamparam essa bandeira. Havia espaços libertários, mas a gente sabia que existia repressão, principalmente naquilo que dependia de concessão direta do Estado, que era a mídia eletrônica, em especial a televisão e as rádios também. Então, basicamente, havia posições antagônicas da mídia em relação às Diretas, claramente. Mas existiam ilhas de... Não vou chamar de ilha de excelência vindo da “Folha de S. Paulo”, porque sempre foi uma ilha e nunca foi excelência, mas foi o único jornal na época que pegou essa bandeira e da bandeira fez o seu marketing. Basicamente isso. Sim, a “Folha” encampou a campanha das Diretas Já. Sim, ela encampou, mercadologicamente foi excelente para ela, ou seja, o noticiário era francamente apoiador, a página dois e três, que eram exatamente as páginas nobres de opinião, assumiram isso, foi o primeiro veículo de mídia impressa a assumir isso. A mídia eletrônica, Alex, ignorou a campanha das Diretas ou noticiava de forma diferenciada do que efetivamente acontecia nas ruas. E não era só na época dos comícios, era no noticiário do dia a dia. ou seja, se falava mais na eleição presidencial, que viria muito depois das Diretas, do que qualquer outra coisa, nas candidaturas fantásticas dos ícones da popularidade, Paulo Maluf e Mário Andreazza.
EU: Mas, Mauro, as televisões, como até hoje, são concessões do governo. Como era uma ditadura, as televisões tinham medo de serem simplesmente desligadas, como você se lembra muito bem, como a TV Excelsior acabou de um dia para o outro, foi desligada, tiraram o cristal. E acabou. Então, dá para entender. Os jornais tiveram um grande prejuízo com a ditadura. No primeiro momento, tanto o “Estadão” quanto os jornais do Rio, “O Globo”, etc., apoiaram o golpe de Estado, mas um ano depois perceberam que aquilo foi um péssimo negócio, porque o jornal vive de notícias. A ditadura implanta a ditadura, corta as notícias. A ditadura implanta a censura e corta as notícias. Evidentemente que caem as tiragens, cai a publicidade, tanto que um ano depois de instaurada a ditadura, o “Estadão” passou a fazer campanha contra.
MAURO: Olha, eu diria que, se um ano depois ele começou a fazer campanha contra, vamos lembrar que demorou vinte anos para isso se consolidar em algo concreto. Não foi bem assim, porque as benesses dos militares e da Secretaria da Comunicação (Secom), na época do governo militar, deram sustentação aos veículos de imprensa de uma forma ostensiva. Ou seja, na verdade, a gente não pode esquecer o que aconteceu. Ou seja, de todos os governos militares que desencadearam, em 1970, “meu Brasil, eu te amo”, com apoio de todos os jornais… não foi bem assim como você disse, eles sentiram o baque econômico, mas o sistema econômico todo os assegurava. Não vamos esquecer que os jornais tiveram crises econômicas por má gestão e porque eles trabalhavam basicamente a questão de publicidade, a questão econômica, eram feudos familiares, era a casa dos Mesquitas, era a casa dos Marinhos, era a casa dos Caldeiras, dos Frias, ou seja, isso daqui continua até hoje, ou seja, a opinião no Brasil você compra com publicidade. E isso daqui aconteceu de uma forma intensa e extremamente eficiente na época da ditadura. Lembra dos coronéis que comandavam a Secom?
EU: Claro, mas, ao mesmo tempo, o “Estadão” publicava receitas no lugar das matérias censuradas. Então, isso era uma reação. Não dá para não reconhecer que houve uma reação, as matérias eram censuradas, o “Jornal da Tarde” publicava poemas do Camões... Isso é para a gente contar a história para as novas gerações, como a história aconteceu.
MAURO: Não, a história aconteceu dessa forma, mas também nós não podemos dizer que só isso bastava. Ou seja, eles cumpriram o papel ao receber a censura, claro que cumpriram, mas também cumpriram um outro papel e, em outras mãos, recebiam a grana do Estado sem nenhum pudor. E seguravam o regime. Uma coisa era aquilo que era censurado, outra coisa era o apoio. Que medidas populares são aprovadas em regimes populares com apoio da mídia, Alex?
EU: Não estou falando em medidas populares. O que eu estou dizendo é que tem que contar a história como ela aconteceu.
MAURO: Não, sim, é verdade. O “Estadão” poderia simplesmente ignorar, poderia só não publicar as matérias, mas ele não publicava as matérias... publicava receitas de bolo. Então, teve alguma reação.
EU: Mas, continuando com a nossa história das Diretas, eu nem sabia que foram seiscentos comícios, mas eu até participei, fiz viagens também com o dr. Ulysses, para vários comícios, eu estava na “IstoÉ”, na época, mas você contou seiscentos comícios. Foi a maior campanha popular da história do Brasil, não houve nada parecido. E uma campanha totalmente pacífica, contra uma ditadura, quer dizer, contra um poder que tomou o país, se consagrou pelas armas. E foi totalmente pacífico. Mas aí, como você mesmo disse, o Congresso não aprovou a emenda, a emenda Dante Oliveira, e aí houve aquele momento de tensão. Vamos para o Colégio Eleitoral, não vamos para o Colégio Eleitoral. Como é que foi esse momento? O PT foi contra.
MAURO: Bom, chegamos ao fim, entre a emenda Dante de Oliveira, que foi em abril, e a Theodoro Mendes, que voltou a ser votada, mas já sem nenhuma chance de passar, começaram as articulações. Nós tínhamos três candidatos à presidência da República do lado do MDB. Mas ninguém era mais aplaudido nos comícios do que o Lula. Quando o Lula entrava para falar, era basicamente quando mudava a história. Basicamente, todo mundo lutava pela redemocratização, todo mundo tinha ligações com alguns partidos, mas o Lula passava por cima disso. Ele foi a grande estrela das Diretas, apesar do “ Sr. Diretas” ser o doutor Ulysses Guimarães. Existiam três candidaturas postas naquele momento. Se a campanha das Diretas vingasse, nós teríamos dois candidatos do campo do MDB com candidaturas postas. Eram o doutor Ulysses e o Montoro. O Montoro com o Estado forte nas mãos e o doutor Ulysses com o “Sr.Diretas”. Enfim, não vingaram as Diretas, surgem duas possibilidades. Vamos seguir para o Colégio Eleitoral ou não.
EU: O que era o Colégio Eleitoral?
MAURO: Era a eleição indireta, a ser votada no Congresso Nacional, através dos deputados, todos eleitos na legislatura que estava em vigor naquele momento. E esse Colégio Eleitoral, basicamente, era, pura e simplesmente… durante todos os últimos vinte anos, e eu vivi, porque eu coordenei também a anti-candidatura do doutor Ulysses, quando nós levamos, puseram os cachorros atrás de nós… era basicamente conservador.
EU: Em 78?
MAURO: É, que era a candidatura do Euler Bentes, junto com o Euler Bentes. Então, o que aconteceu? O candidato... Ulysses, na eleição direta, o Montoro tinha o Colégio Eleitoral, quem era o candidato? Começaram as articulações do doutor Tancredo, que trabalhou muito as Diretas, e não cinicamente, se integrou efetivamente nos comícios mais importantes, em alguns menores também, principalmente na região de Minas e no Nordeste, nas capitais, e a candidatura dele sai de uma forma bem colocada, mas se trabalha de uma forma muito grande para romper aquela coligação que viria com o candidato que estava posto pelo lado do governo. O candidato posto naquele momento era o coronel Mário Andreazza, e tinha a candidatura, e também era a candidatura anti-sistema lá dentro, que era do Paulo Maluf. Enfim, a candidatura do doutor Tancredo conta com o rompimento do bloco majoritário, com o surgimento da Aliança Liberal, que era representada pelo Aureliano Chaves, velho amigo do doutor Tancredo, das Minas Gerais, e o Marco Maciel, que deu origem à Aliança Liberal, que efetivamente viabilizou, do ponto de vista de votação do Colégio Eleitoral, a eleição do doutor Tancredo. Essa eleição do doutor Tancredo talvez seja o mais importante movimento que aconteceu de fratura do governo militar, porque foi lá que surgiram as duas anti-candidaturas, que foi a do Maluf contra o Andreazza e a do doutor Tancredo, que se viabilizou pela pré-candidatura do Maluf, e a candidatura do doutor Tancredo, que se viabilizou.
EU: Mas, Mauro, não houve uma briga dentro da campanha das Diretas Já? Lula foi contra ir ao Colégio Eleitoral.
MAURO: Além de ser contra, eu lembro que ele deixou de falar comigo, porque ele falava, “não acredito que você vai fazer parte disso”. E aí, realmente, essa grande aliança se rompeu. Ou seja, tudo aquilo que era multipartidário, uma ideia unívoca, que eram as Diretas, elas deixaram de acontecer exatamente porque existia uma alternativa de derrubada do poder pela eleição indireta. E isso só se deu em função da Aliança Liberal, porque a eleição indireta só, da forma que viria, só com os governadores, sem romper o antigo campo majoritário, era inviável. Só que... o doutor Tancredo e as lideranças do MDB na época, Ulysses e Montoro, Richa também, entre outros, Marcos Freire, enfim, Fernando Lira, todas elas se reuniram e tentaram e conseguiram, em última análise, e aí vem uma pergunta que você fez lá embaixo, como que você vê aí os militares, conseguiram levar às ruas o sentimento das Diretas? O sentimento das Diretas é que deu sustentação popular à candidatura do doutor Tancredo, porque, depois que a emenda das Diretas foi derrotada, nós fomos à rua fazer campanha no Brasil todo, novamente, com movimentos populares, com presença de milhares de pessoas, ou milhões de pessoas. O primeiro comício foi em Goiás. E eu coordenei esse comício, e o doutor Tancredo, dez dias antes, quando eu ia para Goiás, falar com o Iris Rezende, para coordenar esse comício, ele falou, “Montorinho, eu só quero um cuidado de você, não pode ter bandeira vermelha, porque os militares vão se sentir provocados. Eu só te peço isso, eu não quero uma bandeira vermelha durante os comícios. Tem o Walter Pires nos olhando…” E os dois primeiros comícios, o primeiro foi em Goiás e o outro foi o Jader Barbalho no Pará, eu saí para fazê-los. No primeiro comício, eles queriam reproduzir o clima das Diretas. Foi lá o Mauro “Montorinho” e chamou para apresentar o comício, a grande voz das Diretas, que foi o Osmar Santos. O Osmar Santos vai para o comício, é aplaudido demais, foi com uma camiseta amarela, não estava escrito Diretas Já, nem “eu quero votar para presidente”, foi lá e a primeira coisa, “e agora com vocês, Osmar Santos”, ele grita, “vocês querem Diretas?” e todo mundo, “já, Diretas já!”. O doutor Tancredo esperou ele acabar de falar, aí ele me chama e diz, apontando o Osmar Santos “esse menino nunca mais vai apresentar meus comícios, a partir de hoje você apresenta”. E eu passei a ser o apresentador da campanha das indiretas, viabilizando nas ruas aquilo que viria a acontecer no Colégio Eleitoral.
EU: Mas ô Mauro, quando o Tancredo pediu...
MAURO: O medo dele era o Exército... É que você me fez essa pergunta lá atrás, onde eu senti efetivamente o medo, onde os militares começaram a sentir o medo efetivo, foi a viabilização das ruas e a viabilidade no Colégio Eleitoral. E o Tancredo tinha medo disso, o Ulysses tinha medo, o Montoro tinha medo disso, era isso que os apavorava.
EU: Mas quando o Tancredo pediu para afastar as bandeiras vermelhas, o que você fez? Você afastou as bandeiras vermelhas?
MAURO: Tínhamos os movimentos ligados, você sabe, tinha todos os movimentos populares dentro do MDB, que na época, no bipartidarismo, brigavam lá e com bandeiras vermelhas. E eu chegava a pedir, “abaixem as bandeiras, vamos pôr a bandeira do Brasil e tal”. E mesmo assim acontecia. Mas isso daqui, os próprios governadores, Jader pode confirmar isso, Iris, a nossa luta era para baixar as bandeiras. E ainda tinha uma outra coisa. Aí o sistema adentrou a nossa campanha. Tem um jornalista muito famoso, ex-governador de um Estado muito famoso, que um dia falou, “Mauro, vamos entrar ao vivo no ‘Jornal Nacional’”. Esse jornalista se chamava Antônio Brito. e eu tinha que fazer um acordo, já muito amarrado pelo doutor Tancredo e o Renato Archer com a Globo, que começou, aí sim a mídia entrou para eleger Tancredo, não a favor das Diretas, mas a favor da saída plausível, que era doutor Tancredo. E às 8 e 19 eu tinha que ficar preparado, o doutor Tancredo tinha que entrar nesse horário, porque às oito e dezenove... e em trinta segundos ele entraria ao vivo no Jornal Nacional e entrou.
EU: Então, como é que você explica essa guinada da Globo?
MAURO: Veja, é o pacto das elites sempre. Ou seja... era a transição programada. Por isso que o PT, na época, era contra, porque basicamente era uma transição que se faria através de um grande acordão das elites com sustentação das ruas. É exatamente isso que aconteceu. Isso foi a campanha do Tancredo, isso é o que foi às ruas, e isso desembocou na saída possível.
EU: Agora, você, com o olhar de hoje, olhando para o passado, você acha que foi um erro do PT rejeitar o Colégio Eleitoral? Porque é o seguinte, se não fosse o Tancredo, seria Paulo Maluf.
MAURO: Olha, eu vou te dizer, se o PT tivesse aceito, nós teríamos uma situação pior do que a que nós tivemos. Eu era a favor que se elegesse o doutor Tancredo, mas eu diria que a voz do PT ficou soando lá como a voz da resistência. Na época, eu falei, poxa, o PT deveria vir junto. Hoje, olhando de uma forma crítica o que aconteceu no Brasil, eu diria que se não fosse o PT ter uma visão crítica do que aconteceu, provavelmente nós teríamos um Brasil pior do que nós temos hoje.
EU: Mas isso aí seria a vitória do Paulo Maluf, que seria a continuação da ditadura, porque o Paulo Maluf era o filhote da ditadura.
MAURO: O filhote da ditadura não teria tanto poder militar. Será que teria? Mas eu diria que a transição com o Tancredo foi positiva. Você me perguntou... Eu acho que a visão crítica do PT valeu naquele momento para a gente ter uma voz lá atrás dizendo, calma, gente, nós estamos ganhando, mas ainda não está terminado tudo aquilo que a gente precisa fazer. Deixa eu te dizer uma coisa. Tem uma coisa que ninguém... Hoje eu estava acompanhando a história da Roseana, eu dividi com ela “n” palanques pelo Brasil todo nessa campanha do doutor Tancredo e eu lembrei de uma coisa. A campanha que foi para as ruas não tinha tanta participação popular quanto a gente gostaria. Foi importante, o comício de encerramento da campanha do doutor Tancredo foi com Alceu Valença cantando “Vou-me embora pra Catende”, na Praia de Boa Viagem, com um milhão de pessoas, mas as propostas que vieram nem sempre se deram como se planejava. Por quê? Porque fora Tancredo, nós tivemos outro problema, o governo Tancredo sem Tancredo, que foi o governo do Sarney.
EU: Não, espera aí, vamos chegar nisso. Não, espera aí. Aí foi o grande... episódio, que muitos ainda duvidam do que aconteceu, Tancredo foi assassinado?, como é que foi esse episódio do Tancredo, que você também viveu de perto, na véspera da posse, Tancredo ganha no Colégio Eleitoral, tudo bem, que também é uma novidade, porque o mesmo Congresso que reprovou as Diretas Já, elegeu Tancredo. Era o mesmo Colégio Eleitoral. Tudo bem. Tancredo é eleito, e na véspera Tancredo baixa hospital e etc. Quais são os bastidores desse episódio?
MAURO: Eu entrei na campanha do doutor Tancredo, na verdade, referendado pelo doutor Ulisses e pelo Miguel Arraes, porque, na verdade, os coordenadores da campanha eram Mauro Salles e Mauro Santayana, e a esquerda brasileira precisava ter um representante. Ou seja, eles forçaram o doutor Tancredo a me aceitar. Eu não era a pessoa favorita do doutor Tancredo. Como o Mauro era um cara de gabinete, e o Mauro Santayana era basicamente um jornalista que não ia para a rua, apesar do excelente texto, ele era só um grande jornalista, mas não tinha essa capacidade de articulação de rua, etc. Sobrou o Mauro. Depois da campanha do doutor Tancredo, eu viajei com o doutor Tancredo e coordenei junto com o Rubens Ricúpero, Paulo Tarso Flecha de Lima, Ziraldo, que foi o único convidado do doutor Tancredo, eu coordenei a viagem do doutor Tancredo pelo mundo todo. Qual era o objetivo dessa viagem? Se viabilizar internacionalmente para que ainda não tivesse, apesar de eleito pelo Colégio Eleitoral legitimamente, um retrocesso vindo dos militares. A viagem para o exterior foi o grande momento da vitória do doutor Tancredo. E aí, fora aqueles que estavam programados, houve os encontros fora de agenda, principalmente o encontro com François Mitterrand. E isso foi muito importante, muito importante. Antes de chegar a essa viabilização, eu vou dar dois fatos fundamentais. O doutor Tancredo era o maior médico dele. Ele se automedicava com absoluta competência, ou seja, ele tomava um xarope, que provavelmente ele conheceu lá em Minas Gerais, que curava tudo. E ele se automedicava, já tinha tido uma crise em dezembro, no final do ano, e em Washington, não sei se você lembra, porque isso daqui, a viagem foi acompanhada pelo mundo todo, e tinha essa necessidade de acompanhamento para dar repercussão internacional e nacional a esta viagem, e em Washington ele suspendeu toda a agenda, porque ele passou muito mal. Então, essas crises do doutor Tancredo já existiam, ou seja, não foi surpresa. Bom, aí Mauro era um dos coordenadores da campanha e estava com o doutor Tancredo.
EU: Qual Mauro? Porque tem o Mauro Salles, Mauro Santana...
MAURO: Ah, não, esse Mauro aqui, esse Mauro aí, o Mauro amigo do Alex. Se bem que o Mauro Santayana também foi seu amigo.
EU: O Mauro Salles também.
MAURO: Então, os três Mauros, mas o Mauro Salles foi comigo para o exterior, mas não fez toda a viagem. Em Washington, ele suspendeu toda a agenda. Voltando ao Brasil, ele vai para a GV, montar o seu ministério. Na véspera da posse, ele s sente mal na catedral. Bom, é internado. Aquela internação, Alex... O filme, “Assim Morreu Tancredo”, é uma coisa curiosa, porque eles deveriam ter me chamado, porque o único cara que estava lá dentro era eu, Aécio e Mauro Salles. Nós estávamos dentro do hospital e teve um cara, que eu posso afirmar, o Aécio, se for extremamente ético e acredito que venha a ser, o Antônio Carlos Magalhães entrou na sala de cirurgia para saber como estava o doutor Tancredo. Ele entrou na sala da cirurgia… não, na UTI. Ele entrou. Eu tenho como testemunha a minha mulher, porque ela estava na antessala comigo. Ou seja, aquilo lá virou o mercado de Babel. Se um dia pensaram em infecção hospitalar, ele morreu de infecção hospitalar só pelas pessoas que estavam, não só por contágio, mas pelo que elas eram. Ou seja, aquilo virou um cataclismo em Brasília. Ou seja, aquela cena do hospital, quando eu me recordo, e eu estava lá no Hospital de Base, como estive o tempo todo aqui, até o anúncio da morte dele anunciada pelo Antônio Britto, aquela presença dele lá naquele hospital, com o doutor Renault e com todos os políticos de Brasília querendo saber o que aconteceu, se ele não tinha infecção, infeccionou só pela presença.
EU: As pessoas não usavam máscaras?
MAURO: Máscara é coisa de Covid, que apareceu com a Covid. As pessoas não usavam máscara. Olha, eu posso te afirmar que o Antônio Carlos Magalhães entrou sem máscara na UTI.
EU: Mas como é que os enfermeiros deixaram? Não tinha médicos para impedir os políticos de entrar?
MAURO: Foi uma situação de pânico. De pânico. “O que vai acontecer com o doutor Tancredo?” “O que vai acontecer comigo?” Virou uma zona aquele Hospital de Base, era o hospital dos políticos, era o hospital onde todo mundo era amigo do médico, do doutor Renault, aquela... era quase uma catarse coletiva para saber o que iria acontecer e sem os cuidados necessários. Não quer dizer que a infecção hospitalar veio da presença dos políticos, mas era claro e era evidente que os políticos eram uma má companhia, uma má convivência, mostravam exatamente o que era o Brasil. E naquele dia se começava a romper aquilo que viria a significar esse governo. Eu diria que aquele momento, eu tive uma cena com Antônio Carlos Magalhães, que eu posso até contar, que mostrava que aquele governo não tinha a mínima condição de sustentabilidade. Ou seja, nós fomos das Diretas, viabilizamos nas ruas a candidatura do doutor Tancredo e da candidatura do Tancredo desembocamos no Sarney, que foi o vice do doutor Tancredo no Colégio Eleitoral... que teve um fato positivo, muito positivo. Ninguém fala sobre isso, mas é o único reconhecimento que eu faço. Em uma única penada, o Sarney derrubou oitenta a noventa por cento do regime de exceção com uma canetada, assim que tomou posse. Esse reconhecimento o Sarney deveria ter, independente de outros defeitos na campanha, depois da campanha, mas esse reconhecimento da remoção da política de exceção ele fez em uma canetada.
EU: Como é que foi isso na prática?
MAURO: Na prática, ele revogou todos os decretos e todo o regime de exceção feito pelos militares e repressão nas ruas, de tudo isso, e da própria legislação vigente, extremamente fechada, foi revogada. O grande problema é que, no primeiro ano e meio do Sarney, nós tivemos um copresidente. Eu diria que nós tivemos um regime de cogestão, que era Sarney representando os interesses oligárquicos, principalmente sob uma pressão muito grande do Antônio Carlos Magalhães, o Toninho Malvadeza, que era uma figura que deveria ser abominada, mas na Bahia ele virou santo, não sei porquê, mas hoje nem tanto, porque a história depois descobriu que não é bem assim, e o doutor Ulysses. O doutor Ulysses exercia a vigilância sobre aquilo que foi dito nas ruas. Então, eu diria que a vigilância sobre tudo o que foi prometido por Tancredo era o doutor Ulysses. O resto era um governo de direita tal e qual nós tivemos, não com aquilo que os militares representavam, mas o doutor Ulysses teve esse papel. E o restante é o que nós temos. E se você for perceber hoje, o fato de o Sarney, ter revogado, até hoje nós tivemos, ou até 8 de Janeiro, nós tivemos ainda a presença dos militares de uma forma extremamente complicada na política brasileira. Ou seja, só agora a gente começa ainda a perceber o que todos eles representavam na nossa história vivida. A influência militar não acabou com o Colégio Eleitoral, não acabou com os governos do Fernando Henrique, e mesmo com o governo Lula, você vê a presença do Zé Múcio compondo com eles. Os militares só foram julgados efetivamente só agora e há um julgamento que não tem muito a ver com o passado, mas com um presente recente, agora no Supremo Tribunal Federal. Ou seja, é muito duro acabar com a exceção que nós vivemos entre 1964 e 1985. Vinte anos de ditadura que, até hoje, a gente ainda paga um preço por eles.
EU; Mas, Mauro, de onde surgiu o boato de que Tancredo levou um tiro? E a outra coisa, nesse momento, da internação do Tancredo doente, aí houve alguma ameaça de uma reviravolta?
MAURO: O boato do tiro, você sabe como é, você imagina de onde sai e não sabe como administrá-lo. Mas foram boatos. Agora, nós corremos um risco naquela noite, a reviravolta não ocorreu graças ao doutor Ulysses, na reunião que ele teve com o Leitão de Abreu, que foi o que viabilizou a posse do Sarney. porque, na verdade, isso houve um grande naquela noite. Eu diria que foi a noite dos quatro anos que foi resolvida na conversa de Ulysses e Leitão de Abreu. Eu não estava presente porque eu estava no Hospital de Base, mas quem presenciou me contou.
EU: Essa foi a noite de qual dia, exatamente?
MAURO: Foi na véspera da posse, a reunião do doutor Ulysses com o ministro Leitão de Abreu, que discutiram a interpretação da Constituição, o que aconteceria com a inexistência da posse do doutor Tancredo. Porque existia a possibilidade de não ter a posse, e ser feita uma revisão do que foi votado. Você lembra disso?
EU: Claro, e tanto que o Figueiredo não passou a faixa para o Sarney. O Bolsonaro não passou para o Lula, o Figueiredo não passou para o Sarney. Mas aí teve a morte do Tancredo, em abril. Aí o Tancredo morre, o que também foi, talvez, o maior funeral da história do Brasil, vários dias e tudo isso. Que lembrança você tem da morte do Tancredo?
MAURO: Na verdade, foi o maior happening da história do Brasil, porque eu lembro que nós andamos com o caixão por toda a cidade. São Paulo parou, todo mundo acompanhou. Independente do trauma, do trauma que foi a morte do doutor Tancredo, que foi transmitido ao vivo e a cores por toda a mídia, porque... todo mundo tinha expectativa da redemocratização com Tancredo. A morte dele foi traumática, porque todo dia tínhamos o boletim do Brito, que virou porta-voz, convidado que foi pelo doutor Tancredo em Washington. E aí... foi se criando uma catarse coletiva. E isso daqui, o caixão foi praticamente carregado pelo povo. Eu lembro, na avenida 23 de Maio, na Pedro Álvares Cabral, você não sabia como se mexer. E o governo começou efetivamente muito antes da morte dele, começou com Sarney, mas a morte dele, o enterro dele em São João del Rey foi a pá de cal na expectativa de que nós teríamos todas as mudanças projetadas que começaram com o sonho das Diretas, com o sonho da eleição indireta de redemocratização, e o que nós vimos foi o governo Sarney, com todos os erros e acertos, e aí veio o que nós vivemos juntos a partir daí.
EU: Durante o funeral lá em Belo Horizonte, de madrugada, eu estava ali, no velório, atrás de uma coluna e ouvi uma conversa do Fernando Henrique com o Fernando Lira, que seria o ministro da Justiça. O Fernando Henrique disse, textualmente: “o Sarney não vai fazer dois por cento do que Tancredo faria”. E eu trabalhava na “Isto É”, e eu fui com essa manchete para a redação, né? Voltei para São Paulo e disse para o Mino Carta: “tem uma manchete aqui, que é essa declaração do Fernando Henrique”. Aí o Mino falou, “mas você gravou isso aí?” “Não, não tinha gravador, eu estava ali escondido, atrás de uma coluna”. “Não, Alex, você está querendo procurar pelo em ovo, etc., você quer acabar já com a redemocratização, não, não, isso aí não aconteceu”, e cortou a frase da matéria. Mas, de fato, foi isso. Anos depois, muitos anos depois, numa conversa comigo, ele se arrependeu disso, falou: “não, Alex, não deveria ter cortado”. Porque foi o que de fato aconteceu, não é?
MAURO: Sim. E, na época, essa frase do Fernando Henrique não era o Fernando Henrique que nós viemos a conhecer na eleição de 1994. Ainda era o Fernando Henrique que sequer tinha se candidatado a um cargo eletivo que só se deu só em 1985 na campanha para a prefeitura de São Paulo, não é? Aquela campanha famosa que ele perdeu para o Jânio Quadros. A partir dessa derrota eu saí um pouco do âmbito PSDB, PMDB ou MDB, porque eu fui o coordenador dessa campanha do Fernando Henrique, junto com a Ana Tavares de Miranda, que ingenuamente... atendeu um pedido da “Veja” para fotografar o Fernando Henrique já sentado na cadeira, para publicar quando ele ganhasse, dois dias antes da eleição. E ele perdeu. E o Jânio mandou desinfetar a cadeira antes de sentar nela. Então, foi a última campanha que eu coordenei, de triste memória, mas o Fernando Henrique dessa campanha era diferente do Fernando Henrique da campanha do doutor Tancredo, na qual ele não foi protagonista, ele era um mero coadjuvante, e eu diria mero porque era coadjuvante mesmo, ele ganhou relevância a partir da derrota e com o Senado.
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