Lula, o extraordinário escritor oral
Entre memórias da fome e a escuta do povo, o presidente transforma experiência vivida em literatura falada e verdade política
Percorro os sites de notícias nas últimas 24 horas para a pesquisa do nome Lula. Com raras discordâncias, eles mostram:
Correio Braziliense Lula volta a defender distribuidora estatal: 'Vontade política'
Veja A reação de Lula ao áudio de Flávio Bolsonaro para Vorcaro | VEJA
Mas aqui e ali não vemos o essencial do Presidente Lula. Tento explicar. Ainda ontem, li estas linhas de Tolstói:
“Outros, a imensa maioria, dão à luz onde e como é possível, sem ajuda alguma, envolvem a criança em trapos, e alegram-se quando acabam morrendo. Se Deus existe, então isso não pode e não deve acontecer. Se Deus não existe, então, com o ponto de vista humano mais simples, essa organização da vida, na qual a maioria das pessoas deve se arruinar para que um pequeno número de pessoas utilize em excesso, o que só complica e corrompe essa minoria – uma organização de vida assim é um absurdo porque não é vantajosa para todos”
Escrito belo! Mas para mim, de outra maneira, Lula também expressa palavras de um verdadeiro escritor, de um escritor de verdade, na verdade que ele escreve na fala. Um gênero de escritor raro, que somente vi uma vez no Recife, na pessoa do grande amigo Antônio Luís, O Gordo. Um escritor oral pela genial verdade.
Observem o que ele fala e escreve na sua posse como Presidente da República em janeiro de 2003:
“Uma pena que minha mãe morreu. Ela sempre quis que eu tivesse um diploma e nunca imaginou que o primeiro seria o de Presidente da República”.
Aqui, ao lembrar uma campanha eleitoral:
“Comecei fazendo a primeira caravana percorrendo o trajeto que a minha mãe percorreu com oito filhos, saindo de Caetés até a cidade de Santos, em São Paulo. Parando em cada cidade, conversando com as pessoas. Depois eu percorri 91 mil km de carro, de trem, de ônibus, de barco. Para conhecer a cara, o jeito, o contar da piada, da graça, o cantar do povo pernambucano, o sofrimento do povo brasileiro. E isso me deu uma dimensão do Brasil que eu queria governar”.
E mais adiante:
“Eu sei o que é o sofrimento, eu quando vejo uma pessoa na rua, eu sei o que essa pessoa está passando. Quando eu vejo uma mulher com criança na calçada pedindo esmola, eu sei o que ela está passando. Então, é essa causa que me move na política”.
Prova maior não há que este vídeo da verdade Lula chora ao lembrar de fome na juventude: ‘Imaginava eu mordendo aquele sanduíche’
Dizer mais o quê? O resto é silêncio.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

