Lula ‘sem filtro’ e os patrulheiros de plantão

Deixem o Lula livre e solto para falar, diz o colunista Milton Alves

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Lula (Foto: Ricardo Stuckert)


A semana foi carregada de novos fatos políticos, desenhando variados cenários de análises para uma conjuntura volátil e radicalmente polarizada: assistimos ao funeral da candidatura presidencial de Moro; o barata voa na velha direita golpista e neoliberal, que tenta arranjar um candidato/a de proveta; a confirmação da liderança de Lula nas novas pesquisas e um pequeno crescimento de Bolsonaro, que amealhou intenções de votos no orfanato lavajatista; a entronização do “companheiro” Geraldo Alckmin em possível chapa com Lula; a disparada incontrolável da onda inflacionária, o surgimento de greves por recomposição salarial e o escândalo de corrupção eleitoral no MEC — aparelhado e devastado.

Ou seja, assunto é que não falta para cometer um artigo aqui neste democrático e nobre espaço. No entanto, um assunto prendeu a minha atenção durante a semana e deu muito pano pra manga, como dizia a minha velha e sábia mãe, a dona Adelina. Trata-se das declarações do ex-presidente Lula sobre a necessidade da descriminalização do aborto (“uma questão de saúde pública”, disse ex-presidente com justeza e equilíbrio), ele anunciou que vai desalojar “oito mil militares” aboletados em cargos nos ministérios e empresas estatais e sugeriu ainda para acomodados sindicalistas uma pressão mais direta sobre parlamentares na luta por suas reivindicações.

As declarações de Lula provocaram um “deus nos acuda” em dirigentes petistas, em certos articulistas da mídia empresarial e de sites progressistas e em analistas políticos à direita e à esquerda do espectro político nacional. Toda essa gente apareceu com mil e uma recomendações sobre a hora e o momento adequado para tratar de assuntos polêmicos e controversos como, por exemplo, a questão da descriminalização do aborto.

Sobre a questão do aborto vou lançar mão do que escreveu a perspicaz articulista do Valor, Maria Cristina Fernandes: “Lula mostrou na noite de quarta-feira ao abordar, em evento da Fundação Perseu Abramo, o aborto. O discurso não poderia ter sido mais sensato. Trata-se de um tema de saúde pública e assim deve ser encarado. A criminalização escancara a desigualdade porque restringe o direito a quem tem dinheiro para fazê-lo e torna o aborto inseguro uma das principais mortes de morte materna no país. Homens não têm moral para criticar porque não são eles que arcam com uma gravidez indesejada”. 

Cristina Fernandes forneceu ainda argumentos mais sólidos, reforçando a validade e a pertinência da abordagem da questão pelo ex-presidente Lula. “O tema avançou na Argentina e no Chile e até no Brasil onde o Datafolha atestou um recuo de 64%, em 2016, para 57% dos brasileiros que são favoráveis à criminalização do aborto. A redução é substantiva, mas ainda atesta a resistência da maioria. O perfil dos aderentes explica porque: quanto mais instruído, jovem, urbano e menos religioso, mas favorável o brasileiro é a que a decisão seja da mulher”, escreveu.

Os argumentos demonstrados no artigo de Cristina foram um ótimo e eficaz registro sobre a posição de Lula. Aliás, nesse particular, chama atenção o silêncio dos movimentos e lideranças feministas, com raras exceções, em defesa de Lula contra as pancadas e a hipocrisia da direita e extrema direita.

Sobre a legítima pressão e cobrança aos representantes do povo, Lula foi cristalino e não defendeu nenhum tipo de ação ou piquete violento nas residências dos nobres parlamentares e de seus familiares. É uma manifestação de um Lula em estado puro, com a sua velha verve combativa dos tempos sindicais. Um recado que não foi levado em conta pela cúpula das centrais sindicais, que realizou nesta semana uma chocha e burocrática Conclat em São Paulo. Já a resposta do bolsonarismo sobre a convocação de Lula foi de ameaças de violência e intimidação, com parlamentares exibindo pistolas em locais públicos e bradando discurso de ódio em tribunas parlamentares.

Em relação aos militares, Lula falou o óbvio: “Nós vamos ter que começar o governo sabendo que vamos ter que tirar quase 8 mil militares que estão em cargos de pessoas que não prestaram concurso. Vamos ter que tirar. Isso não pode ser motivo de bravata, tem que ser motivo de construção”, disse o ex-presidente em encontro na sede da Central Única dos Trabalhadores (CUT), na semana passada.

As manifestações públicas de Lula não só foram acertadas, como expressam a necessidade de um debate com um maior sentido programático e mobilizador do eleitorado popular, enfrentando a delinquência e a rede de calúnias impulsionada pelo campo político da extrema direita bolsonarista e pelo refugo do lavajatismo.

O quadro de polarização exige da campanha de Lula posições claras e assertivas sobre as questões que dividem as opiniões dos brasileiros: a descriminalização do aborto, das drogas, dos novos direitos civis, da relação entre estado-religião, mecanismos de regulamentação da imprensa, da tutela militar, revogação das privatizações, taxação das grandes fortunas, fim das leis fiscais de blindagem neoliberal, convocação de uma nova Constituinte, entre outros temas.

A polarização é um fator político real, atravessa o dia a dia do brasileiro, o cotidiano das pessoas e das famílias. Não é recomendável agora na campanha fugir dos chamados “temas quentes”, até porque o bolsonarismo já repete os velhos e surrados chavões contra a esquerda e o PT, mas que encontram acolhida entre os setores mais conservadores e reacionários das camadas médias e que impacta também na opinião de setores pobres e menos informados.

Lula sabe o que faz?

Neste episódio sobre as falas de Lula, foi reveladora e curiosa a posição de vários dirigentes do PT que defendem a palavra de ordem “Lula sabe o que faz”, uma espécie de axioma que surgiu no processo de discussão da escolha do vice na chapa presidencial de Lula, e que justifica a indicação do ex-governador paulista Geraldo Alckmin e dos acordos eleitorais com as lideranças da velha direita na formação dos palanques estaduais.

Dessa vez, os mesmos arautos do “Lula sabe o que faz” não endossaram as posições do ex-presidente, revelando um adesismo apenas de ocasião, parcial, somente válido quando Lula modera o discurso ou adota uma postura mais conciliadora no plano político ou ideológico.

A patrulha para evitar um Lula “sem filtro” é mais um esforço para moderar mais ainda a campanha petista, que segue sem um rumo programático claro, com uma comunicação defensiva e sem diretrizes políticas e organizativas para mobilizar as bases do partido, vide a burocratizada e capenga campanha pela formação dos comitês populares de luta, um objetivo que só pode atingir êxito sob a orientação (e condução) concreta por uma campanha eleitoral de massas, que favoreça a iniciativa e o protagonismo da militância.

Lula, na atual fase de pré-campanha, pautou a agenda do debate político quando fez uma denúncia mais vigorosa do governo criminoso de Bolsonaro, quando anunciou que vai acabar com o teto dos gastos, quando declarou que vai revogar a reforma trabalhista, quando disse que vai mudar a política da Petrobras e “abrasileirar” o preço da gasolina.

Portanto, deixem o Lula livre e solto para falar… 

*Jornalista e escritor. Autor dos livros ‘A Política Além da Notícia e a Guerra Declarada Contra Lula e o PT’ (2019), de ‘A Saída é pela Esquerda’ (2020) e ‘Lava Jato, uma conspiração contra o Brasil’ (2021)todos pela Kotter Editorial.

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