Lula será preso

Reconhecer que Lula está com os seus dias de liberdade contados (e assim recusarmos a inércia de prosseguir fingindo não saber o que o grande Outro sabe que sabemos) não significa declaradamente jogar a toalha

lula
lula (Foto: Vinícius Madureira)

 

Os tempos mudaram. Agora é o fim.” (J. F. Benedan) 

É tempo, oh se é!
Tempo da pedra se esforçar e aflorar,
tempo do desassossego ter pulso,

É tempo, que seja tempo.
É tempo.

(Paul Celan)

 

A reação jocosa e imediata ao PowerPoint de que se serviu o coordenador da força-tarefa da Operação Lava-Jato –– para o delírio dos internautas de prontidão ––, em coletiva de imprensa convocada na tarde do dia 14/09/2016, a fim de demonstrar (de modo decerto sofrível) o envolvimento de Lula no esquema de corrupção da Petrobrás, é um belo exemplo do mecanismo de dissimulação cujas engrenagens são espontaneamente ativadas por nós quando diante do Real intolerável.

A verdade, não ousamos encará-la, é que Lula será preso. Mais cedo ou mais tarde. Mesmo que os seus acusadores não tenham no momento “provas cabais”. Sobeja “convicção” (leia-se ideologia). E basta. É emblemático que a retórica do procurador evangélico Dallagnol represente reflexivamente a famosa sentença d’O Anticristo, de Nietzsche: “convicções são prisões”. 

“Convicção é a crença de estar, em algum ponto do conhecimento, na posse da verdade incondicionada. Essa crença pressupõe, portanto, que há verdades incondicionadas [...] o homem das convicções não é o homem do pensamento científico; está, diante de nós, na idade da inocência teórica e é uma criança, por adulto que seja quanto ao mais. Mas milênios inteiros viveram nesses pressupostos infantis, e deles jorraram as mais poderosas fontes de força da humanidade. [...] Mas propriamente queriam ter razão porque pensavam que tinham de ter razão. Deixar arrancar de si sua crença significava, talvez, pôr em questão sua felicidade eterna. [...] Não é o combate das opiniões que tomou a história tão violenta, mas o combate das crenças nas opiniões, isto é, das convicções.” [1] 

            Por isso, a ação penal em que Lula é réu perante o juiz Moro deve ser marcada, para ele, por um forte senso prévio de causa perdida, antecipado com irretorquível desalento em “O Processo”, de Kafka: “Ter um processo desses às costas significa já ter perdido.” [2] A ideia subjacente à sugestão de que o acusado será preso antes mesmo de figurar num processo penal kafkiano é uma amostra do sistema judiciário em seu aspecto mais casmurro, ensandecido.

            Lula será preso.

Nos julgamentos-espetáculos dos Processos de Moscou, os dissidentes acusados é que tinham de se esforçar para negar os crimes que não cometeram perante o Comitê Central. Era um juízo de fachada; um palco alheio à possibilidade de inocência. Aqueles que ridiculamente enxergam um viés “comunista” no PT e seu governo se esquecem de um desmentido fetichista crucial: são as nossas instituições liberais mesmas (imprensa, Ministério Público etc.) que parecem querer cumprir hoje com exclusividade esse maquiavélico papel teatral, cujo personagem é forçado a encenar a participação na execração pública de sua própria figura. 

No jargão do Dr. Freud, o mecanismo da “renegação fetichista” é bem discernível na célebre frase de Octave Mannoni: “Je sais bien, mais quand même...”, que ilustra à perfeição a sobrevivência de uma crença mesmo após o desmentido da experiência. Nós sabemos muito bem que Lula será preso, ainda assim... preferimos a ilusão de que o devido processo legal será observado, preferimos a ilusão de que a justiça será feita, preferimos ficarmos p(r)ostados à espera de Godot. Como diz Žižek, a estrutura dessa negação é um paradoxo que revela a “atitude reflexiva da crença: nunca se trata apenas de acreditar –– é preciso acreditar na própria crença.” [3

            A crença no Direito (que não é senão, em grau abstrato, a crença no estado atual das coisas) por vezes assume a pretensão da criança surrada beckettiana, a qual vem nos trazer a mensagem paralisante de que o tão aguardado Godot não virá hoje, mas “amanhã com certeza”, ou depois de amanhã ou depois... 

À luz da psicanálise lacaniana, de quando em vez é embaraçoso trazer inadvertidamente à tona algo que se situe na dimensão da interação simbólica. Um exemplo desse impasse é o imbróglio em que se encontra um determinado grupo (de amigos, parentes, colegas de trabalho etc.) em que todos sabem de certo segredo tido por reprovável acerca de um ou outro membro. Se, de repente, alguém deixa escapar publicamente esse detalhe, todos se sentem instantaneamente constrangidos –– mas como? se nada realmente novo restou enunciado, por que o grupo se constrangeria? Porque agora o grande Outro sabe, como diz Lacan, [4] isto é, a ordem simbólica, a segunda natureza de todo ser comunicativo, cuja função é também a de tornar a coexistência minimamente possível.

Não subestimemos o império das aparências. O ato enunciativo jamais é neutro: afeta o próprio conteúdo enunciado, e por mais que os sujeitos desse espaço simbólico não desconhecessem o conteúdo, este, uma vez manifesto, passa doravante a modificar a interação. Agora perturbada a ordem “fenomenológica”, a própria substância por trás dela se esvai.

“É por isso que a cisão de que falamos –– a cisão entre o saber do sujeito e o saber do Outro –– é inerente ao próprio sujeito: é a cisão entre o que o sujeito sabe e o que o sujeito pressupõe/imputa ao saber do Outro (e é por isso que o impacto sobre o sujeito é tão arrasador quando ele descobre que o Outro sabe o que supostamente não deveria saber).” [5] 

A explicação psicanalítica contraintuitiva dessa atitude pode se extrair da convergência entre os célebres aforismos lacanianos “La verité a structure de fiction” (“A verdade tem estrutura da ficção”) e “Les non-dupes errent” [6] (“Os não tolos erram”), isto é, aqueles que não se deixam enredar na ficção simbólica se enganam, e o fazem precisamente porque não percebem a sua eficiência, o modo como tal ficção conforma o Real: “A necessidade estrutural que é carregada por toda expressão da verdade é justamente uma estrutura que é a mesma da ficção.” [7].

Uma expressão desse súbito mal estar incutir-se-ia do mesmo modo na exclamação de surpresa do Deus bíblico, enquanto ordenamento simbólico reificado, perante um Adão recém-caído: “Quem te mostrou que estavas nu?” (Gênesis 3:11). Não foi justamente a partir daí –– e não do ato em si de comer do fruto proibido –– que se quebrou o pacto simbólico celebrado entre a deidade e a humanidade?

Portanto, o que urge é romper com essa pusilanimidade e desestabilizar a realidade fenomênica. Lula e a esquerda se apaixonaram narcisicamente pela própria vitimização. O páthos da oposição política atual parece ser o da síndrome de Estocolmo.

De tal forma que sugestões extremadas ou até mesmo absurdas (como sequestrar o ex-presidente e levá-lo com pedido de asilo a uma embaixada estrangeira, caso decretada a sua prisão, para que ali possa “se defender de forma plena e isenta” ou “denunciar o regime de exceção instaurado”, e isto propõe gente séria como Ciro Gomes e Luis Nassif ultimamente [8]. Ambos desconhecem, por acaso, o destino de Zelaya e Assange?) fazem mais sentido do que a insistência distópica de resistir no “melhor dos mundos possíveis” leibniziano.

Mal disfarçamos a vergonha de admitir a convivência com tamanho abuso de poder. Chegou a hora de abandonar essa postura. É tempo de solapar a posição coletiva de autoinclusão num espaço de uso privado da razão (no sentido kantiano) do qual, na verdade, queremos para sempre manter distância. É tempo de representar, à guisa de um tritagonista, a criança do clássico conto de Andersen, “A Roupa Nova do Rei”, que literal –– e talvez inconvenientemente? –– acabou por descobrir a nudez real.

Reconhecer que Lula está com os seus dias de liberdade contados (e assim recusarmos a inércia de prosseguir fingindo não saber o que o grande Outro sabe que sabemos) não significa declaradamente jogar a toalha, entregar os pontos afinal. Não, em absoluto. “Esse primeiro passo limpa o terreno para uma atividade verdadeira, para um ato que mudará efetivamente as coordenadas da cena.” [9] 

Lula será preso. 

NOTAS

 

[1] NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 404, itálico no original.

 

[2] KAFKA, Franz. O Processo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 99, itálico nosso.

 

[3] Žižek, Slavoj e Gunjević, Boris. O sofrimento de Deus: inversões do Apocalipse. Belo Horizonte: Autêntica, 2015, p. 158.

 

[4] Žižek, Slavoj. Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 27-35.

 

[5] Žižek, Slavoj. A visão em paralaxe. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 460.

 

[6] Máxima reformulada por Lacan, no Seminário 21, a partir do conceito “Noms-du-Père” de fundo freudiano (acerca do qual nos resguardamos de discutir aqui por interessar minimamente aos contornos desta análise), preservando a homofonia original em francês.

 

[7] LACAN, Jacques (1956-1957). O Seminário de Jacques Lacan, livro 4: As Relações de Objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 259.

 

[8] Disponível em http://oglobo.globo.com/brasil/ciro-sugere-sequestrar-lula-ate-uma-embaixada-se-prisao-for-decretada-19596097. Acesso em 06 out. 2016. No mesmo sentido: https://jornalggn.com.br/noticia/xadrez-da-proxima-prisao-de-lula. Acesso em 07 out. 2016; http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/259249/Para-Nassif-Lula-deve-buscar-asilo-pol%C3%ADtico.htm; http://www.brasil247.com/pt/247/poder/259447/Lula-deve-mesmo-pensar-em-asilo-pol%C3%ADtico.htm.  Acesso em 08 out. 2016.

 

[9] Žižek, Slavoj. Como ler Lacan. Rio de Janeiro: Zahar, 2010, p. 37.

 

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