Lusmarina, a teóloga que vai levar, à frente da Mangueira, a mensagem de que Cristo é um só

À jornalista Denise Assis, a teóloga e pastora luterana Lusmarina Campos Garcia conta detalhes sobre o grupo de 20 lideranças religiosas que abrirá o carnaval da Mangueira. "Eles estarão dizendo ao público que Cristo é um só. Qualquer que seja a crença", diz Assis

(Foto: Alexandre Campbell/Agência Pública)

Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia 

Jesus cada um tem o seu. O da Estação Primeira de Mangueira, para o carnaval de 2020, será mostrado sob a concepção dos compositores Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo. Para eles, o Cristo da Mangueira é totalmente diferente do reverenciado por Jair Bolsonaro.  "Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem Messias de arma na mão". E, já prevendo a reação dos enfezados bolsonaristas, os autores acrescentaram: "Mangueira, vão te inventar mil pecados /Mas estou do seu lado / E do lado do samba também".  

Ao lado do samba, mas não necessariamente longe da polêmica que suscitaram, ao levar para a avenida um Cristo com “rosto negro, sangue índio e corpo de mulher”. À frente da escola, a defender este Cristo, estará Lusmarina Campos Garcia, teóloga e pastora luterana, responsável por organizar - juntamente com o Ivanir dos Santos, Babalaô e sacerdote do culto de Ifá, no candomblé - um grupo de 20 lideranças religiosas que abrirão o carnaval da Mangueira. Eles estarão dizendo ao público que Cristo é um só. Qualquer que seja a crença.

Acostumada a defender os seus pontos de vista e brigar por eles, ela e Ivanir dos Santos levaram à Mangueira a sugestão de formarem uma Comissão, que na montagem do desfile virá antes mesmo da Comissão de Frente. A sugestão foi imediatamente abraçada pela escola e o seu carnavalesco.

Lusmarina chegou a ser ameaçada de morte nas redes sociais, depois de fazer uma defesa do direito à opção pelo aborto, em uma audiência pública, no Supremo Tribunal Federal. Além de teóloga, ela é doutoranda no Programa de Pós-Graduação da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Trabalhou como pastora da Igreja Evangélica Luterana de Genebra, congregação anglófona, de 2004 a 2012, ocasião na qual participou de eventos internacionais no âmbito da ONU e de várias organizações internacionais sediadas em Genebra. No doutorado trabalha o tema da relação entre direito e política no Brasil, a partir da análise do papel do STF no impeachment da Presidenta Dilma Rousseff. Lusmarina, entrevistada por e-mail, falou ao 247 sobre esse momento, em que o país leva a religião para dentro do Estado.

247 - Como você está vendo a tentativa do ex-presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, de se aproximar dos evangélicos e abrir um diálogo com esta parcela da população que, nas últimas eleições majoritárias, se colocaram ao lado das forças da ultradireita, em sua maioria?

- Penso que a preocupação do Presidente Lula é legítima, uma vez que estes grupos crescem aceleradamente e é preciso entender os valores, a cultura, a linguagem e as idiossincrasias de tais grupos. No entanto, o Estado é laico, e um partido político deve ocupar-se de todos os segmentos sociais. O PT precisa aproximar-se das comunidades evangélicas, bem como, de todas as outras.  

247 - O que você acha que os levou a votar em Bolsonaro?

- Os evangélicos votaram no Bolsonaro porque Lula saiu da disputa e houve uma avalanche de notícias falsas, manipuladas, para promover o pânico religioso e moral. O voto no Brasil ainda é personalista; não se vota em projeto político. O “voto evangélico” teria sido para o Lula, em sua maioria, mesmo que a tendência mostrasse queda nas semanas anteriores. Com a sua saída e a sua substituição por um candidato não tão conhecido (o Fernando Haddad), a voz popular a ser seguida deixou de ser a do Lula e passou a ser a dos pastores, que haviam fechado com o Bolsonaro. No entanto, é preciso lembrar que as análises mostravam à época que, se houvesse cerca de uma semana a mais, o resultado das eleições teria sido revertido.  E teria.  

247 - Sabemos que a sua igreja tem diferenças conceituais bastante distintas das pentecostais, que são o reduto do Bolsonarismo. Gostaria que você comentasse esta diferença e nos dissesse que fatores, em sua opinião, aproximaram Bolsonaro deste segmento.

- Há numerosas diferenças. Mencionarei uma: a laicidade do Estado. Uma das referências teológicas e práticas da tradição reformada da qual eu faço parte é a separação entre Igreja e Estado. Martinho Lutero era agostiniano (seguidor das ideias do teólogo e filósofo Santo Agostinho) e, como seu mestre, distinguiu religião de política. A distinção entre civitas Dei e civitas terrena de Santo Agostinho, se transforma na “teologia dos dois reinos” em Lutero. Na compreensão de Lutero, há um “reino secular” e um “reino espiritual”; Deus é Deus sobre os dois, mas ambos têm funções diferentes.  

Embora a “separação” entre Igreja e Estado tenha passado por reveses no decorrer da história, esta noção subjaz à cultura teológica e à prática eclesial protestante. Deste modo, há razoável empenho por parte das lideranças das igrejas protestantes históricas em não misturar religião com política partidária. As igrejas podem e devem ocupar-se da política no sentido do cuidado com a polis, ou seja, no sentido de debater e participar da construção de um projeto social que torne viável a vida comunitária e o bem-estar do corpo social. Mas, fazer propaganda eleitoral de um determinado candidato ou candidata, fere a ética protestante.  

As igrejas neo-pentecostais não possuem os mesmos referenciais teológicos e, consequentemente, não possuem a mesma ética. Assim, parte considerável dos seus pastores fizeram propaganda aberta para o então candidato Jair Bolsonaro.  

247 – Você acha que a postura dos pastores é que tem influência sobre esta escolha?

- Penso que nas eleições passadas, a militância aberta dos pastores combinada às notícias falsas, trouxe o resultado obtido. Mas, o que merece análise mais acurada, no meu ponto de vista, não é necessariamente o comportamento dos neo-pentecostais ou mesmo dos pentecostais, mas de outras lideranças evangélicas que estão mais próximas dos preceitos reformados, tais como pastores batistas, presbiterianos e até mesmo luteranos.  

Em primeiro lugar, estas lideranças foram convencidas pela narrativa midiático-judiciária-ininterrupta-diária de que o Lula e o PT são corruptos. Elas que, na sua maioria, possuem rigor ético elevado e, em alguns casos, hipocrisia introjetada, não foram capazes de escapar desta narrativa. Em segundo lugar, o pânico moral criado pelas fake News, principalmente relacionadas à questão sexual infantil, foi importante.

Em terceiro lugar, num tempo caracterizado pela pós-verdade, onde todos os fundamentos se tornam dispensáveis, parte das lideranças evangélicas romperam com preceitos históricos balizadores da sua teologia e da sua prática.   

247 - Do ponto de vista conceitual e filosófico, onde estão mais marcadas as diferenças entre essas igrejas?

- Teologia da Graça. Historicamente, as igrejas reformadas se pautam pela “Teologia da Graça”, que afirma a noção de um Deus acolhedor das diferenças e da diversidade humana; um Deus que se relaciona com os seres humanos a partir do amor não confinado a padrões comportamentais ou exigências moralmente determinadas. O conceito “graça” carrega, portanto, noções de gratuidade, de serviço, de amor, de acolhimento.  Igrejas evangélicas, pentecostais e neo-pentecostais, embora afirmem a “graça de Deus”, dão ênfase maior às exigências que se expressam através de um código moral e comportamental rígido. Neste sentido, a forte associação de Bolsonaro com as forças armadas, e o seu discurso que expressava rigidez para com os “bandidos”, os “corruptos”, as “feministas” ou os “gays”, encontrou um ponto de identidade com uma prática teológica e comunitária legalista e excludente.  

247 - Você sempre se postou ao lado do ex-presidente Lula, estando com ele, inclusive, no dia da sua prisão. Sabemos também que foi perseguida e atacada por suas posições favoráveis ao aborto. (Principalmente por seu depoimento na audiência pública sobre o aborto). Como está a sua situação atual com relação a estas ameaças? Você recebeu apoio da sua Igreja? Conte um pouco desta experiência.

- Eu tenho me posicionado ao lado do Presidente Lula, da Presidenta Dilma e do projeto de Brasil que o Partido dos Trabalhadores foi capaz de desenvolver. E penso que o Presidente Lula foi preso porque conseguiu provar que é possível ter um país mais justo e igualitário.  

Eu fui perseguida principalmente por ter proposto que cristãos reconstruíssem um terreiro de candomblé em Duque de Caxias, por ter estado no caminhão com o Presidente Lula no dia da sua prisão e por ter defendido a descriminalização do aborto, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 442), no STF. As ameaças nas redes sociais foram numerosas, mas as mensagens de solidariedade e apoio foram maiores. Denunciei as ameaças de morte. Faço parte do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Ministério Público Federal. No final do ano passado uma lista de “gente perigosa” foi reeditada, e o meu nome está lá.  

Na época em que participei da audiência pública no Supremo Tribunal Federal, a direção da minha igreja soltou uma nota em sua página web dizendo que eu não havia falado em nome da Igreja. Não falei mesmo. Eu representei o Instituto de Estudos da Religião que era amicus curiae (Amicus curiae é uma pessoa, entidade ou órgão, com profundo interesse em uma questão jurídica, na qual se envolve como um terceiro, que não os litigantes), na ADPF 442.  

A nota pública repercutiu de maneira negativa, e as perseguições se tornaram mais agudas, inclusive com ameaças de morte. Deste modo, a direção da Igreja precisou soltar uma segunda nota na busca de conter as consequências. Na verdade, o meu posicionamento no STF está baseado no trabalho de inúmeras teólogas feministas, nas políticas de gênero de órgãos internacionais aos quais a minha Igreja está filiada. Recebi apoio de trinta e sete organizações nacionais e internacionais, além de uma grande lista de indivíduos, colegas de profissão e membros da Igreja.  

247 - No Brasil atual costuma-se generalizar a palavra “crente”, e, em seguida, dizê-los conservadores e de ultradireita. Fale-nos, por favor, das diferenças desses segmentos religiosos, com relação à sua posição política. Você, que sempre se coloca nas manifestações públicas como uma pessoa progressista, de esquerda.

- Há um grupo de igrejas cristãs históricas que se desenvolveu no Brasil por meio do trabalho das empresas missionárias, principalmente do sul dos Estados Unidos. As agências missionárias constituíam o braço religioso de expansão do capitalismo. Como vieram do Sul, trouxeram consigo parte dos valores ultraconservadores em termos de costumes, sexualidade, moral e raça. Não é à toa que a cultura, as danças e a música dos negros e negras brasileiras foram imediatamente catalogadas como “mundanos” e “diabólicos”. Por isso, o carnaval é uma das festas mais combatidas pelas igrejas que derivam destes trabalhos missionários. São igrejas caracteristicamente intolerantes com as diferenças.  

Há outro grupo de igrejas que são as neo-pentecostais, nascidas no Brasil, que se caracterizam pela Teologia da Prosperidade, cujos líderes, em sua maioria, não possuem formação teológica e que se regem por compreensões e práticas mercadológicas.  

Por outro lado, há um grupo de igrejas históricas que são ligadas ao movimento ecumênico. É aqui que eu me situo. O movimento ecumênico nasce no contexto da pós-guerra (1948) e é estabelecido a partir do ideário que conjuga democracia, direitos humanos, liberdades individuais, direitos sociais, coletivos, culturais, a serem vividos no contexto de Estados Democráticos de Direito. As teologias e as práticas eclesiais desenvolvidas em conexão com este tipo de ideário tendem a ser acolhedoras das diferenças, do diálogo inter-religioso e intercultural, das sexualidades variadas, das questões de gênero, das etnias, da condição social dos diversos grupos sociais.  

247 - Como vê, hoje, este distanciamento entre as classes desfavorecidas, francamente manipuladas por “pastores” e lideranças religiosas, que conduzem os seus votos? Como quebrar esta barreira e dialogar com esses que são as maiores vítimas da desigualdade social?

- É preciso chegar junto dessa gente e desmontar os pré-conceitos que estamos construindo contra esta parte da população. Chamar estas pessoas de obtusas, obscuras, ou fazer pouco dos seus costumes, da sua indumentária, da sua pouca educação, nos distancia mais delas. É preciso disputar o terreno; investir em lideranças nas periferias; oferecer oportunidades de educação teológica (mesmo que de curta duração e com metodologia adaptada para a realidade destas pessoas).  

247 - Algum conselho a dar para o ex-presidente, na forma de abordar essas pessoas que se distanciaram do PT, levados pela “fé”?

- Durante as eleições, uma das fake News propagadas tinha a ver com o pertencimento religioso do Bolsonaro. Muita gente considerou que ele era evangélico e ficou fascinada pelo fato de que “um deles” fosse presidente do país.  A identificação foi importante. Identificaram-se com Bolsonaro pela via religiosa. Com o Lula, o povo se identifica por quem ele é: por sua origem, por sua trajetória, por sua história, por seu modo de falar, pelo seu compromisso, por cumprir o que prometeu.  

O povo simples se identifica com o Lula e se Lula for candidato, será eleito. Mas, penso que há duas coisas a serem feitas: A primeira é que o Lula precisa conversar com as lideranças nacionais de igrejas como:  Assembléia de Deus, Batistas, Presbiterianas, Luteranas etc. Para quê? Para falar da sua inocência e para ouvi-las. A segunda é que o Lula precisa visitar igrejas evangélicas. Mas não só o Lula, o PT precisa se aproximar das igrejas, mas também dos terreiros, e de outros espaços religiosos.

A fé é algo potente e profundo. A esquerda não pode continuar ignorando isto ou repetindo a frase marxiana de que a religião é o ópio do povo, como se isto fosse capaz de explicar o fenômeno religioso. Não há projeto político que sobreviva num país como o Brasil sem levar a sério a questão da fé.   

247 - Neste governo Igreja e poder estão visivelmente misturados. Como você vê esta interferência entre estado e religião?  

- Estado e religião sempre estiveram relacionados, mas dentro de determinados limites. No Brasil, a predominância da Igreja Católica nos governos é, historicamente, visível. O Estado é laico, mas a Igreja sempre esteve influenciando e até determinando políticas públicas e a própria legislação. O que está acontecendo agora é que esta relação foi escancarada sem nenhuma sofisticação e sem os limites necessários. Os agentes governamentais parecem tomar as suas práticas eclesiais como referência para a administração estatal. O tipo atual de interferência religiosa no Estado revela o alto grau de promiscuidade política e religiosa a que estas lideranças estão acostumadas.     

247 - O que você acha da proposta de evangelizar índios e comunidades indígenas?

- O Estado laico não pode tomar como referência ideais missionários desta ou daquela religião. Faz parte do papel do Estado proteger as culturas indígenas e garantir que elas sejam preservadas em todos os sentidos. É um desvio de função do Estado qualquer ação ou iniciativa que tenha como objetivo a “evangelização” ou a “conversão” dos seus nacionais a qualquer segmento religioso.  

(https://conic.org.br/portal/noticias/3410-nota-do-conic-sobre-indicacao-de-ex-missionario-para-funai-2)

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