Lutar ao lado de quem patrocinou o golpe ou lavar as mãos? “Uma escolha muito difícil”

"Neste momento, porém, tudo o que sinto é raiva de quem nos jogou nesta situação e agora clama por 'união' contra Bolsonaro. Raiva, angústia e tristeza pelo Brasil que nos roubaram, exatamente como em 1964. Lutar ao lado de calhordas e vendilhões da pátria é a real 'escolha difícil'. A outra opção é o aeroporto", escreve a jornalista Cynara Manezes

(Foto: ADRIANO MACHADO - REUTERS)
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Por Cynara Menezes, no Socialista Morena e para o Jornalistas pela Democracia 

E então, neste museu de grandes novidades chamado Brasil, descobriram que o presidente da República está disparando mensagens pelo whatsapp convocando para uma manifestação no dia 15 de março em favor do fechamento do Congresso Nacional. Qual a surpresa? Bolsonaro sempre defendeu isso. Bolsonaro homenageou torturador, a quem trata como “herói nacional”. Bolsonaro deu “nota 10” para a ditadura outro dia, não foi 20 anos atrás, não. Ele já era presidente.

Sim, sei muito bem que teremos de engolir as mágoas e lutar ao lado dos cínicos e irresponsáveis que urdiram um golpe de Estado contra uma presidenta eleita, movidos pelo ódio a um partido político e pelo desamor ao Brasil, jogando as instituições democráticas na lata do lixo. O plano deles deu errado: a mídia comercial, principal sustentáculo da conspiração que arrancou o PT do poder, achava que iria finalmente colocar no Planalto seu braço político, o PSDB. E deu Bolsonaro.

O presidente tem a faca e o queijo na mão para fazer o "novo AI-5" dos sonhos de seu filho Eduardo. O bolsonarismo domina setores importantes da PF, da PM, do MP, da Justiça e das Forças Armadas. A rigor, só não dá o golpe dentro do golpe porque não quer

Até o momento final da eleição, continuaram a enganar a população, colocando um professor e um energúmeno defensor da ditadura no mesmo patamar: “uma escolha muito difícil”, publicou O Estado de S.Paulo sobre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, em editorial.

Não deixa de ser ironia do destino que tenha sido uma colunista do jornal a dar em primeira mão a informação de que o presidente estava insuflando golpismo pelo zapzap, coisa que, diga-se de passagem, o PT jamais fez ou faria. O “furo” fez a repórter virar imediatamente alvo das milícias virtuais de extrema direita. Uma escolha difícil, não era mesmo?

O presidente tem a faca e o queijo na mão para fazer o “novo AI-5” dos sonhos de seu filho Eduardo. O bolsonarismo domina atualmente setores importantes da Polícia Federal, da Polícia Militar, do Ministério Público, da Justiça e das Forças Armadas. A rigor, só não dá o golpe dentro do golpe porque não quer. As combalidas “instituições” estão contando somente com o “respeito” do presidente à democracia para que isso não aconteça. Um respeito que ele jamais teve –e todo mundo sabia disso.

Fico pensando em Dilma, que tomou soco na cara nos porões da ditadura a ponto de lhe arrancarem dentes, por ordem do monstro que Bolsonaro homenageou impunemente no dia da votação do impeachment: “o pavor de Dilma Rousseff”. A jovem Dilma não foi para o exílio. Ficou no Brasil e lutou bravamente contra o regime, ao contrário de muitos “defensores da democracia” que apoiaram sua destituição. E que engrossaram o coro dos que a chamavam de “terrorista”, como Bolsonaro, apenas por ódio ao PT.

Tudo o que sinto é raiva de quem nos jogou nesta situação e agora clama por "união" contra Bolsonaro. Raiva e tristeza pelo Brasil que nos roubaram. Lutar ao lado de calhordas e vendilhões da pátria é a real "escolha difícil". A outra opção é o aeroporto

Eu estou disposta a me tornar uma Dilma? Sacrificarei minha vida e minha família para lutar por um país que escolheu pelo voto o caminho da ditadura? Para defender uma imprensa que patrocinou mais uma vez um golpe? Seremos nós, de esquerda, eternos mártires para os futuros mal-agradecidos, falsificadores da História, nos transformarem em “bandidos”?

As únicas razões que me impulsionariam a lutar contra uma ditadura que, para mim, já está em curso desde que Bolsonaro tomou posse como presidente, enchendo o governo de militares, são a gente pobre deste país, que é quem mais vai sofrer, no final das contas; e as crianças, nossos filhos, que não merecem um horizonte de trevas. Ninguém mais.

Neste momento, porém, tudo o que sinto é raiva de quem nos jogou nesta situação e agora clama por “união” contra Bolsonaro. Raiva, angústia e tristeza pelo Brasil que nos roubaram, exatamente como em 1964. Lutar ao lado de calhordas e vendilhões da pátria é a real “escolha difícil”. A outra opção é o aeroporto.

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