Machismo e misoginia no Xadrez. O lugar da mulher

A interessante série da Netflix apresenta, em alguns momentos (senão quase todos), o preconceito masculino no meio enxadrístico. Mas a série é otimista, ao final, ao apresentar os adversários como pessoas resignadas ao gênio feminino

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Sim, existem jogadoras de xadrez mulheres... Talvez isso não se constitua uma novidade aos apreciadores do jogo, mas certamente é uma aos não iniciados. Se bem que com a série Netflix Gambito da Rainha o negócio tenha mudado. Mas para a maior parte do público que não acompanha o esporte (sim, xadrez é um esporte) essa é uma notícia como outra qualquer. 

Judit Polgár, húngara de origem, iniciou-se desde muito cedo na atividade, estimulada por seu pai, que acreditava que entre homens e mulheres não havia diferença intelectual e de habilidades que justificassem superioridade de um sobre o outro. De fato, nada a impediu de tornar-se GM (Grande Mestre) no xadrez −̶ aos 15 anos de idade [1].

A interessante série da Netflix apresenta, em alguns momentos (senão quase todos), o preconceito masculino no meio enxadrístico. Mas a série é otimista, ao final, ao apresentar os adversários como pessoas resignadas ao gênio feminino. 

Na vida real nem sempre ocorre assim. É o caso que agora se tornou clássico de preconceito machista para com a jogadora Anna Rudolf, também húngara, ocorrido em 2008. Vencia uma série de jogos num torneio da França naquele ano, inclusive contra um GM francês, Christian Bauer, quando a certa altura foi acusada por outros competidores de jogar com a ajuda de um ENGINE (máquina −̶ um computador, um software, resumindo...). Como? Segundo seus adversários, todos letões (o francês mesmo não a acusou) ela fazia uso do software por meio de um lipstick (batom) que permanecia em sua mesa enquanto jogava [2]. Isso mesmo, segundo os jogadores da gloriosa Letônia, Anna Rudolf teria recebido sinais de seu lipstick, que indicava a melhor jogada a seguir. Como ela teria interpretado esses sinais é que seria um grande mistério, se tudo isso não passasse de uma grande bobagem de homens ressentidos de suas próprias deficiências. Certo é que Anna não está entre os jogadores(as) de maior rating, mas as partidas não dependem apenas do ratingdo jogador. Depende de muitas variáveis, não só preparo. Jogadores de xadrez são conhecidos e reconhecidos pelo espírito desportivo que demonstram nas competições. No entanto, nesta em especial muitos não quiseram cumprimentar a adversária −̶ como vimos sempre na série, após o final das partidas, estendendo a mão ao cumprimento. A propósito, a série em tela parece até ter se inspirado em Anna Rudolf. Confiram. 

Nada foi provado contra Anna Rudolf, mas permaneceu um pouco o trauma. A jogadora é conhecida pela sua vaidade feminina. Quando um poder desse invade uma seara masculina os egos ficam ofendidos. Arranja-se sempre uma desculpa ou um modo de desqualificar o outro lado. Para mim o que fica é um exemplo vergonhoso da condição do macho, tão vergonhoso quanto frágil e ridícula foi a acusação contra Anna Rudolf, inteligente, charmosamente vaidosa e... mulher. 

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Judit_Polg%C3%A1r- acesso em 17/01/2021

[2] https://www.nytimes.com/2008/01/13/crosswords/chess/13chess.htmlacesso em 17/01/2021. Mais detalhes sobre o fato numa entrevista dela com Judit Polgár, em: https://www.theatlantic.com/family/archive/2019/09/female-chess-masters-talk-sexism-and-friendship/598003/

Para os aficcionados a partida contra Bauer pode ser vista em: https://www.youtube.com/watch?v=eye_RvGGW-Y

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