Machismo na veia

"O machismo estrutural se junta ao fascismo, ao neoliberalismo e às religiões para fincar os pilares dessa nova ordem que de nova não tem nada", enfatiza i cartunista Miguel Paiva. "É preciso olhar para frente de verdade usando o passado como lição e não como dogma a ser seguido", acrescenta

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Até recentemente pouca coisa tinha mudado nas "leis" que regem um casamento. Tirando as bolhas em que vivemos, supostamente mais evoluídas, o machismo estrutural continua prevalecendo. Os homens mandam, as mulheres obedecem ou padecem. As religiões enaltecem o casamento e estabelecem ainda hoje regras de manutenção que passam sempre pelo sacrifício das mulheres. Aos homens tudo, às mulheres o de costume e esse costume não costuma amolecer as regras para elas.

No caso do Brasil a coisa ainda era pior até o final dos anos 1970 quando a lei do divórcio foi aprovada. Cheia de imperfeições, ela só veio a ter plena função em 2010 quando eliminou a exigência de separação prévia para a concessão do divórcio. 

As mulheres, até a revolução que veio com o advento da pílula anticoncepcional nos anos 1950 e logo depois, o surgimento do feminismo, só conseguiam se afirmar num matriarcado permitido que preservavam nas casas, dando algum espaço para valores femininos já que eram os valores masculinos que realmente mandavam na vida. Mas as mulheres viviam a ilusão até gratificante de poderem imprimir seus conhecimentos e mandamentos nas novas gerações. Acabavam quase sempre sufocadas pelos interesses masculinos que também queriam passar valores para as próximas gerações, mas os piores possíveis. Por isso bebês do sexo masculino eram sempre bem vindos enquanto que os do sexo feminino eram lamentados.

As guerras mudaram esse equilíbrio, o mercado precisou das mulheres e a participação delas acabou acelerando o processo de transformação. Como disse, a pílula e o feminismo sedimentaram essa nova condição. Mas ai, a religião começou uma guerra santa para manter as coisas como eram. Homens à frente, mulheres atrás, a serviço deles. O mundo dos homens sempre precisou das mulheres submissas. Para exercer o poder eles não podem ser contestados. Essa é a condição fundamental. A mudança da condição feminina, os espaços conquistados e sobretudo o lugar de fala solidificado vão criando uma nova realidade que os homens não sabem e não querem assimilar. 

Aqui no Brasil essa realidade incomoda e muito. Não só essa, mas tudo que é decorrência dessa mudança radical nos costumes. O que foi conquistado a duras penas nesses anos passados agora corre o risco de ser reprimido ou mesmo proibido no dia a dia. Mulheres, LGBTS, artistas, negros, índios, todos os grupos que haviam conquistado algum espaço de expressão agora passam a ser perseguidos. A Nova Inquisição protegida por milícias reais e virtuais, usando munição difícil de se combater tais como fake news, perseguições, ataques, censuras e imposição de novas regras, veio para ficar, segundo eles. 

Resta saber se nossa resistência, depois de ter feito escola desde o inicio do século XX, passando pelas diversas "revoluções" culturais e sexuais vai ser suficiente para segurar essa pressão. As conquistas são de fato sólidas? Essa mudança de raciocínio e de compreensão em relação ao mundo realmente está valendo ou continuamos como nossos pais, repetindo regras vencidas e costumes corroídos que só servem para  manter as coisas como estão? 

O machismo estrutural se junta ao fascismo, ao neoliberalismo e às religiões para fincar os pilares dessa nova ordem que de nova não tem nada. É preciso olhar para frente de verdade usando o passado como lição e não como dogma a ser seguido. A ideia de vanguarda do retrocesso que esse governo vem imprimindo traz na manga a negação de tudo que é transformador. A escolha deles é pelo que é destruidor. Não deixa de fazer sentido. Nas ruínas do que foi conquistado é mais fácil ser tirano. Como a ruína é o futuro natural do machismo pode ser também o ambiente onde ele melhor possa se impor e sobreviver na sociedade. 

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