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Guanayra Firmino

Presidenta eleita da Mangueira e primeira mulher a presidir a escola

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Mães negras no Brasil, a base que sustenta a pirâmide

Enquanto as mães negras sustentam a base da pirâmide social, elas são sistematicamente excluídas do topo

Mães negras no Brasil, a base que sustenta a pirâmide (Foto: Imagens (TV Brasil))

No Brasil, há uma engrenagem invisível que mantém o país funcionando todos os dias, e ela tem rosto, cor e história. São as mães negras, mulheres que sustentam não apenas seus lares, mas grande parte da dinâmica social e econômica do país. Ainda assim, permanecem à margem do reconhecimento, enquanto ocupam o centro da sobrevivência coletiva.

Os dados ajudam a dimensionar essa realidade. Segundo o IBGE, as mulheres já são responsáveis por 49,1% dos lares brasileiros, o que representa cerca de 35,6 milhões de famílias sob liderança feminina. Quando se observa o recorte racial, a desigualdade se torna ainda mais evidente: desse total de lares chefiados por mulheres, mais de 21 milhões são liderados por mulheres negras. Isso significa que, em larga escala, são elas que garantem alimento, educação e dignidade para milhões de brasileiros.

Outro dado alarmante revela que a maternidade solo no Brasil também tem cor: cerca de 78% das mães solo são negras. São mulheres que, muitas vezes, enfrentam jornadas duplas ou triplas, conciliando trabalho precarizado, cuidado com os filhos e responsabilidades domésticas — tudo isso em um contexto marcado por desigualdade salarial, racismo estrutural e ausência de políticas públicas eficazes.

É nesse ponto que se estabelece o paradoxo central da sociedade brasileira: enquanto as mães negras sustentam a base da pirâmide social, elas são sistematicamente excluídas do topo. No mundo corporativo, por exemplo, a presença de mulheres negras em cargos de liderança é quase simbólica. Apenas 3% dos postos de liderança nas empresas são ocupados por elas, mesmo representando cerca de 29% da população brasileira. 

Além disso, 81% das empresas têm no máximo 10% de mulheres negras em cargos de chefia, e mais da metade das profissionais sequer vê uma mulher negra em posição de liderança em seu ambiente de trabalho. Essa discrepância não é casual,  ela é estrutural e estruturada. 

Revela um país que se apoia no trabalho invisibilizado das mulheres negras, mas que não lhes oferece as mesmas oportunidades de ascensão, reconhecimento e poder. Enquanto elas garantem o funcionamento da base, continuam afastadas das decisões que moldam o topo.

Falar sobre mães negras no Brasil é, portanto, falar sobre resistência. É reconhecer que, apesar de todas as adversidades, essas mulheres seguem sendo o alicerce de milhões de famílias e comunidades. São elas que movimentam a economia informal, que sustentam redes de apoio e que, muitas vezes, assumem papéis que deveriam ser compartilhados pelo Estado e pela sociedade.

Valorizar as mães negras não pode ser apenas um gesto simbólico ou uma pauta sazonal. É uma necessidade urgente para qualquer projeto de país que se pretenda ser minimamente justo. Isso passa por políticas públicas efetivas, acesso à educação, equidade no mercado de trabalho e, sobretudo, pela quebra das estruturas que perpetuam desigualdades históricas.

Enquanto o Brasil não reconhecer, de fato, o papel central dessas mulheres, seguirá sendo uma nação construída sobre uma base forte, mas injustamente sobrecarregada.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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