Maia, o Sombra

A colunista Tereza Cruvinel observa que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, "não é um colaborador de Bolsonaro, é na prática um concorrente. Neutralizando os danos, passando o pano sobre as porcarias do atual governo, Rodrigo Maia vai se credenciando como reserva política para as elites e as forças do chamado centro conservador, a direita não fascista"

(Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Com desenvoltura crescente, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, vai assumindo o papel de primeiro-ministro informal de um estranho governo semi-parlamentarista,  encarregando-se de tocar a agenda parlamentar, especialmente a das reformas neoliberais que interessam ao dito mercado, e agora também a mitigar os danos causados à imagem externa do Brasil pelos desatinos ideológicos de Bolsonaro e as transgressões de seu governo em questões ambientais e de direitos humanos.  Enquanto isso, Bolsonaro dedica-se à guerrilha ideológica, à ocupação do Estado por seus prepostos despreparados e à desconstrução de instituições e valores sobre os quais o Brasil vinha erigindo uma democracia de sentido  inclusivo, ainda que cheia de imperfeições.

Sem o protagonismo de Maia, não teria sido aprovada a reforma previdenciária e o conjunto de medidas provisórias que o Congresso tratou de ajustar. O pacote anticrime de Moro não passaria, mesmo com a poda em seus arreganhos autoritários, como o excludente de ilicitude,  a licença a policiais para matar em serviço sem responder a processo. As derrotas do governo no Congresso, que são muitas, teriam sido acachapantes. Agora Maia começa a atuar como agente neutralizador de danos também no plano internacional. Foi a Buenos Aires com uma comitiva parlamentar pluripartidária e encontrou-se com o presidente Alberto Fernandez na semana passada, antes portanto da posse de terça-feira, buscando distender a relação crispada pelas grosserias de Bolsonaro e do chanceler. E quando Bolsonaro, emburrado, decidiu não mandar ninguém à posse, ele foi dos que mais energicamente argumentaram contra a da decisão, que azedaria ainda mais as relações com o parceiro comercial estratégico para o Brasil.

Bolsonaro então escalou seu vice Mourão, e a representação mais elevada contribuiu para desanuviar o clima. Fernandez referiu-se com elegância à necessidade de uma relação “inovadora e criativa” com o Brasil, para lá das diferenças ideológicas “dos que governam na conjuntura”. Claro, Bolsonaro e ele vão passar, mas os interesses convergentes dos dois países precisam ser preservados. Maia agiu em sintonia com os agoniados exportadores brasileiros, especialmente da indústria, ante o desatino de Bolsonaro. Desnecessário dizer que o chanceler Ernesto Araújo perdeu as condições de dialogar com o novo governo argentino, pelo menos por ora, depois de ter comparado Fernandez a uma “matrioska”, a bonequinha russa que carrega outras dentro: Cristina, Lula, Chávez, Fidel, Maduro e outros líderes de esquerda.

Agora Maia vai à Europa tentar reduzir os danos causados à imagem do Brasil pela política externa toscamente ideológica, pelas falas espantosas de Bolsonaro, pelas ações e falta de ação de seu governo em áreas como direitos humanos e meio ambiente.  Em Genebra, vai se encontrar com a ex-presidente chilena Michele Bachelet, que Bolsonaro ofendeu ao elogiar a vitória de Pinochet contra “comunistas” como o pai dela, um general fiel ao ex-presidente Salvador Allende, que a ditadura chilena prendeu e torturou até matá-lo. Quem sabe encontre Greta Thumberg, vítima da última presepada de Bolsonaro, que a chamou de “pirralha”. Incorporando o depreciativo a sua biografia virtual e divulgando-o nas redes sociais, ela produziu uma reverberação global da grosseria. A estas coisas dedica-se Bolsonaro enquanto Maia atua para garantir a aparente normalidade do governo, seja tocando a agenda parlamentar, seja agora atuando no plano internacional.

Chamá-lo de eminência parda seria errado. O termo “éminence grise” surgiu na França para designar o frade Francois Leclerc, poderoso assessor do cardeal Richelieu, primeiro-ministro (1628-1642) do rei absolutista Luiz XIII. Leclerc usava batina bege, daí o apelido de eminência parda. Não era cardeal mas pelo poder que tinha, virou eminência. Maia não é um colaborador de Bolsonaro, é na prática um concorrente. Neutralizando os danos, passando o pano sobre as porcarias do atual governo, Rodrigo Maia vai se credenciando como reserva política para as elites e as forças do chamado centro conservador, a direita não fascista, como diz o Attuch.

Nem é certo também chamar o presidente da Câmara de condestável, termo muito aplicado a Ulysses Guimarães no governo de Sarney. Ulysses era o verdadeiro detentor do poder no PMDB, partido com maioria absoluta no Congresso (situação que nunca mais se repetiu) e mandava muito no governo que deveria ter sido do peemedebista Tancredo Neves, morto antes de tomar posse, deixando o cargo ao vice. Maia não é também um “shadow ministry”, expressão que os ingleses aplicam a um líder da oposição que, por sua influência,  faz sombra ao primeiro-ministro de fato. Ele não é opositor de Bolsonaro.

Rodrigo Maia, neste momento, é produto deste estranho regime instalado no Brasil.  Supre a falta de habilidade política do presidente e contorna sua opção, em nome de um falso rompimento com o sistema de coalizão, por governar sem base parlamentar. Vai engabelando os deputados com liberações de emendas orçamentárias e pequenas concessões no varejo dos cargos menores. E assim, reúne maiorias ocasionais, graças à sua liderança no Centrão para, em sintonia com a elite econômica, acelerar, travar ou modificar as propostas do governo na Câmara.  Agora, propõe-se também a reduzir os danos à imagem do país no mundo.

Enquanto isso, Bolsonaro distribui insultos diários,  comanda a intervenção na área cultural para colocar filtros ideológicos na produção de bens simbólicos, porque assim é que se coloniza um país. Enquanto isso o ministro da Educação compete com ele em bordunadas ideológicas,  pondo de lado as urgências de sua pasta.  Bolsonaro amansa a Polícia Federal com ameaças, domina o Ministério Público com Aras, subjuga a Receita Federal e desmonta os conselhos de participação social, enquanto Guedes promete o paraíso do crescimento para quando conseguir vender o Brasil.

O arranjo, por ora, tem funcionado. A confiança e a aprovação de Bolsonaro estão em queda mas ele continua tendo o apoio de um bolsão radical de extrema direita que capturou parcela (seus 30%) da população. Guedes não produz crescimento real e até a inflação está em alta, mas gerou uma ligeira expectativa de melhora econômica. Uma espuma, fruto de medidas como a liberação de FGTS e do Pis-Pasep. Agora vem o décimo-terceiro salário, extensivo aos que recebem Bolsa-família. Além de pagar dívidas, pode sobrar algum para aquecer o consumo, alimentando o discurso da recuperação. Mas a vida recomeçará em 2020 e nada indica que empregos de qualidade serão gerados.

Por quanto tempo Maia conseguirá funcionar como pau da barraca frágil não sabemos. Mas é certo que, além de Moro, Bolsonaro está permitindo que ele também cresça como alternativa da centro-direita para 2022. 

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