Mais investimentos e menos marketing na luta contra o câncer

Estamos mesmo dispostos a abrir mão desse trabalho maravilhoso prestado pela Fundação Centro de Pesquisa em Oncologia, em troca de uma economia fictícia, que não aliviará em nada as finanças do Estado? Jamais

Doria e os 8860 dias de SP sob governos tucanos
Doria e os 8860 dias de SP sob governos tucanos (Foto: Wilson Dias/EBC)

Nos últimos meses, a política brasileira tem nos reservado inúmeras novidades, sendo algumas alvissareiras, ao passo que outras são deveras intragáveis. No dia 1º de outubro do ano corrente, por meio do Twitter do governador de São Paulo, João Doria Junior, recebemos a informação de que o Palácio dos Bandeirantes ficará iluminado na cor rosa, a fim de conscientizar o povo paulista acerca da prevenção ao câncer de mama. 

Toda forma de conscientização é bem-vinda, ainda mais quando diz respeito a uma doença tão grave, que figura como uma das principais causas de mortes de mulheres no Brasil. Contudo, a atitude do Doria pode ser vista como irônica, na medida em que seu governo está em vias de desativar um dos principais centros de pesquisa na área do combate ao câncer: a Fundação Oncocentro de São Paulo (FOSP). 

A instituição surgiu há 51 anos, ainda como Centro de Oncologia (CEON), por iniciativa de professores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Sua finalidade principal era incentivar e coordenar estudos e atividades na área de oncologia. 

Nos anos 70, já como Fundação Centro de Pesquisa em Oncologia (FCPO), a entidade passou a priorizar as ações para prevenção e controle dos cânceres de mama e de colo de útero, com ênfase na busca pela detecção precoce dessas doenças. 

Observa-se, portanto, que, muitos anos antes de falar-se em “Outubro Rosa”, São Paulo já contava com um instrumento efetivo para combate e prevenção a um tipo de tumor que provocou 627 mil mortes ao redor do mundo, em 2018, e que deverá atingir 59.700 brasileiras, neste ano. 

Frise-se aqui que apoiamos campanhas como “Outubro Rosa” e as consideramos para lá de necessárias, na medida em que conscientizam as mulheres sobre a importância da prevenção e da detecção precoce do câncer de mama. Por outro lado, de que adianta as mulheres saberem que precisam se prevenir, se o Estado promove o desmonte de um serviço que é fundamental para esse diagnóstico ágil e preciso? 

A partir de 1986, quando passou a se denominar oficialmente FOSP, a instituição ampliou sua atuação, prestando uma série de serviços à saúde pública paulista e também participando ativamente da elaboração e implementação de políticas públicas de enfrentamento e prevenção ao câncer no estado de São Paulo. 

Atualmente, a FOSP atende às demandas de 540 unidades de saúde no território paulista, sendo responsável por capacitar, anualmente, em torno de 1.000 profissionais que atuam na atenção básica em saúde, em especial enfermeiros e médicos, para o rastreamento e detecção precoce de tumores de colo de útero e de mama. 

Apenas em 2018, a FOSP realizou 247.572 testes Papanicolau; 13.757 biópsias de colo do útero, mama e pele; e 3.157 exames de imuno-histoquímica. Possui um laboratório que é referência em citopatologia, tanto que é responsável por monitorar o funcionamento dos demais do gênero, no Estado. Também se destaca na formação de técnicos na área e por coordenar a principal base de dados sobre o câncer em São Paulo. 

No ano passado, a FOSP atendeu a 2.548 pacientes. Muitos deles foram beneficiados com próteses que são confeccionadas na instituição. Tive a oportunidade de conhecer de perto esse trabalho gratificante. Não há dinheiro no mundo que pague o resgate da autoestima e da esperança, promovido por essa iniciativa que salva e transforma vidas. 

Por tudo o que foi exposto acima, podemos dizer que ultrapassa todos os limites da hipocrisia o governo falar em conscientização sobre o câncer, ao mesmo tempo em que planeja fechar um dos principais instrumentos de combate e prevenção à doença. 

Quando a FOSP deixar de existir, quem vai realizar seu trabalho? Sabemos que a iniciativa privada não tem a mínima condição de suprir essa demanda. Da mesma forma que a rede pública possui suas próprias limitações, que a impossibilitam de assumir um serviço tão especializado. O Hospital das Clínicas, que possui 35 funcionários dedicados à área de exames laboratoriais relativos ao câncer, realiza uma média de 20 mil testes ao ano, 10% do que a Fosp faz com o mesmo número de especialistas. 

Hoje em dia, a instituição atende à essa gama imensa de serviços com orçamento médio de R$ 450 mil ao mês, que equivale a 0,05% do total destinado à Secretaria Estadual de Saúde. Em troca, beneficia milhões de paulistas, de maneira direta e indireta. 

Estamos mesmo dispostos a abrir mão desse trabalho maravilhoso prestado pela FOSP, em troca de uma economia fictícia, que não aliviará em nada as finanças do Estado? Jamais. Por essa razão, meu mandato está comprometido na luta contra o fechamento da Fundação Oncocentro. O combate ao câncer precisa de menos marketing e de mais investimento naquilo que funciona de verdade. 

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