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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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Mais que vitória, Brasil apresenta um projeto de equipe

Mais do que três gols, atuação brasileira destaca disciplina, inteligência coletiva e capacidade de adaptação

Mais que vitória, Brasil apresenta um projeto de equipe (Foto: Reuters)
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Durante uma Copa do Mundo, o Brasil costuma interromper, ainda que por noventa minutos, suas intermináveis divergências. Gente que pensa diferente sobre política, economia, religião ou costumes senta diante da mesma televisão e compartilha a expectativa de ver a Seleção reencontrar o futebol que ajudou a transformar esse esporte em linguagem universal. Em tempos atravessados, em que famílias se fragmentam por ideologias e o pessimismo se instala como um hábito quase automático — tratado por muitos como uma forma de lucidez —, foi particularmente significativo perceber que, já nos primeiros minutos de Brasil x Escócia, essa névoa amarga começou a se dissipar. Não foi um entusiasmo ingênuo, mas uma espécie de suspensão coletiva da descrença. Aprendi, depois de tantas Copas acompanhadas, a desconfiar das euforias instantâneas. Grandes vitórias já esconderam equipes frágeis. Também aprendi a reconhecer quando um time começa a revelar algo mais importante do que um placar. Foi exatamente essa sensação que tive ao assistir ao convincente 3 a 0 sobre a Escócia, nesta quarta-feira, 24 de junho.

Não escrevo movido pelo velho ufanismo que tantas vezes nos custou caro. Tampouco pretendo ocupar o lugar confortável do comentarista que apenas descreve o que todos viram. Tento ir além da superfície, alcançar aquilo que se sente enquanto o jogo acontece — as pequenas inflexões de ritmo, os silêncios entre uma jogada e outra, a respiração coletiva que muda quando algo começa a fazer sentido. Ainda assim, faço isso com a consciência de que o futebol sempre escapa a qualquer tentativa de explicação definitiva. Escrevo porque vi uma seleção que finalmente parece saber o que pretende fazer em campo. Há uma ideia coletiva. Há disciplina tática. Há aproximação entre os setores. Há solidariedade na marcação. Sob o comando de Carlo Ancelotti, o Brasil começa a apresentar uma identidade que esteve ausente durante muitos anos.

Vinícius Júnior foi, de longe, o maior nome da partida. Os dois gols resumem apenas parte de sua atuação. O que realmente impressionou foi a maneira como atacou os espaços, recompôs quando necessário, acelerou nas horas certas e tomou decisões inteligentes. A velocidade continua sendo uma de suas marcas, mas agora ela vem acompanhada de maturidade. O futebol amadureceu junto com o jogador.

Se Vinícius tivesse convertido a excelente oportunidade criada no segundo tempo, não teria sido um gol casual. Teria sido consequência natural de uma atuação extraordinária. Igualaria um feito que permanece vivo na memória do futebol brasileiro desde 1958, quando Pelé marcou três gols em uma única partida de Copa do Mundo. O terceiro gol não aconteceu. Ainda assim, a comparação surgiu espontaneamente, porque há partidas em que um craque parece jogar alguns segundos à frente dos demais.

Também seria injusto resumir esta vitória apenas ao brilho de Vinícius. Alisson mostrou novamente por que continua entre os melhores goleiros do planeta. Sua atuação não se limitou a defesas difíceis; foi uma demonstração de leitura de jogo. Antecipou cruzamentos, orientou a linha defensiva, escolheu com precisão os momentos de acelerar ou esfriar a partida. Fez intervenções decisivas justamente quando o jogo ainda permitia alguma esperança aos escoceses. Grandes goleiros raramente aparecem quando o resultado já está resolvido; eles surgem exatamente nos momentos em que uma defesa altera o rumo emocional da partida. Alisson não apenas evitou gols — ele estabilizou o time quando a partida ainda estava em aberto.

Lucas Paquetá fez talvez sua apresentação mais madura nesta Copa. Organizou o meio-campo, distribuiu o jogo com inteligência e compreendeu como poucos os espaços deixados pela marcação adversária. Matheus Cunha confirmou que vive uma fase especial. Movimentou-se o tempo inteiro, abriu corredores para os companheiros e coroou sua atuação com o terceiro gol, consolidando um sistema ofensivo que começa a funcionar como conjunto, não como reunião de talentos isolados.

Gostei igualmente do respeito que esta Copa continua impondo a dois gigantes do futebol mundial. Lionel Messi e Cristiano Ronaldo seguem demonstrando que talento, disciplina e inteligência podem prolongar carreiras que muitos imaginavam encerradas no mais alto nível. Não se trata apenas de reverenciar nomes consagrados, mas de reconhecer a capacidade rara de se reinventar diante do tempo. Messi continua a enxergar linhas de passe que parecem invisíveis aos demais, enquanto Cristiano transforma cada movimento em um exercício de precisão física e mental. São jogadores que não apenas resistem ao desgaste natural, mas o incorporam como parte de sua evolução. Independentemente de preferências pessoais, o futebol agradece por ainda poder assistir a dois dos maiores jogadores de todos os tempos escrevendo novos capítulos de suas trajetórias.

Neymar entrou quando restavam menos de vinte minutos para o fim do segundo tempo. Sei que muita gente comemorou sua presença. Eu não me incluo entre elas. Vi um jogador ainda distante do ritmo competitivo exigido por uma Copa do Mundo. As quedas frequentes e a dificuldade para acompanhar a intensidade da partida reforçaram minha impressão de que ele ainda necessita de mais tempo antes de assumir responsabilidades maiores. Torço sinceramente para estar errado nas próximas partidas.

Saí deste jogo mais otimista do que entrei. Não por causa dos três gols. Placar algum ganha Copa do Mundo. Saí otimista porque enxerguei algo infinitamente mais difícil de construir: uma equipe. Ainda haverá adversários muito mais fortes pela frente. Virão seleções acostumadas a decidir títulos e suportar pressão. Mas, pela primeira vez em muitos anos, termino uma partida da Seleção Brasileira com a sensação de que o Brasil voltou a jogar um futebol que inspira confiança antes mesmo de despertar esperança — como uma engrenagem antiga que, após anos enferrujada, volta a girar não por acaso, mas porque alguém finalmente compreendeu o mecanismo. E, para quem ama este esporte desde menino, essa já é uma excelente notícia. O. Brasil voltou.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.