Manda quatro 38 no capricho

"Eu, Cidadão de Bem, estou autorizado a comprar, e usar, até quatro armas. Este pequeno arsenal poderá ser ampliado. Depende dos argumentos que eu usar e do padrinho que eu tiver. Estou, a partir de hoje, protegido da sanha dos bandidos", ironiza o jornalista Gilvandro Filho, do Jornalistas pela Democracia, sobre o decreto de Jair Bolsonaro que implanta o faroeste no Brasil; "Como não sou machista, ao contrário do que muita gente pensa, minha mulher pode ficar tranquila. Esse cano não é para ela. Claro que, de posse de minha arma, a gente impõe um respeito maior. Mas, minha mulher é uma santa. Essa arma é para acertar pilantra"

Manda quatro 38 no capricho
Manda quatro 38 no capricho

Por Gilvandro Filho, do Jornalistas pela DemocraciaAviso aos navegantes: texto de ficção.

Eu, Cidadão de Bem, estou autorizado a comprar, e usar, até quatro armas. Este pequeno arsenal poderá ser ampliado. Depende dos argumentos que eu usar e do padrinho que eu tiver. Estou, a partir de hoje, protegido da sanha dos bandidos. Não serei mais assaltado, pois os meliantes pensarão duas vezes e me temerão.

Quando alguém chegar perto de mim, pelo vidro do meu carro, portando seu revólver, sua metralhadora ou até mesmo sua 12, eu já terei como enfrentá-lo: saco o meu 38 e encaro o salafrário, feito homem. Se Deus estiver de plantão, eu não serei atingido. Nem a minha mulher, no banco do lado. Nem o meu filhinho de 2 anos, atrás, na cadeirinha do bebê.

Na vizinhança, a partir de hoje, eu passo a ser respeitado. Ninguém vai mais me ultrajar. Vão pensar duas vezes. Afinal, sou um sujeito decente e armado. Deixa aquele vizinho metido a valente vir reclamar do som do meu carro, nas tardes de domingo. Poderei ouvir o meu sertanejo em paz e no volume que quiser. Sinto-me bem mais tranquilo.

Na escola do meu filho, a partir de hoje, ninguém vai mais cantar de galo. Bando de oportunista. Pensavam que eram os donos do mundo.

Briga de rua, nunca mais. Vou direto na raiz e procuro o pai do pequeno marginal. Tentarei diálogo, claro, mostrando que me enfrentando ele só tem a perder. Se não der certo... Bom, estarei defendendo minha família, ué?!

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Como não sou machista, ao contrário do que muita gente pensa, minha mulher pode ficar tranquila. Esse cano não é para ela. Claro que, de posse de minha arma, a gente impõe um respeito maior. Mas, minha mulher é uma santa. Essa arma é para acertar pilantra...

Claro que não vou para a festa armado. Portanto, não vem com essa de dizer que a noite ficará mais violenta. Meu revólver fica em casa. Se eu encho a cara também casa? Claro! É mais seguro. Agora, mais ainda...

E o Brasil agora é outro. Neste país decente e cristão, quem não deve não teme. E bandido bom é bandido morto, né mesmo?

Falando em Brasil, fiquei sabendo que, no campo, a situação agora vai ficar beleza. Pelo menos vai acabar aquela farra de invasão de sem-terra. Bando de desocupado e comunista. Onde já se viu ocupar terra dos outros? Acabou a mamata. Os coitados dos donos de terra, até hoje desamparados e largados à própria sorte, agora terão como se defender. A justiça começa a ser feita.

Viva o meu presidente!

Viva a minha bandeira que jamais será vermelha!

Viva o novo Brasil!

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