Mandetta e o inimigo, com nome e sobrenome

Bolsonaro só não o demitiu nesta segunda-feira (06-4) porque foi “dissuadido” – para usar um eufemismo – a não fazê-lo, pelos generais de quatro estrelas que o cercam

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Por Sérgio Fontenele, para o Pensar Piauí

O estado de calamidade nacional causado pela pandemia da COVID-19 não poderia ter sido pior para os planos de poder do presidente Jair Bolsonaro, do ponto de vista da sonhada reeleição à Presidência da República, em 2022. Há uma catástrofe em curso, que deverá resultar em milhares ou dezenas de milhares de brasileiros mortos, gravemente enfermos ou debilitados por algum tempo de suas vidas, mesmo depois de terem vencido a fase crítica do internamento nas rarefeitas unidades de terapia intensiva (UTIs), públicas e privadas.

Mas essa tragédia humanitária, que não é só nacional, mas planetária, não parece ser a prioridade, a maior preocupação do presidente, que, por motivações político-ideológicas sorrateiramente operantes, vem atuando de forma intensa no sentido de destruir o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, hoje seu desafeto. Demonstrando todo o seu ódio pelo ministro, em vídeos e postagens compartilhados nas redes sociais, Bolsonaro quer demitir Mandetta de qualquer jeito. O ministro se tornou insuportável para Jair, seus filhos e sua facção.

Bolsonaro só não o demitiu nesta segunda-feira (06-4) porque foi “dissuadido” – para usar um eufemismo – a não fazê-lo, pelos generais de quatro estrelas que o cercam, no Planalto, especialmente o ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Walter Braga Netto. Apontado como o “presidente operacional” do País, Braga Netto, ao lado de outros generais, como o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, instalaram uma espécie de junta militar informal, porém, soberana nas decisões do governo.

Mandetta mantido

Excetuando o general reformado Augusto Heleno, de explícita orientação de extrema-direita, atuando sob a inspiração do suposto astrólogo Olavo de Carvalho, guru ideológico de Bolsonaro, seus filhos e seguidores do núcleo duro do bolsonarismo, quem manda é a junta militar liderada por Braga Netto e Luiz Eduardo Ramos. Isso ficou claro com o episódio no qual Mandetta, demissionário, foi mantido no cargo, por motivo de força maior, para derrotar o inimigo comum, segundo ele, com “nome e sobrenome”, em referência à COVID-19.

Nesse momento, as palavras do ministro aparentaram ganhar duplo sentido, no que se refere ao inimigo comum, com “nome e sobrenome”. Apoiado incondicionalmente pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e por ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro da Saúde permaneceu no cargo, mantendo as respectivas diretrizes originais quanto às medidas de combate. Além disso, Mandetta se transformou numa espécie de popstar.

Em momento de emergência de tal gravidade, semelhante a uma guerra, derrubar Mandetta, para colocar o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) – ex-ministro da Cidadania, no atual governo – ou qualquer outro, seria intensificar a perene crise política, levando-a ao patamar de uma ruptura institucional. Além de prejudicar as ações tomadas no combate à COVID-19, o que seria o caos, pavimentaria a desgraça de Jair, agora mais desmoralizado e isolado do que nunca. Que o digam os governadores. Todos contra Bolsonaro.

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