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Francis Bogossian

Francis Bogossian preside o Clube de Engenharia – Brasil e o Instituto Brasileiro de Estudos Políticos; foi professor da UFRJ e da UVA; preside o Conselho de Administração das empresas Geomecânica S/A e Geocoba; ex-presidente da Academia Nacional de Engenharia; membro do Conselho Consultivo da Casa Rui Barbosa; ex presidente interino e vice-presidente do CREA RJ.

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Manifesto pela engenharia de qualidade e pelo verdadeiro interesse público

Aceitar obras apenas “satisfatórias”, que atendem ao mínimo legal, é renunciar à excelência que o país necessita e merece

Ferrovia (Foto: Ministério da Infraestrutura)

O Brasil enfrenta, há décadas, um processo silencioso e contínuo de enfraquecimento da engenharia nacional. Não se trata de um problema pontual, nem recente. Trata-se de uma distorção estrutural que compromete a qualidade das obras públicas, desperdiça recursos e, sobretudo, coloca em risco a segurança da população.

Houve um tempo em que obras eram concebidas com rigor técnico, baseadas em projetos executivos consistentes, estudos aprofundados e acompanhamento permanente. Nesse período, a engenharia brasileira construiu um legado de competência, inovação e responsabilidade. Esse modelo, porém, foi gradualmente abandonado.

Nas últimas décadas, consolidou-se uma prática preocupante: licitações realizadas sem projetos adequados — muitas vezes, sem sequer um anteprojeto consistente. Nesse cenário, a lógica do “menor preço” passou a orientar decisões que deveriam ser, antes de tudo, técnicas. O resultado é conhecido: obras mal dimensionadas, paralisações, sucessivos aditivos, custos finais elevados e, em casos extremos, colapsos com consequências humanas e sociais irreparáveis.

A lógica do menor preço é uma falsa economia. Ao priorizar o custo imediato em detrimento da qualidade, transfere-se para o futuro um passivo muito maior — financeiro, estrutural e humano. O barato, nesse contexto, torna-se perigosamente caro.

Esse modelo se agravou em períodos recentes de crise — econômica, institucional e sanitária. A pandemia evidenciou fragilidades não apenas no sistema de saúde, mas também na capacidade do Estado de planejar, executar e manter infraestrutura com eficiência. Assim como soluções simplistas não resolvem problemas complexos na medicina, também não resolvem na engenharia.

A reconstrução do país exige uma mudança clara de paradigma.

É necessário reafirmar um princípio fundamental: a melhor solução em engenharia não é a de menor custo imediato, mas a que oferece a melhor relação entre custo, qualidade, segurança e durabilidade. Este é o verdadeiro “melhor preço”.

Para isso, defendemos:

A obrigatoriedade de projetos executivos completos antes do início de qualquer obra pública;

O fortalecimento dos estudos técnicos, especialmente em geotecnia, geologia e planejamento;

A imperiosa necessidade de planejamento estruturado das obras, com definição clara de escopo, prazos e riscos;

A adoção de orçamentos baseados em preços reais de mercado, compatíveis com as condições efetivas de execução;

A revisão e o aperfeiçoamento contínuo das composições de custos utilizadas por órgãos públicos, de modo a refletir a dinâmica e a realidade do setor;

A valorização da engenharia nacional, com estímulo à inovação e à pesquisa aplicada;

A integração efetiva entre universidades, empresas e poder público;

A responsabilidade contínua sobre as obras, incluindo manutenção e acompanhamento ao longo de sua vida útil;

A revisão dos modelos de licitação que privilegiam exclusivamente o menor preço em detrimento da qualidade.

A engenharia não é apenas um setor econômico. É um instrumento estratégico de desenvolvimento nacional. Está presente na infraestrutura, na indústria, na saúde, na segurança e na qualidade de vida da população.

Obras públicas não são produtos descartáveis. São compromissos duradouros com a sociedade.

Aceitar obras apenas “satisfatórias”, que atendem ao mínimo legal, é renunciar à excelência que o país necessita e merece. É aceitar o sucateamento progressivo da infraestrutura e a perda de uma capacidade técnica construída ao longo de gerações.

O Brasil possui talento, conhecimento e tradição em soluções inovadoras. O que falta é um ambiente institucional que valorize esses atributos e permita que a engenharia cumpra plenamente seu papel.

Este manifesto é um chamado à responsabilidade.

Responsabilidade dos gestores públicos, ao planejar e contratar.

Responsabilidade das empresas, ao executar.

Responsabilidade das instituições, ao formar e inovar.

Responsabilidade da sociedade, ao exigir qualidade e transparência.

Não há desenvolvimento sustentável sem engenharia de qualidade.

Não há engenharia de qualidade sem compromisso técnico.

E não há compromisso técnico quando se prioriza apenas o menor preço.

A solução para os males da engenharia pública está no verdadeiro “melhor preço” — aquele que garante qualidade, segurança e respeito à sociedade brasileira.

Ícaro Moreno - Presidente-executivo da AEERJ (Associação das Empresas de Engenharia do Rio de Janeiro)

Francis Bogossian - Presidente do Clube de Engenharia

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.