Manifesto pela engenharia de qualidade e pelo verdadeiro interesse público
Aceitar obras apenas “satisfatórias”, que atendem ao mínimo legal, é renunciar à excelência que o país necessita e merece
O Brasil enfrenta, há décadas, um processo silencioso e contínuo de enfraquecimento da engenharia nacional. Não se trata de um problema pontual, nem recente. Trata-se de uma distorção estrutural que compromete a qualidade das obras públicas, desperdiça recursos e, sobretudo, coloca em risco a segurança da população.
Houve um tempo em que obras eram concebidas com rigor técnico, baseadas em projetos executivos consistentes, estudos aprofundados e acompanhamento permanente. Nesse período, a engenharia brasileira construiu um legado de competência, inovação e responsabilidade. Esse modelo, porém, foi gradualmente abandonado.
Nas últimas décadas, consolidou-se uma prática preocupante: licitações realizadas sem projetos adequados — muitas vezes, sem sequer um anteprojeto consistente. Nesse cenário, a lógica do “menor preço” passou a orientar decisões que deveriam ser, antes de tudo, técnicas. O resultado é conhecido: obras mal dimensionadas, paralisações, sucessivos aditivos, custos finais elevados e, em casos extremos, colapsos com consequências humanas e sociais irreparáveis.
A lógica do menor preço é uma falsa economia. Ao priorizar o custo imediato em detrimento da qualidade, transfere-se para o futuro um passivo muito maior — financeiro, estrutural e humano. O barato, nesse contexto, torna-se perigosamente caro.
Esse modelo se agravou em períodos recentes de crise — econômica, institucional e sanitária. A pandemia evidenciou fragilidades não apenas no sistema de saúde, mas também na capacidade do Estado de planejar, executar e manter infraestrutura com eficiência. Assim como soluções simplistas não resolvem problemas complexos na medicina, também não resolvem na engenharia.
A reconstrução do país exige uma mudança clara de paradigma.
É necessário reafirmar um princípio fundamental: a melhor solução em engenharia não é a de menor custo imediato, mas a que oferece a melhor relação entre custo, qualidade, segurança e durabilidade. Este é o verdadeiro “melhor preço”.
Para isso, defendemos:
A obrigatoriedade de projetos executivos completos antes do início de qualquer obra pública;
O fortalecimento dos estudos técnicos, especialmente em geotecnia, geologia e planejamento;
A imperiosa necessidade de planejamento estruturado das obras, com definição clara de escopo, prazos e riscos;
A adoção de orçamentos baseados em preços reais de mercado, compatíveis com as condições efetivas de execução;
A revisão e o aperfeiçoamento contínuo das composições de custos utilizadas por órgãos públicos, de modo a refletir a dinâmica e a realidade do setor;
A valorização da engenharia nacional, com estímulo à inovação e à pesquisa aplicada;
A integração efetiva entre universidades, empresas e poder público;
A responsabilidade contínua sobre as obras, incluindo manutenção e acompanhamento ao longo de sua vida útil;
A revisão dos modelos de licitação que privilegiam exclusivamente o menor preço em detrimento da qualidade.
A engenharia não é apenas um setor econômico. É um instrumento estratégico de desenvolvimento nacional. Está presente na infraestrutura, na indústria, na saúde, na segurança e na qualidade de vida da população.
Obras públicas não são produtos descartáveis. São compromissos duradouros com a sociedade.
Aceitar obras apenas “satisfatórias”, que atendem ao mínimo legal, é renunciar à excelência que o país necessita e merece. É aceitar o sucateamento progressivo da infraestrutura e a perda de uma capacidade técnica construída ao longo de gerações.
O Brasil possui talento, conhecimento e tradição em soluções inovadoras. O que falta é um ambiente institucional que valorize esses atributos e permita que a engenharia cumpra plenamente seu papel.
Este manifesto é um chamado à responsabilidade.
Responsabilidade dos gestores públicos, ao planejar e contratar.
Responsabilidade das empresas, ao executar.
Responsabilidade das instituições, ao formar e inovar.
Responsabilidade da sociedade, ao exigir qualidade e transparência.
Não há desenvolvimento sustentável sem engenharia de qualidade.
Não há engenharia de qualidade sem compromisso técnico.
E não há compromisso técnico quando se prioriza apenas o menor preço.
A solução para os males da engenharia pública está no verdadeiro “melhor preço” — aquele que garante qualidade, segurança e respeito à sociedade brasileira.
Ícaro Moreno - Presidente-executivo da AEERJ (Associação das Empresas de Engenharia do Rio de Janeiro)
Francis Bogossian - Presidente do Clube de Engenharia
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
