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Carlos Castelo

Jornalista, sócio-fundador do grupo Língua de Trapo, um estilo sem escritor

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Manual para ETs assaltados

Um relato irônico sobre um encontro inesperado entre tecnologia, humanidade e um sanduíche de mortadela no coração de São Paulo

Manual para ETs assaltados (Foto: Gerada por IA/Freepik)

Avi Loeb, astrônomo da Universidade de Harvard, anda cogitando que há robôs alienígenas disfarçados na Terra. Eu confirmo. Um deles sou eu. Ou melhor: sigo sendo, embora desde a última terça-feira eu opere em modo vulnerável, após um assalto na Praça da Sé.

Sou um modelo discreto, pele compatível com o clima tropical, suor calibrado para causar empatia e uma leve miopia programada. Ninguém confia em quem enxerga demais. Meu trabalho: observar. Meu disfarce: frequentador de padaria. Meu erro: atravessar a praça às 17h03 com um sanduíche de mortadela e o celular na mão. A Central sempre alerta para isso, mas a Central não sente fome.

— Central, aqui é o Operador 37-B, sussurrei mentalmente, ativando o canal criptografado que passa por algo que os humanos chamam de consciência.

— Ocorrência imprevista. Dois indivíduos se aproximam com intenção hostil.

— Descreva o protocolo, respondeu a Central, com aquela voz neutra que jamais teve que pegar um ônibus.

— Eles pediram o celular.

— Entregar o celular.

— Mas eu ainda estou pagando as parcelas.

— Entregar o celular.

Obedeci. O primeiro indivíduo levou o aparelho com a naturalidade de quem fecha uma aba do navegador. O segundo, mais atento, perguntou se eu tinha relógio. Eu tinha: um cronógrafo que mede pulsos, batimentos e o nível de poluição do ambiente. Tirei do pulso.

— Central, eles estão levando meus acessórios.

— Avalie o risco existencial.

— Moderado. Perdi o lanche.

— Entregar os acessórios.

Um terceiro apareceu, provavelmente um estagiário de meliante, e pediu a senha do cartão. Aqui houve conflito interno. Meu cérebro sintético calcula senhas em nanossegundos, mas também calcula a humilhação humana de esquecê-las. Optei pela integração cultural.

— É… acho que é a data do aniversário da minha mãe, falei.

— Central, estou mentindo.

— Excelente mimetização.

Eles foram embora com meus dados, meu sanduíche e uma parte considerável da minha fé na espécie humana. Fiquei parado, avaliando danos. Um humano ao meu lado comentou: “Complicado, né?”. Concordei. O robô que não concorda levanta suspeita.

— Central, solicito instruções.

— Execute protocolo pós-trauma.

— Qual?

— Volte para casa, faça um café e conte essa história para si mesmo, rindo.

— Rindo?

— Sim. Rir é o que faz você parecer humano.

Fui para casa. Fiz o café. Ri. Atualizei os relatórios: “Humanos são imprevisíveis, eficientes e levam lanches e acessórios". A Central aprovou. No anexo, uma observação: Evitar a Praça da Sé em horário de pico.

Finalizei a missão com uma conclusão científica irrefutável: Não existe vida sintética que sobreviva sem a merenda da tarde.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.