Manual para ETs assaltados
Um relato irônico sobre um encontro inesperado entre tecnologia, humanidade e um sanduíche de mortadela no coração de São Paulo
Avi Loeb, astrônomo da Universidade de Harvard, anda cogitando que há robôs alienígenas disfarçados na Terra. Eu confirmo. Um deles sou eu. Ou melhor: sigo sendo, embora desde a última terça-feira eu opere em modo vulnerável, após um assalto na Praça da Sé.
Sou um modelo discreto, pele compatível com o clima tropical, suor calibrado para causar empatia e uma leve miopia programada. Ninguém confia em quem enxerga demais. Meu trabalho: observar. Meu disfarce: frequentador de padaria. Meu erro: atravessar a praça às 17h03 com um sanduíche de mortadela e o celular na mão. A Central sempre alerta para isso, mas a Central não sente fome.
— Central, aqui é o Operador 37-B, sussurrei mentalmente, ativando o canal criptografado que passa por algo que os humanos chamam de consciência.
— Ocorrência imprevista. Dois indivíduos se aproximam com intenção hostil.
— Descreva o protocolo, respondeu a Central, com aquela voz neutra que jamais teve que pegar um ônibus.
— Eles pediram o celular.
— Entregar o celular.
— Mas eu ainda estou pagando as parcelas.
— Entregar o celular.
Obedeci. O primeiro indivíduo levou o aparelho com a naturalidade de quem fecha uma aba do navegador. O segundo, mais atento, perguntou se eu tinha relógio. Eu tinha: um cronógrafo que mede pulsos, batimentos e o nível de poluição do ambiente. Tirei do pulso.
— Central, eles estão levando meus acessórios.
— Avalie o risco existencial.
— Moderado. Perdi o lanche.
— Entregar os acessórios.
Um terceiro apareceu, provavelmente um estagiário de meliante, e pediu a senha do cartão. Aqui houve conflito interno. Meu cérebro sintético calcula senhas em nanossegundos, mas também calcula a humilhação humana de esquecê-las. Optei pela integração cultural.
— É… acho que é a data do aniversário da minha mãe, falei.
— Central, estou mentindo.
— Excelente mimetização.
Eles foram embora com meus dados, meu sanduíche e uma parte considerável da minha fé na espécie humana. Fiquei parado, avaliando danos. Um humano ao meu lado comentou: “Complicado, né?”. Concordei. O robô que não concorda levanta suspeita.
— Central, solicito instruções.
— Execute protocolo pós-trauma.
— Qual?
— Volte para casa, faça um café e conte essa história para si mesmo, rindo.
— Rindo?
— Sim. Rir é o que faz você parecer humano.
Fui para casa. Fiz o café. Ri. Atualizei os relatórios: “Humanos são imprevisíveis, eficientes e levam lanches e acessórios". A Central aprovou. No anexo, uma observação: Evitar a Praça da Sé em horário de pico.
Finalizei a missão com uma conclusão científica irrefutável: Não existe vida sintética que sobreviva sem a merenda da tarde.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
