Manual Performático ao Fundo do Poço

Como os bolsominions estão diminuindo ultimamente, não devemos contar vitórias, mas sim nos infiltrar. Então, passei a buscar uma forma de não ir direto ao ponto de confronto com o gado ou a matilha de cães raivosos

(Foto: Divulgação (PR) / Reprodução)
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Antes de votar na eleição presidencial do dia 28 de Outubro de 2018 passei na casa do meu pai e quando pronunciei o meu candidato ele disse: “Cala a Boca Comunista!”. Enrijecido em posição militar, ou de menino birrento, ficou murmurando algumas palavras e pensamentos obscuros. O amigo que me acompanhava riu e falou: “Deixa teu pai quieto!”. Minha mãe logo interveio e disse que cada um votaria conforme achasse melhor e que ela votaria nas universidades públicas e não gostaria de ver um errante no poder. Estava claro que a minha mãe votaria no professor depois de ter votado em Ciro Gomes no Primeiro Turno. Então fomos tomar café e mais uma vez falei coisas e o meu pai retrucou: “o comunismo quer dominar o mundo!”. Depois ele riu e caímos no grotesco. O meu pai trazia o “lenga lenga” sem pé e nem cabeça que dominava o cenário e a narrativa naquele momento.  Fiz uma longa digressão sobre as conquistas dos anos de governos progressistas, assim como de alguns equívocos, senão vários equívocos. O meu pai ficou em silêncio balançando a cabeça e mastigando o pão sobejamente, enquanto eu falava em tom moderado e conciliador. Quando ele fica nervoso na hora das refeições não para de mastigar, sinal de que está ruminando alguma coisa em seus pensamentos e foi quando eu decidi trazer memórias desagradáveis: - O senhor lembra na década de 90 quando os quartéis do exército eram uma vergonha! Viaturas da década de 60, uniformes velhos e o senhor na CCS (Companhia de Comandos e Serviços) do EB tendo que contabilizar as entradas e saídas de cada peça das fardas velhas, coturnos, capacetes rachados, cantis amassados?  - Ele concordou.

O meu pai entrou na década de 60 no exército brasileiro e naquele momento foi a salvação dele. Muito pobre encontrou nas forças armadas a sobrevivência ante o seu contexto familiar vulnerável. Durante a carreira militar sempre se dedicou às tarefas da caserna e ao exercício físico de forma inquestionável, sendo um exímio fisiculturista. No final dos anos 80, entretanto, as coisas estavam em crise. Vi muitas vezes minha mãe dizendo que o meu pai estava triste porque as forças armadas não eram mais a mesma coisa. Racionamentos, contingenciamentos, salários em déficit para as patentes mais baixas e nervos à flor da pele no batalhão. 

Ao se aposentar em 1993, vi meu pai chorar muito na cozinha de casa, dizendo que estava saindo na hora certa. Não aguentava ver soldados indo embora para casa porque havia alguma inoperância no Batalhão, ou seja, a ração militar estava em falta, e, portanto, o soldado não estava podendo cumprir a missão, sendo liberado depois do expediente matinal. Assim, quando eu trouxe as memórias ainda acrescentei uma sementinha que embaraça muitos militares: 

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- O senhor lembra o que foi realizado nos governos progressistas nos Batalhões? Como as Forças Armadas foram revitalizadas em relação ao que viveram com  FHC ? - Querem fazer a gente comunista! Vermelho não! – Falou sem querer acessar minha pergunta. Eles são mestres em desviar as coisas de forma torta e sair do debate. Na verdade, não conseguem ir ao debate ou denegam a discussão.

Diante disso, o meu amigo deu uma gargalhada rindo para não chorar. Não tinha jeito. Virar um voto de um militar aposentado é quase impossível. Fomos embora e nunca deixei de amar o meu pai por isso.  Ao visitá-lo depois das eleições, buscava sempre não tocar no assunto, pois ele não gostava de acirramento. Argumentos frágeis e nervos também. 

Estava claro que gente como meu pai repetia o que outros militares disseram para ele fazer. Hoje, arrependido, decepcionado com o desgoverno, diz que o capitão nunca foi um bom exemplo nem para a tropa no tempo que prestou serviço na caserna nem tampouco para os cidadãos brasileiros. O meu pai reproduz o discurso que está lendo em suas redes sociais de amigos e colegas de farda verde oliva. No fundo, muitos militares estão envergonhados com o que escutam e assistem. 

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Não faço parte das pessoas que pararam de se relacionar com familiares e amigos que optarem por um modo de governabilidade extrativista e com muitos “istas”. Eu me esforço para não tornar familiares, colegas e amigos, em meus inimigos. Trata-se de um esforço dramático e performático.  Precisamos sempre criar formas para não mandar todos eles às favas, por isso comecei a ter algumas iniciativas para não endoidar, pois ir para uma guerra vociferando palavras desagradáveis com o gado é dar mais caos ao caos de que eles tanto se alimentam.

 É sempre bom ter um bolsominion por perto, pois somente conseguiremos vencê-los aceitando-os como uma espécie predatória que realmente existe. Para isso, precisamos de uma sabedoria estoica. Por exemplo, um dos meus barbeiros faz parte desta espécie predatória, me chamando de comunista, homem vermelho, e que precisa se converter a Deus e ao bom senso. Quando confrontado fica em silêncio ou nervoso (Geralmente faço isso depois do serviço realizado já que fico com o meu rosto exposto à lâmina dele por alguns minutos). Quando chego lá é uma festa, ao sair uma ladainha.  Ao se aproximarem de pessoas conhecidas no salão, o barbeiro costuma ficar valente e falar alto. 

Os bolsominions são medrosos quando estão sozinhos e se tornam valentões quando estão em bandos ou defronte a uma câmera em redes sociais. Como estão diminuindo ultimamente, não devemos contar vitórias, mas sim nos infiltrar. Então, passei a buscar uma forma de não ir direto ao ponto de confronto com o gado ou a matilha de cães raivosos. O meu barbeiro me ensinou que não podemos bater de frente. Um estudo epidemiológico para esta espécie de danação revela um misto de gado fundamentalista evangélico, guarnição de militares com bílis inflamadas e gente absorta em seus próprios pensamentos terraplanistas. Ainda, outras espécies se configuram, me custa aqui cartografar.  Estamos num fundo do poço que a cada dia o seu chão cede mais. Logo, decidi fazer um esboço de um Manual Dramático para uma performance cotidiana ao fundo do Poço. Expus alguns passos diante de algumas vivências. Segue:

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1-Quando estiver numa fila de banco, padaria, supermercado, ônibus, uber, etc, trate de dizer que as coisas não estão como você achava que deveriam estar. Reclame do preço do pão, transporte coletivo, combustível, leite, gás de cozinha, feijão, arroz, luz, água, carne, frango, escola e do peru de natal. Com certeza muitas pessoas vão se identificar com o que você está dizendo. Tal narrativa vai tocar no coração de alguma pessoa e, se alguém quiser falar escute. Não diga que é contra o governo. Não se antecipe. Deixe a pessoa trazer o seu ponto de vista. É fato concreto tudo isso. Estás apenas fazendo uma leitura fenomenológica da realidade. A sua consciência descreve o que vê e você vai redigindo o que sente. 2- Tenha uma atenção flutuante diante da fala da pessoa, ou seja, nalgum momento que a pessoa reclamar ou parar de reclamar apareça com um discurso mostrando que antigamente o poder aquisitivo era maior e melhor. Peça a ela para fazer comparações e nunca diga que a vida dessa pessoa anteriormente era melhor. Deixe-a chegar a alguma conclusão, até porque para muitos o sofrimento de agora é uma provação, já que a vida anterior em abundância era inundada de pecado e, por isso, Deus está castigando todos agora - vide a pandemia. Um crente me disse numa padaria que Deus estava sacudindo o Brasil por causa dos pecados e que os mortos eram sacrificados e tínhamos que resistir sofrendo.  3 – As pessoas são ressentidas e precisam escutar de outra pessoa o seu próprio martírio e sofrimento. Culpa e arrependimento é o nectar da nossa sociedade alimentada por pastores, padres, escolas, televisões e políticos de todas as vias. Diante disso, nesse estágio você vai entrar no campo da representação. Agora você será medido pela sua performance e capacidade de improvisar. A sua atuação invoca você dizer: “votei nesse governo daí, mas estou profundamente arrependido!”.  Pois é, dizer isso vai te colocar num lugar risível fazendo o seu papel ir ao fundo do poço. O que virá a partir disso pode ser (a) alguém responder que também votou e se arrepende por isso; (b) alguém que não votou vai lhe dizer que foi por causa de voto como o seu é que estamos onde estamos; (c) alguém pode falar que votou no 17 e não se arrepende do voto que deu, ou, (d) indiferença completa quanto a sua indagação. 4- As proposições a, b c e d podem advir de maneira a qual você se sinta desafiado. Não importa. A virada é segurar o apelo dramático. Não desistir ante o insuportável. Exercício empático e aceitação incondicional a situação do outro enquanto discurso. Um artista não deve temer a vaia ou o ridículo. Não se entusiasme de forma colérica ou histriônica. A medida da sua ação como “performer” é estruturar um lugar de fala que o outro compartilhe afetos e se sinta confortável contigo, sofrendo junto com você, alimentando a tua indignação e comiseração. 5- Alguns disparadores na construção da sua deambulação persona dramática fazem-se necessários.  Podes ser um crente que se sentiu enganado pelo pastor da igreja. Um lutador de Jiu Jitsu machucado com os colegas homofóbicos da academia. Motorista de caminhão sem caminhão que acreditou no sindicato agropecuarista. Diarista que acreditou no discurso da madame escravocrata. Professora que se iludiu com a educação meritocrática da escola ou representante de uma empresa de telefonia que se sentiu pressionada com as reformas nas relações de trabalho.

Consideramos que as atividades acima somente podem acontecer de forma sutil. Por exemplo: Peguei um Uber. O som alto de louvor presente no rádio do carro logo me deu pistas. Virei evangélico rapidamente. Pedi ao irmão motorista para baixar o volume depois que elogiei a voz da cantora.  O homem de meia idade foi sensível. Perguntou onde eu congregava. Falei que me sentia uma ovelha ferida de uma Igreja neopentecostal do bairro. Ele disse que o filho de Deus não pode desistir do bom combate. Respondi que na guerra que eu estava havia muita confusão. O motorista falou que o Diabo se traveste de bem e depois ataca as suas ovelhas. Eu disse que ele falava a verdade. Logo pediu para eu orar com ele. Oramos. Depois falei que me sentia enganado pelo pastor da igreja. O uber disse que não devíamos seguir o pastor mas a palavra de Deus. Então, compartilhei meu sentimento de tristeza em ver os irmãos crentes seguindo a palavra dos pastores que cultuam muito mais o messias de Brasília do que o messias das revelações sagradas. O motorista respondeu que tudo era pela família. Eu disse que o messias de Brasília troca muito de família. Ele se calou. Acrescentou que tudo passa. Falei que o atleta só pode lutar o bom combate quando encontra a verdade. Ele perguntou qual era a verdade. Eu disse que sentia a verdade em mim, mas tinha certeza que não era a verdade do messias de Brasília. Ele enfim respondeu que a culpa era dos filhos do messias que atrapalhavam muito o governo. Respondi que quando tudo anda errado toda plantação não presta.  O carro parou. Cheguei em casa. Paguei o uber. Dei a benção ao irmão. Ele me entregou um panfleto. Eu disse que abrisse o olho.  

Talvez o nosso maior desafio seja nos transformarmos um pouco nesse outro. Decerto não houve nenhuma transformação no uber, mas alguma coisa fica quando ele encontrou um irmão cuja fala lhe tira de uma dimensão confortável.  As tarefas a, b, c e d parecem que foram cumpridas, mas não tenho como avaliar as consequências. Se a questão era conseguir um diálogo harmonioso discutindo política com um bolsominion isso já foi de bom tamanho. Aprofundar o Manual seria trazer para a performance o diálogo socrático fazendo o outro entender a sua grandiosíssima ignorância frente ao que cada eleitor do mico acha que sabe. Por isso, conhecerás o fundo do poço por algum tempo.  Enfim, O Manual Performático é um Roteiro Aberto devendo ser constantemente reinventado.

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