Maracanã: onde vida e morte dividirão o mesmo espaço

Neste hall de bizarrices diárias, a que mais chama atenção nestes dias é a volta do futebol no Rio de Janeiro. Há tempos a Federação de Futebol do Estado (FFERJ) tem pressionado pelo retorno do possante Campeonato Carioca

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Olá, companheiros e companheiras. Tudo bem? É impressionante como, a cada dia, as notícias sobre a pandemia do novo coronavírus pioram. Parece inacreditável, mas no Brasil não há um dia de paz. Ou mesmo aquele momento que você consegue olhar para o horizonte e enxergar algum futuro que não seja completamente tenebroso. 

Neste hall de bizarrices diárias, a que mais chama atenção nestes dias é a volta do futebol no Rio de Janeiro. Há tempos a Federação de Futebol do Estado (FFERJ) tem pressionado pelo retorno do possante Campeonato Carioca. Alguns clubes, como o Flamengo, endossaram o desejo da retomada do estadual, com alguns representantes visitando o presidente Jair Bolsonaro, que em diversas declarações se colocou favorável ao retorno do futebol. 

Depois de muitas idas e vindas, a prefeitura do Rio de Janeiro liberou os eventos esportivos, desde que seja com portões fechados. Na tarde desta terça-feira (16), quando escrevo este texto, falta apenas a liberação do governo do Estado para que seja anunciada a tabela de jogos. A previsão, com a liberação, é que já tenhamos partidas a partir de quinta-feira (18). 

É completamente surreal o retorno do futebol neste momento. Não faz o menor sentido retomar o esporte, mesmo com todos os cuidados, quando as vítimas por covid-19 só aumentam. O Rio de Janeiro é o segundo estado com mais casos confirmados da doença, 80.946. Já morreram 7.728 pessoas. A taxa de letalidade do estado é a maior do país. 

O futebol não pode ser tratado como uma “ilha”, onde não reflete o que está acontecendo ao redor do país. O retorno do futebol é uma falta de respeito às vítimas da doença. Mais um desrespeito e falta de consideração do Poder Público com as famílias que estão de luto. 

E o mais triste e desumano é saber que o Maracanã, um dos maiores símbolos do país, que completou 70 anos nos últimos dias, vai ser palco de vida e de morte. Ao mesmo tempo que jogadores e narradores vibrarão com os gols, dentro do estádio, famílias chorarão no hospital de campanha que está instalado no estádio. 

Vocês conseguem ter noção que ao mesmo tempo que uma partida de futebol será realizada, pessoas estarão morrendo a poucos metros de distância? Se você não consegue se sensibilizar com isso, me desculpa. Mas, seu lado humano já não existe mais. 

Além da falta de empatia e respeito, o retorno do futebol não vai trazer ganhos econômicos. Pelo contrário. Com os estádios vazios, não haverá receita de bilheteria. O sócio-torcedor dos grandes clubes já diminuiu, diante da crise e da falta de jogos. Para os pequenos, sem torcida no estádio, haverá mais prejuízo, por conta dos gastos operacionais do jogo, taxa de arbitragem e taxa paga à Federação, por exemplo. Sem contar que precisarão pagar mais meses de folha salarial, com o retorno da competição. 

A conta não fecha. Nem o lado econômico – tão valorizado por aqueles que defendem flexibilização da quarentena e do isolamento social – vai ser beneficiado. Confesso que, se o retorno for aprovado, não verei os jogos que serão transmitidos. Não serei cumplice de ver o maior estádio do mundo, o maior símbolo do futebol deste país, ser usado de maneira vil pelos cartolas. O Maracanã dos sonhos, se transformará na maior catarse brasileira desta pandemia. 

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