Maradona: O Frágil Deus do Sul Global

'A divindade do futebol jogou uma partida incessante no campo global, uma vida louca de altos estonteantes e baixos demoníacos, sempre sob olhar do público'. Por Pepe Escobar sobre Diego Armando Maradona

Maradona
Maradona (Foto: Divulgação)
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Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Sua vida foi uma incessante ópera pop em escala planetária, que já entrou para a história. Da Somália a Bangladesh, todos conhecem bem os contornos básicos de sua trajetória - o pibe da Villa Fiorito, subúrbio pobre de Buenos Aires ("Eu sou um morador de favela"), que elevou o futebol à condição de pura arte.

Ser o rei do campo é uma coisa. Jogar no campo global uma partida sem fim é outra completamente diferente. As multidões, instintivamente, captavam o que ele significava - como se ele estivesse sempre emitindo um zumbido mágico em uma frequência muito alta, para além do Império dos Sentidos. 

Os italianos, que sabem umas coisas sobre o gênio estético, o comparariam a Caravaggio: uma louca deidade pagã, humana - por demais humana - habitando luzes e sombras, atingindo, vez após vez, abismos inauditos, já que sua vida praticamente inteira foi jogada em público: o balé estonteante da explosão de demônios internos, escândalos familiares, divórcios, rios de álcool, doping, dribles nos fiscais de imposto de renda, Himalaias de pó colombiano, incontáveis augúrios de morte em meio a uma alegria perpétua.

Ele personificava o incessante cruzamento das alturas olímpicas e das quedas abissais: um festival ambulante de dribles e contradições, para além do bem e do mal. Citando lateralmente T. S. Elliot, ele era como um rio, "um deus forte e escuro - rabugento, indomado e intratável". 

O grande Eduardo Galeano, hoje falecido, o retratou como uma divindade pagã, igualzinho a todos nós: "arrogante, mulherengo, fraco... Nós todos somos assim!" El Pibe foi o deus sujo supremo - "pecador, irresponsável, presunçoso, bêbado". Ele "jamais poderia retornar à multidão anônima de onde ele veio".

Ele pode ter mesmerizado o mundo com a camisa azul celeste da Argentina, mas é possível afirmar que sua obra-prima foi encenada em tempo real no Napoli FC - clube que representa a quintessência da classe trabalhadora italiana. Ele, mais uma vez, instintivamente se alinhou com os joão-niguéns, com os desprezados, com o banquete dos mendigos e, como um Davi inato, matou os Golias do Norte - Juventus, Milan, Inter.

Ele nunca deixou de ver a si mesmo como um garoto do barrio. E isso forjou sua política - seu instinto sempre apontando para a justiça. Ele sempre se colocou no lado progressista da história - uma tatuagem do Che no braço direito, outra de Fidel na perna esquerda.

O comandante Fidel sempre foi um pai substituto para ele. (Um outro sinal dos céus: os dois morreram na mesma data, com uma diferença de quatro anos). Ele abraçou Hugo Chávez, Evo Morales e Lula. E via a si mesmo como "um palestino". Anti-imperialista, do começo ao fim.

Por justiça poética, a Mão de Deus tinha que vir entrelaçada, na mesma partida, com o gol mais espetacular da história. "De que planeta você é?" gritou o lendário locutor uruguaio de uma rádio argentina. O próprio Deus sujo mais tarde reconheceu que aquele foi um duplo contra-ataque contra os britânicos, em vingança pelas Ilhas Malvinas.
Em "10,6 segundos", passado naquele fatídico 22 de junho de 1986, no Estádio Azteca do México, o escritor argentino Hernan Casciari se lançou a nada menos que uma estarrecedora atualização de "O Alef", daquele Buda de terno cinza, Jorge Luis Borges. A lenda é gravada em pedra - para ecoar pela eternidade:

"O jogador sabia que havia dado quarenta e quatro passos e feito doze toques de bola, todos com o pé esquerdo. Ele sabe que a jogada irá durar 10,6 segundos. Ele, então, pensa que é hora de dizer ao mundo todo quem ele é, quem ele foi e quem ele será até o fim dos tempos".

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