Maradona vai continuar atormentando os alienados

"Maradona era uma figura estranha para empresários e cartolas", diz colunista Moisés Mendes. "Não havia como assimilar sua condição de militante de esquerda em redutos de conformismo, resignação e imbecilização", acrescenta. O ex-jogador, diz ele, era um admirador de "Che Guevara, de Fidel e das revoluções"

www.brasil247.com - Diego Maradona
Diego Maradona (Foto: Divulgação)


O futebol é o reduto da alienação, não só pela manipulação exercida pelas federações e corporações, por patrocinadores e pelas mídias que desejam tudo certinho e encaixotado, sem chances para transgressões.

O futebol é alienado também pela incapacidade de discernimento da maioria dos seus personagens. Alienam e alienam-se no futebol porque a alienação mantém todos sob controle.

Sempre foi assim, com as exceções citadas à exaustão. O Brasil pode ser apenas o país em que a alienação é mais acintosa, pelo protagonismo no futebol mundial, pelas estrelas que produz e por ser o país de Pelé.

Aqui e em qualquer parte, Maradona era uma figura estranha para empresários, cartolas, técnicos, narradores, comentaristas, jogadores e figurantes do futebol brasileiro e internacional.

Não havia como assimilar sua condição de militante de esquerda em redutos de conformismo, resignação e imbecilização.

Diego Maradona era um transtorno não só para o futebol. O vôlei masculino brasileiro, apenas para citar outro exemplo, sempre teve uma seleção vitoriosa dentro de uma cápsula.

O vôlei conquistou campeonatos mundiais, foi modelo de dedicação e disciplina, mas foi mesmo uma seleção sem glamour, sem engajamento a nada, sem alma. O time de vôlei do Brasil era o time do quartel.

A alienação é generalizada, com graduações, em todos os esportes. O vôlei de praia pode ter uma Carol Solberg. Mas o futebol nunca terá nem mesmo uma imitação de Lewis Hamilton.

O Brasil é a terra onde vicejam as neutralidades, para que todos se submetam ao poder das instituições e das marcas. Tudo pelo ganho silencioso e obsequioso dos subjugados, bem pagos para que desfrutem do conforto da omissão e da indiferença.

Jogadores brasileiros negros, em todos os esportes (incluindo o vôlei), são figuras sem vontades além das estritamente ditas profissionais.

Milionários, famosos, admirados, mas incapazes de ter uma posição básica sobre o que acham do mundo das periferias de onde vieram e do mundo branco que gira em torno deles, porque têm certeza de que são o centro de todas as coisas.

O futebol só aceita a politização pela omissão ou pela bajulação declarada do poder, como fazem os atletas e técnicos bajuladores de Bolsonaro. Despolitizar o futebol é politizá-lo pela imposição de comandos reacionários e silenciadores.

Maradona, que assumia posições práticas e consequentes (era a favor da tributação das grandes fortunas na Argentina), nunca foi compreendido nesse ambiente amorfo em que brilhou como gênio incômodo.

Logo depois da sua morte, O Globo chamou na capa da versão online um texto pretensamente “analítico”, com uma dúvida que considerava provocativa.

A dúvida do Globo, expressa no título do artigo, era essa: Maradona usou ou foi usado pela política? Para o jornal, Maradona pode ter sido, como são os jogadores brasileiros, tutelados por alguém. Mas ele teria sido gerido pelas esquerdas.

Maradona, para o Globo, talvez tenha sido incapaz de decidir sozinho se deveria fazer política. É uma dúvida desrespeitosa com o cara que talvez tenha sido o mais politizado dos atletas desde o final do século 20.

O Globo não faria a pergunta se o morto fosse um escritor argentino, um cientista, um músico. Jamais lançaria a dúvida se o personagem fosse o ator Ricardo Darín.

A figura a ser exposta à dúvida é Maradona, um esquerdista que se drogava, admirador de Che Guevara, de Fidel e das revoluções, um sujeito convicto dos ícones que deveria tatuar para sempre no próprio corpo.

A direita, em todas as áreas, vai se esforçar a partir de agora para tentar depreciar não o Maradona morto, mas o Maradona que não morrerá nunca mais.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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