Marca do atraso

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Esplanada dos Ministérios (Foto: Agência Brasil)


Num filme de 1958, com Janet Leigh, Charlton Heston e o próprio diretor Orson Welles, um casal passando a lua de mel numa cidade entre o México e os Estados Unidos, cai nas armadilhas de um tira corrupto, na perseguição de um assassino local. A obra se chama Touch of evil, retratando bem a “marca da maldade” (título em português) que movimenta o xerife norte-americano. Ele não se guia pela inteligência e sim por intuições. Não se convence que emprega uma prática escorregadia, capaz das maiores injustiças. 

Pois no Brasil, depois de uma sucessão de acidentes desde a queda de Dilma Rousseff, passamos a integrar uma realidade na qual a razão deixou, igualmente, de orientar os dirigentes, que agem ao Deus dará de suas manias e preconceitos. O resultado é o que temos assistido, com estupor, desde o início da epidemia da Covid-19, reincidindo com seu novo surto, aparentemente ligado à variante Ômicron. Já se viu que a vacina constitui o obstáculo à expansão da enfermidade. No entanto, como no início do processo, o Presidente Bolsonaro se coloca contra a medida, aprovada pela Anvisa, em favor do uso do inoculante nas crianças brasileiras. Já o imaginamos esperneando, dando socos na mesa, e deblaterando agora contra o almirante Barra Torres, Diretor-Presidente da agência que não encontrou embaraços na aprovação da medida, utilizada e aceita pela comunidade internacional. Pelo visto, necessitamos de nova CPI, com maiores poderes de decisão e de investigação que a primeira.

Se não é a marca da maldade que o toca, deve ser algo de semelhante, uma “intuição”, como no policial norte-americano, porque, do ponto de vista da irracionalidade, não há como dizer diferentemente, chega às raias de uma predisposição maligna. No hábito de fuzilar pela retórica, não poupa ninguém, nem assessores nomeados pela sua pena. Só que, no caso, trata-se de um vírus, um pequeno ser que levou à morte milhares de pessoas no Brasil e no mundo. Não é brincadeira. Estudiosos de todas as nacionalidades se debruçam sobre suas bancadas, ansiosos por encontrar fórmulas de nos proteger. Sem isso, não retornaremos às antigas atmosferas de contato pessoal e alegria que nos caracterizavam nos períodos que antecederam à praga.

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A esta altura, cabe uma reflexão em torno da ideia de progresso e de atraso. O “país do futuro”, assim designado por Stefan Zweig, quando entre nós, habituou-se a se perceber com avanços, no sentido de reverter heranças coloniais e atravessar as barreiras do sucesso. Ora, uma administração pública deve confiar em si mesma e não se esquecer de pensar. Pensar, pensar e pensar, a cada instante, será talvez a principal mola para a solução dos problemas. Em vez disso, temos, à testa do governo, alguém que não pensa. Exterioriza impulsos. Um monte de ímpetos não representa um bom remédio para nos tirar do desastre: na economia, no ensino, na saúde. Às vezes, a crise, mais do que ninguém, encontra as saídas. Esperemos que sim. Pensar, pensar e pensar, para escolher nossos dirigentes, é o que nos compete no pleito que se avizinha. Nem precisamos citar nomes. 

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