Marcha assumidamente golpista ganha divulgação na TV Cultura

Aconteça o que acontecer nessas marchas golpistas – sobretudo em São Paulo, onde pode haver confronto – prometidas para 200 cidades, a TV Cultura poderá ser considerada uma das responsáveis

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Os desmandos e a ingerência política dos governos do Estado de São Paulo na TV Cultura ao longo dos vinte anos – a se completarem em 1º de janeiro de 2015 – durante os quais o PSDB governa São Paulo são bastante conhecidos e só não geram inquérito a partir do Ministério Público estadual por conta do aparelhamento desse órgão por esse grupo político.

Um dos maiores escândalos na utilização política dessa tevê pública foi a concessão ao Grupo Folha de São Paulo do horário mais nobre da tevê brasileira, as noites de domingo.

O escândalo reside no posicionamento político da Folha, sabidamente de oposição ao governo federal.

Essa postura política da Folha em relação aos adversários dos controladores da TV Cultura deveria ser impeditiva à entrega ao jornal de espaço na emissora, pois uma tevê pública tem que se pautar muito mais pela isenção política do que as tevês privadas, ainda que a estas caiba a mesma imposição.

No último domingo, porém, a TV Cultura extrapolou no uso político que faz de sua programação.

O programa “TV Folha”, concedido pelo governo Geraldo Alckmin à família Frias, deu um jeitinho de fazer propaganda de um protesto contra o governo Dilma Rousseff que está sendo prometido por um grupo de extrema-direita para o próximo sábado em São Paulo e em outras 200 cidades.

Para quem não sabe, uma explicação: um bando de socialites e empresários de classe média alta organizou uma segunda edição da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, que, em sua primeira edição, ocorreu em março de 1964, há 50 anos, e foi usada como pretexto pelos militares para implantarem uma ditadura sangrenta que durou 21 anos.

Esse grupo de fanáticos prega abertamente uma “intervenção militar constitucional” – os integrantes do grupo inventaram o golpe de Estado “constitucional”, um contrassenso desde a denominação –, que deporia Dilma Rousseff à força.

Esse “movimento”, que envolve militares da reserva e até da ativa, chama o golpe de Estado que quer dar de “constitucional” com base no Art. 142 da Constituição de 1988, que versa sobre direitos e deveres dos militares e que define o papel das Forças Armadas.

O texto constitucional diz apenas que as Forças Armadas são “Constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica”, que são “Instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina” e submete os militares à “Autoridade suprema do Presidente da República”, restringindo a atuação deles “À defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”.

Ou seja, o artigo constitucional que os golpistas invocam não dá licença aos militares para praticar “intervenção” alguma, golpe de Estado nenhum. Pelo contrário, prega que cabe a eles evitar golpes, caso algum golpista queira depor “Os poderes constitucionais”.

O baixíssimo nível intelectual dos golpistas os fez enxergarem uma “permissão” para que militares deem golpe no que, em verdade, é um veto a golpes de Estado, claramente determinado pelo artigo 142 da Constituição.

Veja só, leitor, o que é a burrice.

Mas a questão não é a estupidez e o caráter criminoso dos organizadores dessa “marcha da família”, ou seja, dessa “marcha” de famílias ricas e golpistas e militares de pijama.  A questão é que a pretensamente esperta Folha de São Paulo deu um jeitinho de divulgar essa cretinice –ilegal do começo ao fim – disfarçando a matéria com uma capa de ironia quase imperceptível.

A reportagem não chegou efetivamente a ironizar uma iniciativa que, acima do ilegal golpismo, é de causar vergonha alheia a qualquer pessoa minimamente sensata. A matéria mostra apenas respostas dos organizadores da marcha. A maior ironia que o programa fez foi colocar uma legenda sobre algumas das frases mais malucas dos organizadores: “Como assim?”.

Com a divulgação na tevê, muitos outros cretinos que nem sabiam dessa cretinice poderão aderir, pois as besteiras ditas pelos organizadores da marcha golpista ao “TV Folha” são ditas de forma séria por pessoas relativamente bem articuladas, ainda que uma delas tenha proferido a ridícula frase de que se considera “85%” politizada…

Pausa para rir.

Como gente desse naipe não tem senso de ridículo, parte da audiência do programa da TV Cultura, baseada no que assistiu, fará propaganda da tal marcha. E isso ocorrerá por toda parte, pois a programação da emissora pública paulista é transmitida para tevês educativas do Brasil inteiro.

Para a oposicionista Folha, pouco importa quem são ou a sandice que pregam esses imbecis dessa marcha ilegal – em nenhum país democrático é legal pregar golpes de Estado. O que importa é pôr gente na rua protestando contra Dilma Rousseff e o PT, para dar a impressão aos incautos de que a sociedade repudia a presidente e seu partido.

A reportagem da “TV Folha” até caberia após a marcha, de forma a captar um fato jornalístico; fazê-la com uma semana de antecedência e jogá-la na tevê, porém, serve para divulgar a manifestação e confere importância a ela.

Aliás, vale relatar que um movimento de anarquistas prometeu fazer uma “marcha antifascista” em São Paulo no mesmo dia e hora da marcha golpista e em local próximo, mas essa segunda manifestação – que pode transformar o centro da capital paulista numa praça de guerra, pois os dois grupos vêm trocando ameaças na internet – não apareceu no “TV Folha”.

Aconteça o que acontecer nessas marchas golpistas – sobretudo em São Paulo, onde pode haver confronto – prometidas para 200 cidades, a TV Cultura poderá ser considerada uma das responsáveis, já que deu publicidade a uma iniciativa inconstitucional e ilegal do começo ao fim. Mas que autoridade fará cumprir a lei e responsabilizará a emissora?

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