Marielle e Lula são os principais nomes da esquerda no Brasil

Lula e Marielle ultrapassam as limitações do cerceamento da liberdade e do luto, mobilizando multidões e incomodando as forças políticas de oposição

Marielle e Lula são os principais nomes da esquerda no Brasil
Marielle e Lula são os principais nomes da esquerda no Brasil (Foto: Esq.: Divulgação / Dir.: Rafael Ribeiro)

Antes de ser preso, em abril de 2018, o ex-presidente Lula tornou célebre a frase: “Eu não sou mais um ser humano, eu sou uma ideia misturada com as ideias de vocês”. Ideias não podem ser presas, disse implicitamente o líder petista. Marielle Franco, brutalmente executada em março do ano passado, é uma ideia que tem se espalhado pelo mundo, como símbolo da resistência política e da luta por direitos sociais e humanos. Ambos encarnam, de diferentes modos e à sua maneira, focos de oposição à escalada ultraconservadora no país.
 
Embora não possa nem deva se desvencilhar da vida concreta, a política é permeada, de uma ponta a outra, pela força das ideias. A política é o campo da ação, do discurso e das ideias. E é devido a uma crise de ideias que assistimos hoje ao colapso da vida social e cultural no país. No contexto em que se encontra o campo progressista no cenário político internacional, os dois principais nomes da esquerda no Brasil são também ideias. Lula e Marielle ultrapassam as limitações do cerceamento da liberdade e do luto, mobilizando multidões e incomodando as forças políticas de oposição.
 
E não me parece fortuito que esses personagens sejam símbolos dos anseios por justiça social numa sociedade com veias abertas e visões de mundo irreconciliáveis. Em tempos de cólera e retrocessos de direitos sociais, uma mulher negra, lésbica, vinda da Maré tornou-se um monumento à resistência e à luta por direitos. As investigações até agora indicam que seu assassinato foi pensado e executado por uma das milícias cariocas para silenciar a sua atuação política. Numa razão inversamente proporcional à atrocidade com que foi assassinada, porém, a voz de Marielle Franco nunca ecoou tanto nos quatro cantos do mundo.
 
Preso há quase um ano, o ex-presidente Lula ainda não pôde falar à imprensa ou dar entrevistas. Sua força política, no entanto, parece intacta. Uma prova disso é que, mesmo encarcerado, Lula foi capaz de transferir parte expressiva de seu capital político para Fernando Haddad, que obteve quase 48 milhões de votos no segundo turno das eleições presidenciais. O torneiro mecânico retirante ainda é a maior liderança política de nossa história.
 
Trata-se, no entanto, de perceber isso ao mesmo tempo como um alerta e um desafio. A esquerda passa por um momento de acentuada fragmentação e ressignificação de suas pautas ao redor do mundo, à qual o Brasil não está imune. E, embora não seja saudável esperar por heróis políticos – sob o risco de ratificarmos demagogias pretensamente progressistas –, é preciso fazer emergir lideranças capazes de agir como referenciais simbólicos e práticos na esquerda brasileira.

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