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Urariano Mota

Autor de “Soledad no Recife”, recriação dos últimos dias de Soledad Barrett, mulher do Cabo Anselmo, entregue pelo traidor à ditadura. Escreveu ainda “O filho renegado de Deus”, Prêmio Guavira de Literatura 2014, e “A mais longa duração da juventude”, romance da geração rebelde do Brasil

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Memória coletiva e romance da ditadura brasileira

Memória coletiva, amizade e resistência atravessam o romance de Urariano Mota, nas leituras de Celso Marconi e Memélia Moreira e ecos no Recife

Memória coletiva e romance da ditadura brasileira (Foto: Divulgação )

A memória da gente é memória coletiva. Tanto no que nos forma desde a infância, quanto na idade madura, quando a memória individual se forma com a memória dos amigos, como se fosse um só universo de nossas vidas.

Assim foi nesta semana, quando li um comentário no Facebook do professor Francisco Ilo sobre "A mais longa duração da juventude". Copio um trecho:

“Neste livro eu vi e revi um período do Movimento Estudantil e outras atividades políticas no Recife. Reuni amigos na esquina da ponte Duarte Coelho, ou na frente do cinema São Luiz. E lá, em “A mais longa duração da JUVENTUDE “, estão para mim identificados na minha mente: Mário Sapo, Givaldo (o livreiro) e Marco Albertim, este, confirmado por Urariano Mota. E como o livro tem tradução para a língua inglesa, já é roteiro para filme (assim, falou Celso Marconi). Bora moer, ver esses personagens na tela grande?”

Então, a partir dessa boa lembrança, que estava perdida em mim, fui buscar o que o maior crítico de cinema da nossa geração escreveu sobre o romance. Eu tenho uma gratidão imensa, Celso Marconi, por estas suas palavras:

“O romance da ditadura brasileira

Terminei minha tarefa de carnaval agora às 23 horas da segunda-feira e estou encantado. Li todo, li as 318 páginas do livro de Urariano Mota, “A mais longa duração da juventude”. A primeira coisa que quero dizer é que Abdias Moura tem que ampliar o seu livro sobre livros que falam do Recife e deverá fazer um novo capítulo inclusive porque – quero dizer – eu que já não gostava mais do Recife voltei a admirá-lo intensamente.

Eu fiquei sabendo com profundidade que durante os anos da ditadura havia organizações bem junto d’agente lutando contra a ditadura. Eu então pensava numa esquerda muito menos ativa e mais burocrática. E mesmo quando aconteceu a traição de Cabo Anselmo e a morte de Soledad Barrett e outros companheiros, mesmo assim senti como se fosse algo no interior de Pernambuco.

Urariano não nos contou simplesmente uma estória, mas montou um grande painel – e jogou com duas épocas indo dos anos 1970 até 2016 – que mostrou toda a força de um Recife revolucionário. Embora tudo aconteça de maneira bem alegre. Inclusive naquela época a gente que fazia parte do Tropicalismo tínhamos a ideia de que éramos considerados alienados e com a discussão que está no livro vemos como um dos participantes – Vargas – comenta de forma corretíssima a música e poesia de Caetano.

Esse painel que temos – concordo totalmente – daria um grande filme num estilo como o do italiano Luchino Visconti e o Recife tem vários cineastas que poderiam fazê-lo, mas eu sugeria Camilo Cavalcante e sugiro a ele que procure Urariano e busque adquirir os direitos autorais, antes de outros.

Embora não conte uma estória, conta várias estórias e várias sequências fortíssimas como a de Vargas desesperado quando sabe da traição de Daniel e a de Joana indo a pé do bar Pérola até um espaço na Imbiribeira com o base e lá se juntarem amasiarem. Pra mim foi uma leitura de certa forma muito íntima, pois minha vida profissional é praticamente toda nesse espaço central e lugares do Recife. Certamente eu convivi com essas pessoas mesmo anonimamente e até tive uma vez na casa do Daniel Cabo Anselmo. Eu trabalhava na Guararapes no INPS de manhã e de tarde no Jornal do Commércio e ia muito no bairro do Recife marcar filmes para o Teatro do Parque e ia a bares como a Portuguesa, embora raramente ficava em bar até de manhã.

“A mais longa duração da juventude” além de tudo não é só um romance político, mas um romance muito bem realizado tecnicamente e uma leitura fundamental mesmo para quem gosta de literatura com profundidade”

O texto do imortal crítico de cinema Celso Marconi aqui

O romance da ditadura brasileira - Vermelho

Então aconteceu mais uma vez, de outra forma, a luz da memória coletiva. Acompanhem, por favor. Quando procurei o texto de Celso Marconi sobre o romance "A mais longa duração da juventude" no Facebook, eis que reencontrei este comentário de Luzia Amélia Jakomeit, conhecida pelo nome de Memélia Moreira, dignidade e honra do jornalismo brasileiro:

"Luzia Amélia Jakomeit

Celso Marconi Lins, Urariano Mota, quando eu estava lendo o livro, apelei para o Google Mapas e tive uma ideia que está valendo. Se eu morasse no Brasil, talvez pudesse pôr em prática. A ideia é criar um roteiro turístico-amoroso da resistência do Recife. E, quem sabe, fazer pacotes para os turistas. E se os bares citados ainda existem, o roteiro programaria o final do tour num desses bares. Eu realmente gostaria de fazer isso".

Do comentário de Luzia Amélia Jakomeit, fui para um dos seus textos sobre o romance, e redescobri estas suas palavras:

"Conversei com o autor algumas vezes e lhe disse que se tivesse capital criaria um roteiro turístico no Recife percorrendo as ruas, restaurantes, bordéis, pensões, a praia da Boas Viagem, Porto de Galinhas e outros logradouros que em vários momentos foram cenários daqueles meninos que carregavam no peito o ardor revolucionário; daqueles pós-adolescentes que eram feridos de morte quando cada companheiro caía nas mãos dos nossos implacáveis inimigos, entre eles Cabo Anselmo e o delegado Sérgio Fleury. E mais, que produziria um filme com inspirações de Jean-Luc Godard dos anos 60/70 e Fellini. A viagem daqueles combatentes a Porto de Galinhas é felliniana. Mais especificamente, uma 'Dolce Vita' de uma juventude que criava situações que poderiam subverter a perversa ordem social vigente e cujas armas eram o sonho, a palavra, uma arma talvez enferrujada e um simples mimeógrafo guardado sob cuidados. Um dos mais revolucionários instrumentos da nossa geração".

O texto flamante, alto e belo de Memélia Moreira (Luzia Amélia Jakomeit) aqui

Quanta paixão existe na alma revolucionária - Vermelho

Quando fui lançar o romance em São Paulo, lembro que falei para o público: “Quem somos nós sem os amigos? Quem somos nós sem os companheiros? Nada. Ou menos que nada!”. Ali, eu não mencionei que a memória é sempre memória coletiva. Mas penso que falei de outra maneira. Nestes dias ficou claro para mim. Hoje espero que a nossa memória fale sempre um abraço fraterno.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.