Memórias do russo que derrotou Napoleão sem dar um tiro

"Nem todo incendiário é maluco ou criminoso. Quando, no inverno de 1812, as invencíveis tropas de Napoleão estavam às portas de Moscou, prestes a tomá-la, o prefeito da cidade russa, Conde Fedor Rostopchine, sem contar com tropas russas para protegê-la, ordenou a retirada de toda a população e em seguida mandou incendiar tudo. Napoleão não encontrou uma cidade, mas cinzas. Não conquistou Moscou porque não tinha o que conquistar"; leia a análise do colunista do 247 Alex Solnik

"Nem todo incendiário é maluco ou criminoso. Quando, no inverno de 1812, as invencíveis tropas de Napoleão estavam às portas de Moscou, prestes a tomá-la, o prefeito da cidade russa, Conde Fedor Rostopchine, sem contar com tropas russas para protegê-la, ordenou a retirada de toda a população e em seguida mandou incendiar tudo. Napoleão não encontrou uma cidade, mas cinzas. Não conquistou Moscou porque não tinha o que conquistar"; leia a análise do colunista do 247 Alex Solnik
"Nem todo incendiário é maluco ou criminoso. Quando, no inverno de 1812, as invencíveis tropas de Napoleão estavam às portas de Moscou, prestes a tomá-la, o prefeito da cidade russa, Conde Fedor Rostopchine, sem contar com tropas russas para protegê-la, ordenou a retirada de toda a população e em seguida mandou incendiar tudo. Napoleão não encontrou uma cidade, mas cinzas. Não conquistou Moscou porque não tinha o que conquistar"; leia a análise do colunista do 247 Alex Solnik (Foto: Alex Solnik)

Nem todo incendiário é maluco ou criminoso.

Quando, no inverno de 1812, as invencíveis tropas de Napoleão estavam às portas de Moscou, prestes a tomá-la, o prefeito da cidade russa, Conde Fedor Rostopchine, sem contar com tropas russas para protegê-la, ordenou a retirada de toda a população e em seguida mandou incendiar tudo.

Napoleão não encontrou uma cidade, mas cinzas.

Não conquistou Moscou porque não tinha o que conquistar.

E assim o conde incendiário salvou o império da Rússia.

Certa senhora, um dia, encantada com sua ousada e ardilosa estratégia disse-lhe que deveria escrever suas memórias.

No dia seguinte o conde trouxe-lhe um pequeno rolo de papel.

"O que tendes aí?" perguntou-lhe a senhora.

"Conformei-me com as vossas ordens", tornou-lhe o conde; "redigi minhas memórias; e ei-las aqui".

"MINHAS MEMÓRIAS OU EU AO NATURAL ESCRITAS EM DEZ MINUTOS"

Índice dos capítulos

I. Meu nascimento; II. Minha educação; III. Meus sofrimentos; IV Privações; V. Épocas Memoráveis; VI. Retrato moral; VII. Resolução importante; VIII. O que eu fui e o que poderia ter sido; IX. Princípios respeitáveis; X. Meus gostos; XI. Minhas aversões; XII. Análise da minha vida; XIII. Recompensas do céu; XIV. Meu epitáfio; XV. Epístola dedicatória.

Capítulo 1. Meu nascimento. Em 1765, aos 12 de março, saí das trevas para o pleno dia. Mediram-me, pesaram-me, batizaram-me. Nasci sem saber porque e meus pais agradeceram o céu sem saber de que.

Capítulo II. Minha educação. Ensinaram-me toda a sorte de coisas e toda espécie de línguas. À força de ser impudente e charlatão passei algumas vezes por sábio. Minha cabeça tornou-se uma biblioteca ambulante desaparelhada, de que guardei a chave.

Capítulo III. Meus sofrimentos. Fui atormentado pelos mestres, pelos alfaiates que me faziam as casacas estreitas, pelas mulheres, pela ambição, pelo amor próprio, pelos pesares inúteis, pelos soberanos e pelas reminiscências.

Capítulo IV. Privações. Tenho sido privado dos três grandes gozos da espécie humana, o roubo, a glutonia e o orgulho.

Capítulo V. Épocas memoráveis. Aos 30 anos renunciei à dança; aos 40, a agradar ao belo sexo; aos 50, à opinião pública; aos 60, a pensar, e tornei-me um verdadeiro filósofo ou egoísta, o que é sinônimo.

Capítulo VI. Retrato moral. Fui teimoso como um jumento, caprichoso como um casquilha, jovial como um menino, preguiçoso como um arganaz, ativo como Bonaparte e tudo segundo minha vontade.

Capítulo VII. Resolução importante. Não tendo podido nunca ser senhor de minha fisionomia, dei rédeas à língua e contraí o hábito de pensar em voz alta. Isto procurou-me alguns gozos e muitos inimigos.

Capítulo VIII. O que fui e o que poderia ter sido. Fui mui sensível à amizade, à confiança; e se tivesse nascido durante a idade d'ouro fora eu talvez um bonachão completo.

Capítulo IX. Princípios respeitáveis. Nunca ingeri-me em casamento ou compadresco algum. Nunca recomendei cozinheiro nem médico; por consequência, não atentei contra a vida de ninguém.

Capítulo X. Meus gostos. Gostei das pequenas companhias e dos passeios nos bosques. Tinha uma involuntária veneração para o sol e o seu ocaso muitas vezes me contristava. Em cores, preferia o azul; na comida, o boi; em bebida, água pura; em teatros, a comédia e o entremez; em homens e mulheres, as fisionomias abertas e expressivas. Os corcundas dos dois sexos tinham para mim um encanto que nunca pude definir.

Capítulo XI. Minhas aversões. Tinha antipatia aos tolos e enfatuados, às mulheres intrigantes que fazem as virtuosas; repugnância para a afetação; compaixão para os homens que se pintam e as mulheres que se disfarçam; aversão para os ratos, os licores, a metafísica e o rhuibarbo; medo dos tribunais de justiça e dos animais danados.

Capítulo XII. Análise da minha vida. Espero a morte sem temor e sem impaciência. Minha vida foi um melodrama de grande espetáculo, onde fiz de herói, de tirano, de amante, de pai nobre, mas nunca de criado.

Capítulo XIII. Recompensas do céu. Minha grande felicidade é ser independente dos três indivíduos que regem a Europa. Como sou bastante rico, como dei de mão aos negócios e sou indiferente à música, não tenho por consequência que haver-me com Rotschild, Metternich e Rossini.

Capítulo XIV. Meu epitáfio. Aqui puseram para repousar-se com uma alma lassa um coração esgotado e o corpo usado, um velho diabo morto, senhores e senhoras, passai!

Epístola dedicatória ao público

Cachorro de público! Órgão discordante das paixões. Tu que exaltas o céu e engolfas na lama, que preconizas e calunias sem saberes o porque, imagem do sino, eco de ti mesmo, tirano absurdo, evadido da casa de doidos, extrato dos venenos os mais sutis e dos aromas mais suaves, representante do diabo junto à espécie humana, fúria mascarada em caridade cristã. Público! A quem hei temido na minha mocidade, respeitado na idade madura e desprezado na velhice, é a ti que dedico minhas memórias. Gentil público! Enfim estou fora de tua alçada porque estou morto e, por consequência, surdo, cego e mudo. Assim possas tu gozar dessas vantagens para teu repouso e do gênero humano.

(Conforme publicado no jornal O Maiorista, Rio de Janeiro, sábado, 27 de novembro de 1841)

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